terça-feira, 26 de outubro de 2021

Moscovo | Dia 30 de julho de 1991 - 2º dia de atividade

 Às 8.45h já estava tudo pronto, exceptuando o Bruno e o Ricardo, que ainda dormiam. Acordámo-los e fomos lá para baixo esperar por eles. Como nunca mais apareciam e porque já podíamos ir tomar o pequeno-almoço, lá fomos andando para o local das refeições, que não era no hotel. Entrámos num edifício que fazia lembrar um bar antigo. Tínhamos de seguir para o primeiro andar e era aí. Ao fundo da sala havia um pequeno palco; as mesas eram para quatro pessoas e havia uma divisória em azul entre as mesas. 

O pequeno almoço não era muito bem o que esperávamos, mas como também não sabíamos muito bem o que esperar... e era assim: tínhamos um pires com bastantes fatiazinhas de pão, só que o pão sabia a pão do dia anterior; depois, para cada um, tínhamos um pirezinho com três fatias de tomate, quatro pequenas fatias de carne assada, duas de queijo e um cubinho de manteiga. Ao centro da mesa estava uma taça de alumínio com doce de gila lá dentro. Para beber, tínhamos café, cujo açúcar levou o tempo do pequeno almoço inteiro para se dissolver, e tínhamos água.

Entretanto chegaram o Ricardo e o Bruno, que tiveram de comer à pressa. Quando estava tudo pronto, partimos. Íamos todos em massa: nós, o António, o Luís e o Nuno, e o surfista brasileiro mais a rapariga japonesa e a mãe.

Fomos em direção à estação de metro mais próxima. Ficámos admirados com o preço do metro, o,75$! Seguimos para as escadas rolantes. Outra admiração: para além de andarem muito depressa, eram enormes, uma eternidade, por ali fora... Finalmente, chegámos lá a baixo. O cais da estação era enorme e muito decorado. Íamos para o centro da cidade, mas as indicações estavam todas em russo... Dentro dos possíveis, desenrascámo-nos. Decidimos que íamos parar quatro estações a seguir. O metro era enorme, tão grande como a estação, para aí do tamanho de um comboio da linha de Sintra. Não estava muito cheio, mas também não dava para irmos sentados. Antes de chegarmos a cada estação, as luzes apagavam e acendiam. Quando chegámos ao destino, subimos umas escadas rolantes idênticas às primeiras e saímos da estação.

Queríamos ir ao Kremlin e então pusemo-nos a caminho. Enganámo-nos algumas vezes, tivemos de atravessar várias passagens subterrâneas, mas lá chegámos. Havia fila para entrar e nós pusemo-nos no nosso lugar. Só que quando chegou a nossa vez, não nos deixaram entrar por causa dos calções, ou não sei quê... mas nós achámos foi que estavam a embirrar com a farda. O Luís Bispo sugeriu que fôssemos 'num instante' ao Hotel, por uma roupita à civil, para podermos visitar este tipo de coisas. O Jaime achou que não, dizendo que seria melhor visitarmos outras coisas e que, quando regressássemos da Coreia, porque até teríamos mais tempo de escala, púnhamos então a roupa à civil para visitarmos aquilo e outras coisas onde não nos deixassem entrar uniformizados. Após alguma discussão, lá ficámos de acordo que não íamos ao hotel, se não então é que não víamos nada. O surfista e as japonesas entraram porque podiam e porque não tinham outro dia. Despedimo-nos e seguimos o nosso caminho.

Então, fomos mais ou menos por onde todos ou muita gente estava a ir, e fomos parar a um centro comercial que, de fora, aparentava ser uma estação de comboios. À entrada havia uma loja da Benetton. Alguns de nós entrámos para ver os preços e era tudo em dólares; para se pagar em rublos tinha de se mostrar o passaporte, uma confusão; de qualquer maneira concluímos que os preços eram idênticos aos de Portugal, ou seja, nada de adaptação ao custo de vida local.

Entre a admiração que outras montras nos causavam - por exemplo 3 rublos (15 escudos) por um vestido com ar de muito antigo - procurávamos um café. Quando finalmente descobrimos um, descobrimos também que o que as pessoas comiam (em pé) ao almoço era idêntico ao que comêramos ao pequeno almoço (talvez vagamente pior). Conseguimos então fazer um resumo às nossas descobertas e conclusões. É que ali, embora fosse tudo demasiadamente barato, era também demasiadamente precário, tendo em conta os nossos hábitos.

Demos mais uma volta ao "shopping center" de Moscovo e saímos em direção ao Mc Donald's. Pelo caminho (que ainda era grande) descobríamos a pouco e pouco como se lia russo, ou seja, que correspondência tinham as letras cirílicas em letras do "nosso" alfabeto. Tínhamos começado a brincadeira no dia anterior, mas agora estávamos num clímax de descobertas. Chegados finalmente ao local, deparámo-nos com uma enorme fila que tinha a largura de 4 a 6 pessoas e o comprimento era de uns 150 metros reais, mas que aparentava uns 400. Apesar da grandeza da fila, até andou depressa. Em 25 minutos estávamos na entrada do maior Mc Donald's do mundo. Entrámos. Como havia muitas caixas, despachámo-nos depressa até chegar ao balcão. Quando estávamos mesmo a chegar ao balcão, houve alguém que tentou abrir a bolsa do Jaime, e até abriu, mas o Jaime deu por isso a tempo e, antes que o indivíduo pudesse tirar alguma coisa, deu-lhe um safanão para trás.

Reparámos então no preço das coisas. Com a fome com que estávamos, até pagávamos mais ou menos o que fosse preciso. Mas não foi preciso contar o dinheiro, pois era muito barato. Era proporcional ao preço dos vestidos que tínhamos visto antes. Para uma ideia do preçário deste Mac Donald's, Um Big Mac, que é um hamburger com imensas coisas, o maior, custava 9 rublos, 45$ [0.22€]. Nunca nos passou pela cabeça comer um hamburger daquelas proporções por tão pouco. E por aí adiantes. Uma coca-cola eram 10$, um batido 17$50, tudo assim. Comemos "que nem uns porcos". Éramos ricos em Moscovo! Pelo menos para comer no Mac Donald's. Enfim. Fartámo-nos de comer, enchendo o estômago até acima.

Depois de muito debatermos o que fazer a seguir, decidimos ir aos correios, mas o Zé Inácio e o Cabrita quiseram ir comprar rolos para a máquina. É que se os preços fossem do género dos que encontrámos no Mac Donald's, valeria a pena. Combinámos por isso às 16h30 todos, às portas dos correios.

O posto de correios era um edifício bastante grande, mas já antigo, que fazia esquina com a avenida principal e uma acessória. Quando se entra, depara-se com um grande Hall, onde há um marco para se deitar a correspondência. Depois há duas salas principais - uma à esquerda e outra à direita. A da esquerda é onde se pagam os impostos, contas e onde se fazem os telefonemas. A do lado direito é onde se faz a parte da correspondência: telexes, telefaxes, telefonemas e telegramas, cartas e postais. Fomos então mandar um postal para os familiares e amigos. Por cada postal pagávamos 5$ e por cada selo, mais 5$. Que roubalheira, não?!

Ainda duvidámos da frequência com que são feitos os voos com a correspondência, ou o número de vezes que tiram a correspondência do marco, mas soubemos mais tarde, quando o Jaime telefonou aos pais, que tudo correra normalmente, sem atrasos, contrariando a nossa ideia pré-concebida.

Às 16h30, como tínhamos combinado, a dupla Zé Inácio e Cabrita não estava ali. Tínhamos de seguir para o Hotel, porque o autocarro para o aeroporto era às 18h, mas eles nada de aparecerem. Então, lá fomos para o Hotel, baseando as nossas esperanças na capacidade de desenrasque dos outros dois. Meu dito, meu feito! Quando, já no Hotel, esperávamos pelo elevador, apareceram os dois, fresquinhos que nem umas alfaces!

Fomos tomar um banho e despachar-nos depressita. Enquanto esperávamos o autocarro, apareceu o brasileiro mais a japonesa mas sem a mãe (segundo ele, ficou a dormir) e iam os dois para o Hotel Cosmos. Duvidámos ironicamente da situação.

Agora tínhamos um "pequeno problema". Sobravam-nos imensos rublos e é proibidíssimo levar a moeda russa para fora do país. Depois de pensar nos mais variados sítios para os esconder, concluímos que seria mais seguro não os esconder demasiado, para que não desconfiassem, caso descobrissem. Desde que não estivessem na carteira, que era o sítio mais provável se ser revistado, nem na nossa testa ou num bolso em que pudessem cair, tudo bem.

O autocarro veio e fomos a caminho do aeroporto. Infelizmente, o motorista deixou-nos no terminal errado. Mas nós sabíamos lá. Saímos e tirámos as bagagens, todos contentes da vida. Entretanto, o Tó soube que aquele era o terminal errado. Então, como não tínhamos muito tempo até ao voo, tivemos de ir de Taxi até ao outro terminal. O taxista cobrou-nos 10 dólares. Espero que tenha feito bom uso... À chegada ao terminal certo, antes de pagarmos, quisemos ter a certeza de que era aquele. E era. Pagámos, ainda que de má vontade, e entrámos no aeroporto. 

Tivemos de preencher mais uma declaração dos nossos bens e mentir à cerca do dinheiro que levávamos. Mas não queríamos arriscar trocar dinheiro outra vez e ficar outra vez sem uma parte dos dólares; além disso precisávamos dos rublos no regresso.

Nós levávamos um saco grande com as tendas e as recordações de Sintra para dar e trocar lá no Jamboree, e a empregada quis ver o saco, abriu-o, e retirou algumas das recordações. Bem, o melhor era não discutir, e lá seguimos. A seguir ficámos uma data de tempo para nos verem os passaportes. Para já, estava uma fila enorme, e depois, o funcionário que fazia a revisão, demorava muito, estamos ainda hoje sem saber bem porquê. Chamamos-lhe o eficiente, não contando outras críticas "positivas", mas ele nem pestanejou.

Quando já todos tínhamos passado pela tortura de tempo infinito a mostrar passaportes, a hora do voo também já tinha passado. Mas pareceu-nos que ali ninguém estava muito preocupado com as horas. Encontrámos escoteiros bolivianos que iam connosco até Seul. Entretanto chegou o autocarro que nos ia levar ao avião, já na pista. Fomos entrando, entrando, mas cortaram a entrada precisamente no Cabrita. Podiam tê-lo deixado passar, não? Estávamos todos vestidos de igual, e era natural ele vir connosco naquela leva de autocarro. Mas não. Lá ficou, esperando que o autocarro voltasse vazio para o levar, mais aos restantes passageiros.

Este avião tinha melhor aspecto do que o anterior. Partimos às 20.55h. Depois da emoção da descolagem e de algumas curvas apertadas, seguimos o azimute até Xangai, onde faríamos escala, sem sair do avião, para seguir para Seul. Tentando ultrapassar o tempo, o avião seguia um rumo mesmo entre o Sol e a Lua; estávamos mesmo entre o dia e a noite, o que fazia uma luz maravilhosa em todo o céu.

O jantar não foi muito diferente da outra refeição. Diferia na comida quente - hamburger, arroz e ervilhas, mas sem bolo. Como era um voo grande, a viagem deu para muito, principalmente para dormir.

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Lisboa-Moscovo na Aeroflot | Dia 29 de julho de 1991 – 1º dia de atividade

Esquecendo a última semana de total azáfama, de todos os preparos (primeiros e últimos) para a atividade que nos esperava; neste dia 29 de julho, a representação portuguesa no Jamboree da Coreia do Sul ia chegando aos poucos à agência de viagens da Aeroflot (companhia de transportes aéreos soviética).

A Rita e o Jaime chegaram lá primeiro, às 8.45h. Um pouco mais tarde chegaram, quase ao mesmo tempo, o Bruno e o Ricardo, que vinham da Costa da Caparica e de Cascais, respectivamente. A seguir chegaram o Zé Inácio e o Luís Cabrita que tinham ido buscar uns dólares que faltavam.

No fim da semana passada, ouvíramos do chefe do Corpo Nacional de Escutas (que estava a organizar ‘mais pormenorizadamente’ a viagem) que, como o voo de regresso não estava confirmado, talvez tivéssemos de pagar mais dinheiro – até 45mil escudos, o que nos fez, inevitavelmente, engolir em seco e sentirmo-nos angustiados com o acréscimo de dinheiro que nos apanhara sem defesa.

Ali, na agência de viagens, foi-nos assegurado o voo, o que nos fez sentir bem mais entusiasmados e calmos para as três semanas seguintes.

Na semana de que falei atrás, num dos dias da bela azáfama, o Bruno foi à Embaixada da Coreia do Sul. Foram muito simpáticos com ele e deram uma data de livros e livretes para cada um dos participantes do nosso grupo. Na Embaixada, foi-nos igualmente oferecido um almoço, aquando do nosso regresso.

Regressando à agência de viagem, e continuando no mesmo tema, enquanto aguardávamos os bilhetes, o Embaixador telefonou para lá, para falar com o Bruno. Perguntou-lhe a hora de chegada no dia 19 de agosto e disse que ia esperar-nos ao aeroporto.

Entretanto, dois dos três elementos do Corpo Nacional de Escutas que foram connosco à atividade, foram fazer os vistos à Embaixada da União Soviética e foram diretamente para o aeroporto.

Assim que acabámos de resolver o que era preciso na agência, fomos para a paragem de autocarro nos Restauradores, com as mochilas às costas, prontos para o início desta experiência única. Mas enganámo-nos na paragem. Quando vimos o autocarro que dizia “Aeroporto”, esticámos o braço, como quem – normalmente – manda parar. Mas o autocarro seguiu, como se não fosse nada com ele. E não era. Ficámos indignados, mas só nos restava perguntar a alguém na paragem onde era o sítio certo. Lá nos indicaram, e lá fomos para a frente do Teatro do Rossio. Ainda esperámos quase um quarto de hora e o bus lá veio para nos levar, e nós, já lá dentro, entre silêncios, consciencializávamos aquilo que íamos fazer.

O avião partiria às 13.20h e eram já 11.52h quando chegámos ao aeroporto! Depois das despedidas a alguns pais e da verificação dos bilhetes por um empregado da TAP algo mal encarado, seguimos por um chão rolante adentro, separando-nos assim de Lisboa e começando a levar-nos para um espaço neutro.

Na bicha para a pesagem das bagagens, estava uma série de russas, tão altas como muitos jogadores de Basket da NBA, aliás, deviam ser de uma equipa de basket.

Ao longo do dia anterior preocupámo-nos bastante com o peso máximo das bagagens, dúvidas sobre ele (20 ou 25kg) e a taxa alta que teríamos de pagar caso excedêssemos o limite. Mas afinal as mochilas pesavam menos do que esperávamos e podíamos trazer ainda muitos quilos de recordações. Depois de pesadas, as mochilas foram atiradas – sim, o temo não podia ser melhor – para um tapete rolante para serem levadas para o avião. Lá iam as nossas “mimis”!

Mostrámos os passaportes novinhos em folha (para a maioria de nós) e indicaram-nos a porta por onde sairíamos – era a número dois. Houve um senhor russo – já com os seus 50 e tal anos – que meteu conversa connosco em inglês (o primeiro a meter conversa connosco, mas um dos únicos a falarem inglês). Enquanto o Bruno, o Ricardo, o Jaime e a Rita falavam com o tal senhor – bastante simpático, mas que se tornava algo cansativo com o passar dos segundos – o Zé e o Cabrita, que assumira várias vezes durante a manhã passada o seu vazio no estômago, foram comer a última sandes portuguesa. Voltaram quando a porta para o exterior já estava aberta. Nós, como escoteiros que somos, lá deixámos passar à frente da fila dezenas de pessoas.

À falta de mangas de acesso, surgiu um autocarro que nos conduziu ao avião. A entrada neste, confirmou finalmente a nossa partida com destino ao oriente.

A seguir a uns largos minutos de espera, para que todos se sentassem, o avião partiu para a pista principal da Portela. Uma hospedeira anunciou, em russo e num inglês muito rápido, que íamos partir, que a viagem duraria 5 horas e para apertarmos os cintos. Ao fundo do avião havia um quadro iluminado que nos dava a mesma indicação.

O entusiasmo aumentou ainda mais quando o avião partiu, às 13.53h. Cada vez mais rápido, pela pista fora, aquele transporte pesado seguia, cada vez com mais força, até que começou a subir. “É impressionante como tantas toneladas podem levantar voo!” – foi o comentário do Zé Inácio, surpreendido com o fenómeno, após deixar algumas conversas onde escondia o receio da viagem (juntamente com os outros também).

Enquanto subíamos, gastámos algumas fotografias no país que deixávamos.

Nós todos estávamos a meio do avião, na linha das asas; mas mais ou menos separados: o Cabrita e o Zé Inácio estavam ao lado um do outro, do lado esquerdo do avião; atrás estavam o Jaime e a Rita; na fila de trás, mas do lado direito, estavam o Bruno e o Ricardo.

Ao lado dos primeiros citados no parágrafo anterior, estava um senhor que nos foi esclarecendo de alguma coisa sobre aviões e viagens neles. Por termos mencionado a aparência “esquisita” e algo enferrujada do avião, este senhor assegurou-nos que o avião chegaria a Moscovo.

Quando a altitude foi mais ou menos estabilizada, as hospedeiras trouxeram uma primeira bebida, antes do almoço. Podíamos escolher entre Pepsi-cola, água das pedras e água normal. Pouco depois veio o almoço. O tabuleirinho, colocado num suporte destacável do assento do passageiro da frente, apresentava uma série de coisinhas, tudo mais ou menos pequenino, para o espaço pequenino que tínhamos: um pãozinho pequenino (do tamanho de metade de uma carcaça pequena), um pacotinho de 15gr de manteiga; num pratinho de plástico estava um rissol de camarão, duas fatias de uma espécie de fiambre, mas que sabia a frango, um pouco de salda russa e uma azeitona. Numa caixinha de alumínio, do género daquelas das rações militares, vinham dois bifinhos fritos em margarina e um pouco de massa em lacinhos com um bocadinho de ket-chup em cima. Para a sobremesa havia um bolinho de ovo, com o tamanho aproximado de uma queijada de Sintra. Ainda no mesmo tabuleirinho, vinham umas saquetas com sal e pimenta; outra com açúcar, um palito para os dentes, faca e garfo embrulhados num plasticozinho, colher para o bolo e outra para mexer o café ou chá no fim da refeição, que eram deitados numa chávena previamente colocada, também, no tabuleiro. Havia ainda dois guardanapos.

Como as hospedeiras preferiam usar a língua russa, a falar aquele que pouco ou nada dominavam – a inglesa – foi-nos difícil comunicar com elas. De qualquer forma, para facilitar a comunicação, utilizámos a mímica e os encolheres de ombros.

Nesta refeição, e nas seguintes, ficámos com o sal e com a pimenta, porque não tínhamos temperos para as refeições que prepararíamos algures nos arredores de Seul. A seguir a este almoço (que até estava bom) e depois de nos rirmos mais um bocado com aquelas “chalaças” mais ou menos do costume; enquanto uns faziam contas de escudos e de dólares e a sua distribuição – Jaime, Cabrita e Zé Inácio – outros, dormiam ou tentavam dormir. Todos, formavam a futura patrulha portuguesa no Jamboree.

Durante esta viagem a casa-de-banho foi descoberta pouco a pouco por cada um de nós. Foi concluído que:

- o autoclismo deita um líquido qualquer verde azulado que cheira um bocado mal e é um bocado difícil encontrar o botão que se pressiona para sair o tal líquido;

- se pisarmos um pedal que há por baixo do lavatório, a água não sai; em vez disso apanhamos uma martelada na perna de um recipiente para papeis;

- a temperatura da água é regulada com uma pecinha que há por cima da torneira, da esquerda para a direita, e a água sai, se pressionarmos uma espécie de interruptor por baixo da torneira;

- o papel higiénico estava um bocado molhado;

- os poços de ar (ainda que pequenos) sentiam-se melhor lá.

Por volta das 6 foi anunciado pelas hospedeiras que estávamos a chegar a Moscovo. Depois de uns minutos, já estava tudo calmo, sentadinho e com os cintos apertados; alguns (como nós) a espreitar as janelas ansiosos por uma nova vista recheada de mistérios.

Pisámos a terra eram 18 e 40, hora de Lisboa. Mas em Moscovo eram duas horas mais. À saída do avião havia uma manga de acesso que nos conduziu ao aeroporto. Em primeiro lugar (ainda não muito conscientes do lugar onde chegáramos), fomos mostrar os passaportes a um empregado que nos olhou de alto a baixo, viu e reviu os passaportes, e entregou-no-lo duramente. Obrigado, ou melhor, Spassiva, em russo.

Não percebíamos nada daquilo, nem qual o nosso seguinte afazer. Mas uns portugueses que tinham vindo connosco no avião lá nos disseram. Tínhamos de preencher um formulário, onde declarávamos o que tínhamos e o que não tínhamos. Arriscávamo-nos não sabíamos lá muito bem a quê, se mentíssemos ou nos enganássemos a preencher o papel, caso revistassem a bagagem.

Lá fomos buscar as bagagens ao chão rolante e abancá-las num sítio lá no meio do aeroporto, enquanto procurávamos informar-nos sobre a troca de moeda americana pela russa. Trocámos 10 dólares cada um.

Tínhamos um autocarro à nossa espera para nos levar para um hotel onde íamos passar a noite. Pusemos as mochilas na bagageira com a ajuda de um surfista que ia para o Hawai e estava – como nós – a fazer escala de um dia em Moscovo, com mais uma “senhorita” japonesa e a mãe dela.

Já no autocarro reparámos que, aquando da troca do dinheiro, a senhora que nos fez o câmbio retirou 10 dólares, o que pareceu uma taxa de câmbio excessiva. Mas já não dava para voltar atrás.

Seguimos então viagem para o hotel, ouvindo os constantes comentários do brasileiro, que nos faziam rir um bocado.

Pelo caminho fora, que seguia sempre a direito, via-se imensos polícias. Quando parámos numa bicha de automóveis e vimos limousines a passarem, lembrámo-nos que tal se deveria à visita do presidente ou vice-presidente dos EUA.

Reparámos – tristemente – na qualidade dos automóveis, na pouca vida daquele local e da monotonia dos edifícios.

Quando chegámos ao hotel, tivemos de, mais uma vez, mostrar o passaporte. Faltando os computadores, levaram um certo tempo a organizarem a nossa pequena estada naquele hotel. Deram-nos um papelinho que indicava o quarto que deveríamos ocupar. Discriminadamente, mandaram a Rita para um quarto separadíssimo dos outros.

Já com as bagagens nos quartos, reunimos no quarto do Cabrita e do Zé. Ficou decidido nesta mini-reunião que a seguir íamos para o duche e depois camita. No dia seguinte reuniríamos de novo às 8.45h para irmos tomar o pequeno-almoço.

Os quartos não eram maus. Mas achámos quea diária, 60USD era excessiva. O sabonete era quase asqueroso e o papel higiénico era áspero.

A diferença horária – ainda que pequena – já fazia confusão. Assim, embora cansados, custou-nos a adormecer.

Sair de Moscovo no dia do golpe de estado | 19 de Agosto de 1991 - 22º dia de actividade

 A partida do autocarro para o aeroporto era às 6h. Já havia claridade quando nos levantámos, às 4h30, hora do início do golpe de estado. Nã...