segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Primeiras impressões de Seul | Dia 1 de Agosto - 4º dia de atividade

 Os primeiros a levantar-se foram o Zé Inácio e o Cabrita. Os outros ficaram a comer as bolachas Maria do Ricardo a ver se conseguiam arranjar coragem para se levantarem. Mas combináramos estar prontos às 9.00h para falarmos com o Chefe, e a carrinha vinha buscar-nos para levar-nos ao centro de Seul; portanto tivemos de arranjar coragem. Fomos tomar banho e fazer o pequeno-almoço, que foi Farinha Pensal de Chocolate feita com leite em pó (todos estes ingredientes e das outras refeições em campo foram comprados no Continente no dia anterior à partida). 

Depois de comermos, de lavarmos a loiça e de arrumá-la, fomos falar com o chefe. Ele trazia-nos o pequeno-almoço, mas já não era preciso... De qualquer modo guardámo-lo para outras refeições.

O Chefe perguntou-nos até quando iríamos ficar lá e nós concordámos unanimemente com a ideia do "até dia 7", que foi o que respondemos. Ele concordou, aliás era o dia em que a maioria dos escoteiros iam para Sorakson - o local do Jamboree. 

Ele acrescentou que a carrinha vinha buscar-nos naquele dia, mas não sabia se conseguiria arranjar carrinha todos os dias. 

A carrinha veio. Embora com mais espaço, continuávamos cheios de calor e depois o ar condicionado só funcionava às vezes. Em Seul, ficámos na estação. Primeiro pensámos em andar juntos durante o dia, mas depois o Tó, o Bispo e o Nuno preferiram andar à sua vontade.

Pusemo-nos a pensar um bocado e decidimos ir à Embaixada. Vimos o caminho pelo mapa e pusemo-nos a andar. Pelo caminho passámos pelos correios e comprámos selos e postais. Mandámos alguns e guardámos os selos restantes. Quando chegámos à Embaixada - que era num edifício novo e grande - íamos começar a falar em inglês quando nos dirigiram a palavra em português, bastante bem falado. Perguntámos se podíamos falar com o Embaixador, mas elas responderam que ele não estava. 

Como nós durante estes dias em Seul queríamos conhecer a cidade o melhor possível, pedimos que nos dissessem os sítios mais giros para se visitarem. Entretanto chegou a conselheira do Embaixador. Ficou muito contente com a nossa visita. Viemos a saber por ela os nomes das funcionárias com quem falámos. Elas têm nomes em coreano e em português, para ser mais fácil. A conselheira chama-se Maria Júlia e as funcionárias, Mónica e Isabel. Perguntámos de novo pelo Embaixador e disse-nos que ele ia deixar de ser Embaixador e que estava agora a arranjar as coisas para partir. Depois aconselhou-nos uma data de sítios para visitar.

Como a Rita era muito parecida com uma sobrinha dela que se chama Guida, começou a chamar-lhe Guida. Em vez de escoteiros, chamou-nos escudeiros - sempre. A senhora conselheira era muito despachada e estava contente com a nossa visita. Durante a conversa, falámos de Moscovo e de como era. Reparámos que, em vez de Moscovo, dizia Moscow, e que em vez de URSS dizia USSR, tudo pegado. Eis se não quando, estava a D. Maria Júlia a falar com a Mónica e diz de repente: "É que eu gostava de ir almoçar com eles". Não era por nada, mas era mesmo o que queríamos. Então, acabada a conversa, saímos para almoçar. Seguimos por umas ruas até um belíssimo restaurante ao ar livre. Mandaram trazer pratos que não fossem muito picantes mas havia lá um que picava e muito. Comemos uma sopa gigante que enchemos com arroz que vinha numa tigela à parte; aquilo que picava imenso que não sei descrever, e aprendemos a comer com pauzinhos. À sobremesa comemos melancia. Para disfarçar o picante na garganta, bebemos água, muita água...

A seguir ao almoço regressámos à Embaixada. Falámos sobre os mercados em Seul. A Conselheira disse-nos que, ao preço que nos pedissem, deveríamos dividi-lo por metade, e a partir daí, discutir o preço até ao mínimo. Um pouco mais tarde, enquanto falávamos de coisas sobre Portugal e bebíamos café e comíamos bolachinhas, aproveitámos para ir discretamente, um a um, à casa de banho, que era esplêndida. A partir daí, batizámos todas as casas-de-banho de "embaixadas". 

A combinação final com a conselheira foi que, no dia seguinte, telefonávamos entre as 4h e as 4h30 a fim de combinar encontrarmo-nos num sítio para irmos todos às compras a um lugar onde vão muitos turistas e há muitas imitações "genuínas" e "más imitações" [de coisas de marca] disse ela, perto da base americana em Seul (um mercado que os americanos fizeram ali há três anos).

A seguir fomos ao Museu Nacional de Arqueologia. Tínhamos combinado encontrarmo-nos com o Tó, o Bispo e o Nuno na estação às 17h30 pois a carrinha vinha buscar-nos às 18h, por isso não tínhamos muito tempo para estar no museu. O museu era enorme, com quatro andares. As exposições às quais pode dizer-se que demos apenas uma vista de olhos eram nas salas que circundavam uma sala grande, tipo assembleia, que tinha a altura total do edifício. Foi esse o sítio do museu que mais apreciámos.

No caminho - apressado - do regresso, reparámos nalgumas bancas de venda que vendiam peixe seco. Reparámos num - único - peixe fresco, com grandes cubos de gelo a tentarem manter a frescura do peixe. Ficámos contentes por termos chegado perto da estação, do outro lado da avenida, dentro do horário combinado. Descemos a uma passagem subterrânea e perdemo-nos. Aquilo tinha caminhos por todos os lados. Tentámos um e outros e nunca mais dávamos com o raio da estação. Para ajudar, as tabuletas eram muito elucidativas, todas em coreano, claro. Por fim, e atrasados, demos com a estação. O Tó disse-nos que a carrinha já lá estava há um bocado. Fomos a correr para ela. Connosco, na carrinha, estava também um chefe mexicano que ia ficar no campo de formação.

Quando chegámos ao campo, qual não foi a nossa frustração, quando percebemos que o chefe mexicano ia ficar a dormir dentro da sede. Sentimo-nos um bocado discriminados. Mas também, já estávamos bem instalados na tenda, que era enorme, também não tinha importância. 

Depois fomos tomar banho. Antes do jantar, o Zé Inácio e o Jaime lavaram a camisa. Quando  Zé ia estendê-la, chegou o Mr. Jun e, entre mímica, conseguiu convencer o Zé a encharcar a camisa e a segui-lo. Era para metê-la na máquina de secar! 

Comemos o mesmo que no dia anterior, mas estava melhor - parecia que nos habituávamos bem às comidas de pacote. Estávamos com grande pedalada para falar e o Jaime, o Cabrita e o Zé Inácio, juntamente com o Tó, o Bispo e o Nuno, ficaram a contar as suas aventuras e desventuras das descidas e subidas de rios que já fizeram. 

Deitámo-nos às 23h30.

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

De Moscovo a Seul | Dia 31 de Julho de 1991 - 3º dia de atividade

Quando já sobrevoávamos a China, vimos ao longo de bastante tempo, a muralha. Durante a descida a Xangai, o piloto andava às voltas com o avião, e havia muitos poços de ar. Em Xangai parámos durante uma hora e meia. Durante a paragem, surgiu um nevoeiro esquisito do teto do avião. Achámos aquilo um bocado estranho (por inexperiência), mas lá nos habituámos. Infelizmente não pudemos sair. Assim, ficámos dentro do avião, a gozar a cena que se passava lá fora - nas pistas acessórias podiam observar-se pessoas a andar de bicicleta na maior das calmas, como se nada fosse. Penso que em nenhum outro aeroporto se lembrariam de deixar pessoas a circular de bicicleta [poderiam ser trabalhadores, mas nada o indicava claramente] pelo aeroporto fora.

No princípio da segunda parte da viagem (a seguir a mais poços de ar e tentativas de sair dali), ouvimos e aplaudimos músicas que os Bolivianos cantavam. Depois, uma rapariga coreana de 16 anos que o Ricardo conhecera no avião, foi lá ter connosco onde estávamos sentados e ensinou ao Ricardo o abecedário coreano e algumas expressões coreanas. Já no fim da viagem, tivemos de preencher um formulário que era obrigatório entregar no aeroporto de Seul. Fez-nos impressão como estávamos já às 17.15h de Seul do dia 31 de Julho! Custou-nos a habituar.

Ao contrário das expressões duras dos russos, aqui os coreanos sorriam e cumprimentavam-nos com alegria [creio que muita gente estaria informada do evento internacional]. Reparámos na sofisticação do aeroporto. Quando chegámos ao sítio onde tínhamos de mostrar os passaportes, além dos inúmeros anúncios ao Jamboree, estava lá um escoteiro com uma tabuleta na mão a dizer Portugal. Começámos a sentir uma organização extrema que nos fez sentir bem. O escoteiro falava inglês e ajudou-nos a preencher o resto dos formulários. A seguir a mostrar o passaporte fomos buscar as mochilas. Este escoteiro, e outro que o acompanhava, oferecia constantemente carros de carga, pois achou-nos demasiado carregados com aquelas mochilas. De seguida fomos trocar dinheiro. Aqui as contas com dinheiro também eram fáceis. Era só dividir por cinco. Um Wouwn é equivalente à quinta parte de um escudo - vinte centavos [4 cêntimos de euro]; ao contrário de um rublo, que vale 5 escudos. Era fácil, portanto.

À saída do aeroporto, tínhamos uma carrinha só para nós, que ia levar-nos até um campo de formação de escoteiros, a 30km do centro de Seul. Assim que saímos para o exterior, parecia que tínhamos entrado numa piscina coberta. O céu estava coberto de nuvens e estava muito calor e muita humidade. Colocámos, com algum custo, todas as bagagens e toda a gente na carrinha. Mesmo com calor e suores, estávamos cansados e dormitámos um pouco.

O campo de formação de escoteiros ficava nos subúrbios da cidade, bastante isolado e ao pé de um campo de golfe e de um campo de arroz. O edifício da sede imitava uma tenda. Tinha uma sala grande assim que se entrava, com uma mesa de reuniões. À volta desta, podiam observar-se bustos de figuras importantes do escotismo coreano e posters de acampamentos. Mais perto da entrada e à esquerda, havia um balcão com coisas do Jamboree à venda. Depois ao pé havia uma porta que dava para o escritório do presidente. Do outro lado havia um grande refeitório e outras salas. Estivemos a falar com o chefe e conhecemos o senhor que tomava conta daquilo - o Se. Yum, uma figura caricata, com quem aprendemos várias coisas e nós também lhe ensinámos, apesar de ele não saber falar inglês.

Deram-nos duas tendas grandes. Uma ficou para os CNE e a outra para nós. O Jaime, o Zé Inácio e o Cabrita ficaram a montar a tenda, enquanto o Bruno, o Ricardo e a Rita ficaram nas escadas do edifício da sede. Entretanto, começou a chover, mas até soube bem. As mochilas, que tinham ficado à porta da sede, foram carregadas pelos três mais novos. A seguir brincámos com um cachorrinho que lá havia.

Depois de tudo arrumadinho, fomos tomar banho. O banho frio soube bastante bem, mas com a humidade e o calor, passados cinco minutos, apetecia-nos mais um banho. A seguir fomos preparar o jantar. Ao pé dos balneários e das casas de banho (que além de não serem limpas há bastante tempo, tinham uns besouros horrorosos) havia um chafariz e uma mesa. Foi aí que preparámos o jantar e a maior parte das outras refeições no campo de formação. O nosso jantar foi arroz à valenciana, daquele de preparação instantânea. Depois do jantar e de se ter lavado a loiça, fomo-nos logo deitar.  

Sair de Moscovo no dia do golpe de estado | 19 de Agosto de 1991 - 22º dia de actividade

 A partida do autocarro para o aeroporto era às 6h. Já havia claridade quando nos levantámos, às 4h30, hora do início do golpe de estado. Nã...