segunda-feira, 16 de maio de 2022

Rádio, lama e muito mais | Dia 10 de Agosto de 1991 - Sábado, 13º dia de atividade

 A alvorada, à qual nos tínhamos de habituar, foi mais uma vez às 6h. Não apetecia mesmo levantar, pois a chuva persistia e ameaçava continuar pelo dia fora. Mas, mais cedo do que os outros, levantaram-se o Zé Inácio e a Rita para irem buscar a comida para o grupo. Depois das lavagens, tomámos mais uma vez um excelente pequeno-almoço, que deesta vez diferia nos corn-flakes normais: eram de mel e às estrelinhas [presumo que não conhecesse as estrelitas em 1991 em PT].

Depois de hastearmos a bandeira e cantar o hino, partimos para os nossos afazeres.

O Ricardo foi para os Mopeds [falta explicação]. O Jaime foi fazer umas compritas e o Zé Inácio, depois de dar uma volta pelo campo, também foi.

A Rita foi à tenda das receções dos brasileiros, com o Tó e com o Cabrita, porque ia dar uma entrevista para a Rádio Coreana. Felizmente, a jornalista sabia falar português, embora fosse coreana. A repórter parecia muito atrapalhada e só conseguia falar em espanhol. Depois de "atinar" com a língua, lá fez as perguntas. A seguir a Rita ia fazer a atividade de Rádio Amador, mas ainda faltava bastante tempo, então foi com o Cabrita ver as coisas ali à volta. Ao pé do atelier de Rádio Amador havia uma tenda onde era a Igreja Protestante, onde davam leques e gelados de borla a quem lá fosse visitá-los.

A seguir foram ao atelier de computador onde viram escoteiros aprenderem as bases (mais básicas) de informática e alguns faziam desenhos ou construíam textos e depois imprimiam. Viram um escoteiro coreano muito compenetrado a desenhar o símbolo do Jamboree que copiava a olho de um poster que estava na parede. Fora do recinto, os escoteiros que esperavam pela atividade davam toques num género de pompom. O melhor com os pés naquela brincadeira era, claro, um chefe coreano. A particularidade dos toques é que, em vez de se darem alternadamente com os pés e joelhos, dobravam a perna para cima e para dentro e devam-se os toques só com a parte interior do pé.

Depois estiveram a dar uma vista de olhos às tendas dos diversos países. Quando voltavam, viram o Bruno, que vinha do Pioneirismo e que os levou a ver. Nesta atividade, os escoteiros podiam testar a imaginação para inventar nós e ligações. Nesta atividade, podia-se escolher entre construir em equipa uma torre de vigia, uma ponte Himalaia ou uma ponte levadiça.

O Bruno e o Cabrita foram de seguida para a atividade de motocross onde se sujaram todos de lama. A Rita seguiu para a atividade de Rádio Amador. Ali, havia um chefe americano que dava umas noções de código morse e as bases do funcionamento da Rádio Amador pelo mundo fora. Disse que os Rádio Amadores tinham um código em vez de um nome. Mostrou que conseguia emitir em Morse até 35 palavras por minuto, embora o normal sejam cerca de 20. Adiantou ainda que, para chamar um país, há determinadas iniciais e que este tipo de rádio funciona em onda curta. Depois construíram um pequeno sistema elétrico que funcionava com uma pilha e que tinha umas luzinhas que acendiam e apagavam. Os chefes que estavam a orientar esta atividade disseram que era para meter atrás da anilha do lenço.

Ao almoço, estávamos todos menos o Bispo, e decidimos inventar um grito para as refeições em que cada um dizia uma coisa. E ficou assim: o Bruno começava por dizer "Então?", depois o Ricardo, "Quando é que isto começa?", e o Cabrita, "Uhm?", a Rita, "Sei lá!", e o Zé Inácio, "Agora?", depois o Jaime, "Ainda não", e depois o Nuno, "Já!" e no final dizíamos todos "Komsa Humninda", que é como se diz obrigado em coreano. As habituais ricas sandes do almoço souberam-nos melhor.

À tarde, o Jaime, o Zé Inácio e o Cabrita foram fazer tiro ao alvo com arco, e depois com armas X-2.

O Bruno, a Rita e mais uma rapariga das Faroe Islands foram fazer serigrafia. Era ao pé da pequena arena. Levaram uma t-shirt para fazer a estampagem. Como estava muita gente, demoraram bastante tempo, mas divertiram-se a ver os oradores daquela tarde.

Ao fim da tarde, já no campo, foi lá um escoteiro belga que quer muito ser português. Ele conhece muitas terras portuguesas, fala português (razoavelmente) porque foi a Portugal há dois anos numa acampamento e no ano passado também. 

Às 18h apareceu o Tó e disse que precisava de alguém para cantar a canção do Jamboree no coro para o "Youth Concert" que ia haver às 20h. A Rita ofereceu-se e lá foi para o coro. Chegou lá e teve de esperar algum tempo - o suficiente para aprender a música. Depois mandaram todos subir ao palco, e ensaiaram uma vez. A segunda vez já foi o início do espetáculo. Depois começou a chover e os músicos não quiseram tocar assim. Ainda se esperou bastante tempo, mas a chuva continuava e o "show" não se realizou.

O Zé Inácio e o Jaime, depois da reunião de chefes de sub-campo que tiveram às 18h, ficaram lá para um cocktail oferecido pelo chefe de sub-campo. Entretanto, no nosso campo, jantava-se. Desta vez foi peixe frito com batatas.

O Bruno e o Cabrita foram à procura do campo onde estava acampada a Stoffel, a anfitriã do Cabrita quando do Fabula89. Como não a encontrara, foram à arena grande ver se havia o tal "Youth Show", mas não houve, como já se disse atrás. Entretanto, como o escoteiro belga os tinha convidado para ir a uma pequena festa organizada pela Itália no subcampo 6, lá foram e divertiram-se bastante. Quando voltaram ao campo, estava tudo a falar com a Stoffel, que acabara de chegar. Finalmente o Cabrita encontrou a sua amiga e ficámos todos a falar um bocado. 

Começou a ficar tarde, e fomo-nos deitando.

quinta-feira, 12 de maio de 2022

Jogos tradicionais, mercado e informática | Dia 9 de Agosto de 1991, sexta-feria, 12º dia de atividade

 Hoje foi a vez do Bruno e do Bispo irem buscar o pequeno-almoço e o almoço. Depois das lavagens, tivemos mais uma vez um pequeno-almoço que foi um senhor pequeno-almoço. O Jaime falou-nos do resultado da reunião do dia anterior. Destinou, à sorte, as fichas de participação nas atividades a cada um e depois, de acordo com os gostos de cada, fizeram-se algumas trocas, que se realizaram não só entre nós, mas também com os escoteiros marroquinos e das Ilhas Faroé. 

Às 8.30h foi o hastear da bandeira, para o qual nos fardámos com o lenço e o chapéu do grupo 93. Contudo, a corda não deslizava bem na roldana que estava no topo do mastro, e a Rita não conseguia hastear a bandeira.

À seguir à cerimónia protocolar, começámos a sair para as atividades. Apenas o Jaime e o Cabrita ficaram a arranjar o mastro. A Rita e o Zé Inácio foram fazer jogos populares coreanos. Havia 4 jogos mas só tínhamos de fazer dois, e fizemos os que parecia que íamos gostar mais. Um era um baloiço, o tal baloiço tradicional, onde andam principalmente os homens. No baloiço anda-se de pé. Tem de se fazer bastante força de braços e dar balanço fletindo as pernas. 

O outro foi saltar de pé num sobe e desce em que está uma pessoa ao centro a equilibrar os movimentos, tipo eixo, e outras duas a saltarem. Só se pode saltar quando o parceiro termina a descida do seu salto. Este jogo, tradicionalmente jogado pelas mulheres coreanas, era uma maneira de mostrar que as mulheres também faziam alguma coisa além dos trabalhos domésticos. Os outros dois jogos consistiam numa dança coreana e uma luta livre onde os lutadores colocam um cinto especial e agarram-se à cintura dos adversários, baixando o tronco. Nessa posição, iniciam o assalto, que termina quando um deles consegue atirar o outro ao chão.

Quando, por volta das 10.40h, a Rita e o Zé encontraram o Jaime e o Cabrita a meio caminho das suas atividades, resolveram ir à zona dos mercados. Debaixo de um grande toldo, vendiam-se muitas coisas, muitas delas que faziam parte do artesanato coreano. Havia máscaras, leques, biblôs, pulseiras, anéis, colares; havia até um sítio onde, na hora, se podia fazer a inscrição de um nome e da data da inscrição numa pequena medalha. Além destas coisas típicas, muitas das bancas vendiam t-shirts dos últimos jogos olímpicos e a respetiva mascote. Este mercado era composto de quatro fileiras de bancadas, havendo um corredor central. Na zona de compras do lado de fora da tenda havia pouca gente, pois chovia imenso e, para estar a ver as coisas à vontade, só lá dentro. 

Perto deste mercado, mas numa tenda separada, estava o "mercado do Jamboree". Ao balcão havia filas de pessoas a comprar tudo e mais alguma coisa. Desde t-shirts, porta-chaves, anilhas de lenço, lenços, bonés, até mochilas, toalhas de praia, tudo com o símbolo do Jamboree. Havia até um papelinho com a lista de todas as coisas para que as pessoas fossem colocando uma cruzinha, à medida que adquiriam os diferentes items. O Jaime e o Cabrita foram até ao banco trocar algum dinheiro. Quem trocasse dinheiro no acampamento, tinha direito a um porta-chaves do Jamboree. Depois o Jaime e a Rita foram aos correios, que eram ao lado do banco, para ligar à embaixada de Seul a dizer que chegáramos bem, mas nenhum de nós tinha ali o número da embaixada.

Embora estivesse a chover muito, havia uma data de escoteiros, especialmente norte-americanos a verem óculos de sol. Mas a atração quase principal do mercado eram as tais medalhinhas onde se gravava o nome e a data.

Quando voltaram para o campo, já muitos tinham almoçado. O Bruno, de manhã, tinha feito um porta-chaves e um leque na atividade de artesanato. Só tinha direito a fazer um, mas lá o deixaram fazer os dois. Para fazer o porta-chaves faziam um barulho enorme a martelar uma pecinha. Para o leque, o difícil era colar as últimas três ripas de madeira ao papel do leque, e tinham de desenhar uma pintura tradicional coreana. Havia mais duas atividades de artesanato: uma era um bonequinho que já estava feito e era só preciso pintar, para depois pendurar ao pescoço e a outra era uma anilha onde se colava a parte exterior à interior e dava-se lustro. 

Voltando ao almoço, o Bruno já estava a acabar de almoçar e ia agora para uma atividade de Hiking, que era em grupos de 20, faziam 6km ao longo da costa, no Parque nacional de Sorakson.

Mas o almoço foi o costume. Sandes cheias de condimentos com muita mostarda, maionese e ketchup. Para beber, desta vez foi uma bebida que sabia a pastilha elástica e a fruta foi melancia. 

O Cabrita era para ir fazer a atividade de "orador". Esta atividade, que se realizava numa pequena arena ao pé do nosso subcampo, consistia em falar, cantar ou fazer alguma coisa no palco durante pelo menos um minuto. Esta atividade decorria ao longo de todo o dia. Mas resolveu fazer ciclocross. No entanto, como chovia a potes, a atividade não se realizou (era 1km em zonas sinuosas e já de si lamacentas). Mais tarde, foi ao subcampo um.

A Rita foi fazer orientação. Quando chegou lá, deram-lhe um mapa onde estavam assinalados vários pontos. Cada ponto por onde se passasse, ganhava-se pontos (15, 20 ou 25, conforme a dificuldade em chegar ao local). Podia-se ir para o ponto de chegada onde se furava a pulseira quando se tivesse mais de 100 pontos. Com ela iam mais dois japoneses e dois coreanos que não sabiam falar inglês. Mas não houve problema por causa da dificuldade de comunicação. Até se divertiram bastante a rirem-se quando alguém caía na lama, que era "ligeiramente" escorregadia.

O Ricardo foi fazer a atividade de computadores, utilizando um IBM PC 5540 e impressora e aprendeu a estabelecer um programa e o seu funcionamento. Havia uma equipa de três participantes por aparelho e a linguagem de programação era BASIC.

Ao fim da tarde, estávamos a contar as nossas aventuras, quando aparece uma escoteira do contingente francês a falar português. Era francesa porque os pais emigraram para França. Disse-nos que já estava à nossa procura há muito tempo e achou-nos. Chama-se Maria Amélia. Tem 19 anos e no grupo dela é chefe dos lobitos. Convidámo-la para jantar, mas já tinha jantado.

Jantámos frango com arroz e batatas e uma data de coisas. Para o jantar tinham-nos dado 4 frascos de picante para fazer o frango (!) Nós só utilizámos um pouco de um e já estava picante. Imaginámos "quão ardente" iria ficar o nosso prato com toda aquela mistela avermelhada no comer.

Às 20h era para haver a "noite coreana", mas como estava a chover muito, não houve.

O Tó, que passara o dia a ver as tendas representativas de cada país*, conheceu o chefe brasileiro que nos convidou para passarmos lá depois do jantar.

 *Perto da grande arena onde se realizavam as grandes cerimónias, havia uma tenda para cada país, onde cada um tinha a oportunidade de representar o seu país, apresentando-se da melhor maneira, com fotografias de paisagens, e quando outros visitavam, tinham a oportunidade de explicar tradições locais, gastronomia, etc.

Fomos então ver a exposição do Brasil. Ao chegar, sentimo-nos logo bem, principalmente porque sabia bem falar português ao fim de um dia todo a falar inglês, e também porque fomos muito bem recebidos. Depois daquela chuva toda, soube bem despir o impermeável, e beber um ou dois cafés, bem fortes. O chefe Ignácio ficou feliz por haver um português com um nome semelhante. Por isso, quando distribuiu lembranças do contingente, como só tinha duas t-shirts, uma foi para o Zé Inácio, e outra para a Rita, a única menina. No Brasil, dizer rapariga muitas vezes adquire o significado de prostituta. Por isso quando os amigos disseram, "é por ser a única rapariga", o chefe Inácio estranhou. E depois explicou-se a situação.

A seguir ao café e às lembranças, estivemos a falar com o Ignácio, que estava a informar-nos sobre a vida socioeconómica do Brasil, que, segundo ele, é em parte muito difícil e com muitos problemas; mas os brasileiros têm dificuldade em sair do país: "uma vez lá instalado, vocês não quer mais sair de lá", disse, com um sorriso, sublinhado pela cara risonha que já tinha naturalmente.

Acabada a conversa, e já mais aquecidos, regressámos ao nosso campo. Felizmente, já não chovia, mas infelizmente, o céu prometia chover mais.

Antes de nos deitarmos, fizemos e/ou melhorámos os regos à volta das tendas. O Zé Inácio e o Cabrita descobriram uma "piscina" na sua tenda. Lá limparam tudo, e dormiram o mais seco possível. 

Sair de Moscovo no dia do golpe de estado | 19 de Agosto de 1991 - 22º dia de actividade

 A partida do autocarro para o aeroporto era às 6h. Já havia claridade quando nos levantámos, às 4h30, hora do início do golpe de estado. Nã...