Às 8.45h já estava tudo pronto, exceptuando o Bruno e o Ricardo, que ainda dormiam. Acordámo-los e fomos lá para baixo esperar por eles. Como nunca mais apareciam e porque já podíamos ir tomar o pequeno-almoço, lá fomos andando para o local das refeições, que não era no hotel. Entrámos num edifício que fazia lembrar um bar antigo. Tínhamos de seguir para o primeiro andar e era aí. Ao fundo da sala havia um pequeno palco; as mesas eram para quatro pessoas e havia uma divisória em azul entre as mesas.
O pequeno almoço não era muito bem o que esperávamos, mas como também não sabíamos muito bem o que esperar... e era assim: tínhamos um pires com bastantes fatiazinhas de pão, só que o pão sabia a pão do dia anterior; depois, para cada um, tínhamos um pirezinho com três fatias de tomate, quatro pequenas fatias de carne assada, duas de queijo e um cubinho de manteiga. Ao centro da mesa estava uma taça de alumínio com doce de gila lá dentro. Para beber, tínhamos café, cujo açúcar levou o tempo do pequeno almoço inteiro para se dissolver, e tínhamos água.
Entretanto chegaram o Ricardo e o Bruno, que tiveram de comer à pressa. Quando estava tudo pronto, partimos. Íamos todos em massa: nós, o António, o Luís e o Nuno, e o surfista brasileiro mais a rapariga japonesa e a mãe.
Fomos em direção à estação de metro mais próxima. Ficámos admirados com o preço do metro, o,75$! Seguimos para as escadas rolantes. Outra admiração: para além de andarem muito depressa, eram enormes, uma eternidade, por ali fora... Finalmente, chegámos lá a baixo. O cais da estação era enorme e muito decorado. Íamos para o centro da cidade, mas as indicações estavam todas em russo... Dentro dos possíveis, desenrascámo-nos. Decidimos que íamos parar quatro estações a seguir. O metro era enorme, tão grande como a estação, para aí do tamanho de um comboio da linha de Sintra. Não estava muito cheio, mas também não dava para irmos sentados. Antes de chegarmos a cada estação, as luzes apagavam e acendiam. Quando chegámos ao destino, subimos umas escadas rolantes idênticas às primeiras e saímos da estação.
Queríamos ir ao Kremlin e então pusemo-nos a caminho. Enganámo-nos algumas vezes, tivemos de atravessar várias passagens subterrâneas, mas lá chegámos. Havia fila para entrar e nós pusemo-nos no nosso lugar. Só que quando chegou a nossa vez, não nos deixaram entrar por causa dos calções, ou não sei quê... mas nós achámos foi que estavam a embirrar com a farda. O Luís Bispo sugeriu que fôssemos 'num instante' ao Hotel, por uma roupita à civil, para podermos visitar este tipo de coisas. O Jaime achou que não, dizendo que seria melhor visitarmos outras coisas e que, quando regressássemos da Coreia, porque até teríamos mais tempo de escala, púnhamos então a roupa à civil para visitarmos aquilo e outras coisas onde não nos deixassem entrar uniformizados. Após alguma discussão, lá ficámos de acordo que não íamos ao hotel, se não então é que não víamos nada. O surfista e as japonesas entraram porque podiam e porque não tinham outro dia. Despedimo-nos e seguimos o nosso caminho.
Então, fomos mais ou menos por onde todos ou muita gente estava a ir, e fomos parar a um centro comercial que, de fora, aparentava ser uma estação de comboios. À entrada havia uma loja da Benetton. Alguns de nós entrámos para ver os preços e era tudo em dólares; para se pagar em rublos tinha de se mostrar o passaporte, uma confusão; de qualquer maneira concluímos que os preços eram idênticos aos de Portugal, ou seja, nada de adaptação ao custo de vida local.
Entre a admiração que outras montras nos causavam - por exemplo 3 rublos (15 escudos) por um vestido com ar de muito antigo - procurávamos um café. Quando finalmente descobrimos um, descobrimos também que o que as pessoas comiam (em pé) ao almoço era idêntico ao que comêramos ao pequeno almoço (talvez vagamente pior). Conseguimos então fazer um resumo às nossas descobertas e conclusões. É que ali, embora fosse tudo demasiadamente barato, era também demasiadamente precário, tendo em conta os nossos hábitos.
Demos mais uma volta ao "shopping center" de Moscovo e saímos em direção ao Mc Donald's. Pelo caminho (que ainda era grande) descobríamos a pouco e pouco como se lia russo, ou seja, que correspondência tinham as letras cirílicas em letras do "nosso" alfabeto. Tínhamos começado a brincadeira no dia anterior, mas agora estávamos num clímax de descobertas. Chegados finalmente ao local, deparámo-nos com uma enorme fila que tinha a largura de 4 a 6 pessoas e o comprimento era de uns 150 metros reais, mas que aparentava uns 400. Apesar da grandeza da fila, até andou depressa. Em 25 minutos estávamos na entrada do maior Mc Donald's do mundo. Entrámos. Como havia muitas caixas, despachámo-nos depressa até chegar ao balcão. Quando estávamos mesmo a chegar ao balcão, houve alguém que tentou abrir a bolsa do Jaime, e até abriu, mas o Jaime deu por isso a tempo e, antes que o indivíduo pudesse tirar alguma coisa, deu-lhe um safanão para trás.
Reparámos então no preço das coisas. Com a fome com que estávamos, até pagávamos mais ou menos o que fosse preciso. Mas não foi preciso contar o dinheiro, pois era muito barato. Era proporcional ao preço dos vestidos que tínhamos visto antes. Para uma ideia do preçário deste Mac Donald's, Um Big Mac, que é um hamburger com imensas coisas, o maior, custava 9 rublos, 45$ [0.22€]. Nunca nos passou pela cabeça comer um hamburger daquelas proporções por tão pouco. E por aí adiantes. Uma coca-cola eram 10$, um batido 17$50, tudo assim. Comemos "que nem uns porcos". Éramos ricos em Moscovo! Pelo menos para comer no Mac Donald's. Enfim. Fartámo-nos de comer, enchendo o estômago até acima.
Depois de muito debatermos o que fazer a seguir, decidimos ir aos correios, mas o Zé Inácio e o Cabrita quiseram ir comprar rolos para a máquina. É que se os preços fossem do género dos que encontrámos no Mac Donald's, valeria a pena. Combinámos por isso às 16h30 todos, às portas dos correios.
O posto de correios era um edifício bastante grande, mas já antigo, que fazia esquina com a avenida principal e uma acessória. Quando se entra, depara-se com um grande Hall, onde há um marco para se deitar a correspondência. Depois há duas salas principais - uma à esquerda e outra à direita. A da esquerda é onde se pagam os impostos, contas e onde se fazem os telefonemas. A do lado direito é onde se faz a parte da correspondência: telexes, telefaxes, telefonemas e telegramas, cartas e postais. Fomos então mandar um postal para os familiares e amigos. Por cada postal pagávamos 5$ e por cada selo, mais 5$. Que roubalheira, não?!
Ainda duvidámos da frequência com que são feitos os voos com a correspondência, ou o número de vezes que tiram a correspondência do marco, mas soubemos mais tarde, quando o Jaime telefonou aos pais, que tudo correra normalmente, sem atrasos, contrariando a nossa ideia pré-concebida.
Às 16h30, como tínhamos combinado, a dupla Zé Inácio e Cabrita não estava ali. Tínhamos de seguir para o Hotel, porque o autocarro para o aeroporto era às 18h, mas eles nada de aparecerem. Então, lá fomos para o Hotel, baseando as nossas esperanças na capacidade de desenrasque dos outros dois. Meu dito, meu feito! Quando, já no Hotel, esperávamos pelo elevador, apareceram os dois, fresquinhos que nem umas alfaces!
Fomos tomar um banho e despachar-nos depressita. Enquanto esperávamos o autocarro, apareceu o brasileiro mais a japonesa mas sem a mãe (segundo ele, ficou a dormir) e iam os dois para o Hotel Cosmos. Duvidámos ironicamente da situação.
Agora tínhamos um "pequeno problema". Sobravam-nos imensos rublos e é proibidíssimo levar a moeda russa para fora do país. Depois de pensar nos mais variados sítios para os esconder, concluímos que seria mais seguro não os esconder demasiado, para que não desconfiassem, caso descobrissem. Desde que não estivessem na carteira, que era o sítio mais provável se ser revistado, nem na nossa testa ou num bolso em que pudessem cair, tudo bem.
O autocarro veio e fomos a caminho do aeroporto. Infelizmente, o motorista deixou-nos no terminal errado. Mas nós sabíamos lá. Saímos e tirámos as bagagens, todos contentes da vida. Entretanto, o Tó soube que aquele era o terminal errado. Então, como não tínhamos muito tempo até ao voo, tivemos de ir de Taxi até ao outro terminal. O taxista cobrou-nos 10 dólares. Espero que tenha feito bom uso... À chegada ao terminal certo, antes de pagarmos, quisemos ter a certeza de que era aquele. E era. Pagámos, ainda que de má vontade, e entrámos no aeroporto.
Tivemos de preencher mais uma declaração dos nossos bens e mentir à cerca do dinheiro que levávamos. Mas não queríamos arriscar trocar dinheiro outra vez e ficar outra vez sem uma parte dos dólares; além disso precisávamos dos rublos no regresso.
Nós levávamos um saco grande com as tendas e as recordações de Sintra para dar e trocar lá no Jamboree, e a empregada quis ver o saco, abriu-o, e retirou algumas das recordações. Bem, o melhor era não discutir, e lá seguimos. A seguir ficámos uma data de tempo para nos verem os passaportes. Para já, estava uma fila enorme, e depois, o funcionário que fazia a revisão, demorava muito, estamos ainda hoje sem saber bem porquê. Chamamos-lhe o eficiente, não contando outras críticas "positivas", mas ele nem pestanejou.
Quando já todos tínhamos passado pela tortura de tempo infinito a mostrar passaportes, a hora do voo também já tinha passado. Mas pareceu-nos que ali ninguém estava muito preocupado com as horas. Encontrámos escoteiros bolivianos que iam connosco até Seul. Entretanto chegou o autocarro que nos ia levar ao avião, já na pista. Fomos entrando, entrando, mas cortaram a entrada precisamente no Cabrita. Podiam tê-lo deixado passar, não? Estávamos todos vestidos de igual, e era natural ele vir connosco naquela leva de autocarro. Mas não. Lá ficou, esperando que o autocarro voltasse vazio para o levar, mais aos restantes passageiros.
Este avião tinha melhor aspecto do que o anterior. Partimos às 20.55h. Depois da emoção da descolagem e de algumas curvas apertadas, seguimos o azimute até Xangai, onde faríamos escala, sem sair do avião, para seguir para Seul. Tentando ultrapassar o tempo, o avião seguia um rumo mesmo entre o Sol e a Lua; estávamos mesmo entre o dia e a noite, o que fazia uma luz maravilhosa em todo o céu.
O jantar não foi muito diferente da outra refeição. Diferia na comida quente - hamburger, arroz e ervilhas, mas sem bolo. Como era um voo grande, a viagem deu para muito, principalmente para dormir.
Lembro-me que nesta viagem de avião Moscovo -> Seul, o comandante foi até ao polo para encurtar a rota. O que teve uma particularidade muito interessante. O comandante chamou-nos ao cockpit para testemunhar - vimos o pôr-do-sol e 5 mins depois o nascer-do-sol :)
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