Esquecendo a última semana de total azáfama, de todos os preparos (primeiros e últimos) para a atividade que nos esperava; neste dia 29 de julho, a representação portuguesa no Jamboree da Coreia do Sul ia chegando aos poucos à agência de viagens da Aeroflot (companhia de transportes aéreos soviética).
A Rita e o Jaime chegaram lá primeiro, às 8.45h. Um pouco mais tarde chegaram, quase ao mesmo tempo, o Bruno e o Ricardo, que vinham da Costa da Caparica e de Cascais, respectivamente. A seguir chegaram o Zé Inácio e o Luís Cabrita que tinham ido buscar uns dólares que faltavam.
No fim da semana passada, ouvíramos do chefe do Corpo Nacional de Escutas (que estava a organizar ‘mais pormenorizadamente’ a viagem) que, como o voo de regresso não estava confirmado, talvez tivéssemos de pagar mais dinheiro – até 45mil escudos, o que nos fez, inevitavelmente, engolir em seco e sentirmo-nos angustiados com o acréscimo de dinheiro que nos apanhara sem defesa.
Ali, na agência de viagens, foi-nos assegurado o voo, o que nos fez sentir bem mais entusiasmados e calmos para as três semanas seguintes.
Na semana de que falei atrás, num dos dias da bela azáfama, o Bruno foi à Embaixada da Coreia do Sul. Foram muito simpáticos com ele e deram uma data de livros e livretes para cada um dos participantes do nosso grupo. Na Embaixada, foi-nos igualmente oferecido um almoço, aquando do nosso regresso.
Regressando à agência de viagem, e continuando no mesmo tema, enquanto aguardávamos os bilhetes, o Embaixador telefonou para lá, para falar com o Bruno. Perguntou-lhe a hora de chegada no dia 19 de agosto e disse que ia esperar-nos ao aeroporto.
Entretanto, dois dos três elementos do Corpo Nacional de Escutas que foram connosco à atividade, foram fazer os vistos à Embaixada da União Soviética e foram diretamente para o aeroporto.
Assim que acabámos de resolver o que era preciso na agência, fomos para a paragem de autocarro nos Restauradores, com as mochilas às costas, prontos para o início desta experiência única. Mas enganámo-nos na paragem. Quando vimos o autocarro que dizia “Aeroporto”, esticámos o braço, como quem – normalmente – manda parar. Mas o autocarro seguiu, como se não fosse nada com ele. E não era. Ficámos indignados, mas só nos restava perguntar a alguém na paragem onde era o sítio certo. Lá nos indicaram, e lá fomos para a frente do Teatro do Rossio. Ainda esperámos quase um quarto de hora e o bus lá veio para nos levar, e nós, já lá dentro, entre silêncios, consciencializávamos aquilo que íamos fazer.
O avião partiria às 13.20h e eram já 11.52h quando chegámos ao aeroporto! Depois das despedidas a alguns pais e da verificação dos bilhetes por um empregado da TAP algo mal encarado, seguimos por um chão rolante adentro, separando-nos assim de Lisboa e começando a levar-nos para um espaço neutro.
Na bicha para a pesagem das bagagens, estava uma série de russas, tão altas como muitos jogadores de Basket da NBA, aliás, deviam ser de uma equipa de basket.
Ao longo do dia anterior preocupámo-nos bastante com o peso máximo das bagagens, dúvidas sobre ele (20 ou 25kg) e a taxa alta que teríamos de pagar caso excedêssemos o limite. Mas afinal as mochilas pesavam menos do que esperávamos e podíamos trazer ainda muitos quilos de recordações. Depois de pesadas, as mochilas foram atiradas – sim, o temo não podia ser melhor – para um tapete rolante para serem levadas para o avião. Lá iam as nossas “mimis”!
Mostrámos os passaportes novinhos em folha (para a maioria de nós) e indicaram-nos a porta por onde sairíamos – era a número dois. Houve um senhor russo – já com os seus 50 e tal anos – que meteu conversa connosco em inglês (o primeiro a meter conversa connosco, mas um dos únicos a falarem inglês). Enquanto o Bruno, o Ricardo, o Jaime e a Rita falavam com o tal senhor – bastante simpático, mas que se tornava algo cansativo com o passar dos segundos – o Zé e o Cabrita, que assumira várias vezes durante a manhã passada o seu vazio no estômago, foram comer a última sandes portuguesa. Voltaram quando a porta para o exterior já estava aberta. Nós, como escoteiros que somos, lá deixámos passar à frente da fila dezenas de pessoas.
À falta de mangas de acesso, surgiu um autocarro que nos conduziu ao avião. A entrada neste, confirmou finalmente a nossa partida com destino ao oriente.
A seguir a uns largos minutos de espera, para que todos se sentassem, o avião partiu para a pista principal da Portela. Uma hospedeira anunciou, em russo e num inglês muito rápido, que íamos partir, que a viagem duraria 5 horas e para apertarmos os cintos. Ao fundo do avião havia um quadro iluminado que nos dava a mesma indicação.
O entusiasmo aumentou ainda mais quando o avião partiu, às 13.53h. Cada vez mais rápido, pela pista fora, aquele transporte pesado seguia, cada vez com mais força, até que começou a subir. “É impressionante como tantas toneladas podem levantar voo!” – foi o comentário do Zé Inácio, surpreendido com o fenómeno, após deixar algumas conversas onde escondia o receio da viagem (juntamente com os outros também).
Enquanto subíamos, gastámos algumas fotografias no país que deixávamos.
Nós todos estávamos a meio do avião, na linha das asas; mas mais ou menos separados: o Cabrita e o Zé Inácio estavam ao lado um do outro, do lado esquerdo do avião; atrás estavam o Jaime e a Rita; na fila de trás, mas do lado direito, estavam o Bruno e o Ricardo.
Ao lado dos primeiros citados no parágrafo anterior, estava um senhor que nos foi esclarecendo de alguma coisa sobre aviões e viagens neles. Por termos mencionado a aparência “esquisita” e algo enferrujada do avião, este senhor assegurou-nos que o avião chegaria a Moscovo.
Quando a altitude foi mais ou menos estabilizada, as hospedeiras trouxeram uma primeira bebida, antes do almoço. Podíamos escolher entre Pepsi-cola, água das pedras e água normal. Pouco depois veio o almoço. O tabuleirinho, colocado num suporte destacável do assento do passageiro da frente, apresentava uma série de coisinhas, tudo mais ou menos pequenino, para o espaço pequenino que tínhamos: um pãozinho pequenino (do tamanho de metade de uma carcaça pequena), um pacotinho de 15gr de manteiga; num pratinho de plástico estava um rissol de camarão, duas fatias de uma espécie de fiambre, mas que sabia a frango, um pouco de salda russa e uma azeitona. Numa caixinha de alumínio, do género daquelas das rações militares, vinham dois bifinhos fritos em margarina e um pouco de massa em lacinhos com um bocadinho de ket-chup em cima. Para a sobremesa havia um bolinho de ovo, com o tamanho aproximado de uma queijada de Sintra. Ainda no mesmo tabuleirinho, vinham umas saquetas com sal e pimenta; outra com açúcar, um palito para os dentes, faca e garfo embrulhados num plasticozinho, colher para o bolo e outra para mexer o café ou chá no fim da refeição, que eram deitados numa chávena previamente colocada, também, no tabuleiro. Havia ainda dois guardanapos.
Como as hospedeiras preferiam usar a língua russa, a falar aquele que pouco ou nada dominavam – a inglesa – foi-nos difícil comunicar com elas. De qualquer forma, para facilitar a comunicação, utilizámos a mímica e os encolheres de ombros.
Nesta refeição, e nas seguintes, ficámos com o sal e com a pimenta, porque não tínhamos temperos para as refeições que prepararíamos algures nos arredores de Seul. A seguir a este almoço (que até estava bom) e depois de nos rirmos mais um bocado com aquelas “chalaças” mais ou menos do costume; enquanto uns faziam contas de escudos e de dólares e a sua distribuição – Jaime, Cabrita e Zé Inácio – outros, dormiam ou tentavam dormir. Todos, formavam a futura patrulha portuguesa no Jamboree.
Durante esta viagem a casa-de-banho foi descoberta pouco a pouco por cada um de nós. Foi concluído que:
- o autoclismo deita um líquido qualquer verde azulado que cheira um bocado mal e é um bocado difícil encontrar o botão que se pressiona para sair o tal líquido;
- se pisarmos um pedal que há por baixo do lavatório, a água não sai; em vez disso apanhamos uma martelada na perna de um recipiente para papeis;
- a temperatura da água é regulada com uma pecinha que há por cima da torneira, da esquerda para a direita, e a água sai, se pressionarmos uma espécie de interruptor por baixo da torneira;
- o papel higiénico estava um bocado molhado;
- os poços de ar (ainda que pequenos) sentiam-se melhor lá.
Por volta das 6 foi anunciado pelas hospedeiras que estávamos a chegar a Moscovo. Depois de uns minutos, já estava tudo calmo, sentadinho e com os cintos apertados; alguns (como nós) a espreitar as janelas ansiosos por uma nova vista recheada de mistérios.
Pisámos a terra eram 18 e 40, hora de Lisboa. Mas em Moscovo eram duas horas mais. À saída do avião havia uma manga de acesso que nos conduziu ao aeroporto. Em primeiro lugar (ainda não muito conscientes do lugar onde chegáramos), fomos mostrar os passaportes a um empregado que nos olhou de alto a baixo, viu e reviu os passaportes, e entregou-no-lo duramente. Obrigado, ou melhor, Spassiva, em russo.
Não percebíamos nada daquilo, nem qual o nosso seguinte afazer. Mas uns portugueses que tinham vindo connosco no avião lá nos disseram. Tínhamos de preencher um formulário, onde declarávamos o que tínhamos e o que não tínhamos. Arriscávamo-nos não sabíamos lá muito bem a quê, se mentíssemos ou nos enganássemos a preencher o papel, caso revistassem a bagagem.
Lá fomos buscar as bagagens ao chão rolante e abancá-las num sítio lá no meio do aeroporto, enquanto procurávamos informar-nos sobre a troca de moeda americana pela russa. Trocámos 10 dólares cada um.
Tínhamos um autocarro à nossa espera para nos levar para um hotel onde íamos passar a noite. Pusemos as mochilas na bagageira com a ajuda de um surfista que ia para o Hawai e estava – como nós – a fazer escala de um dia em Moscovo, com mais uma “senhorita” japonesa e a mãe dela.
Já no autocarro reparámos que, aquando da troca do dinheiro, a senhora que nos fez o câmbio retirou 10 dólares, o que pareceu uma taxa de câmbio excessiva. Mas já não dava para voltar atrás.
Seguimos então viagem para o hotel, ouvindo os constantes comentários do brasileiro, que nos faziam rir um bocado.
Pelo caminho fora, que seguia sempre a direito, via-se imensos polícias. Quando parámos numa bicha de automóveis e vimos limousines a passarem, lembrámo-nos que tal se deveria à visita do presidente ou vice-presidente dos EUA.
Reparámos – tristemente – na qualidade dos automóveis, na pouca vida daquele local e da monotonia dos edifícios.
Quando chegámos ao hotel, tivemos de, mais uma vez, mostrar o passaporte. Faltando os computadores, levaram um certo tempo a organizarem a nossa pequena estada naquele hotel. Deram-nos um papelinho que indicava o quarto que deveríamos ocupar. Discriminadamente, mandaram a Rita para um quarto separadíssimo dos outros.
Já com as bagagens nos quartos, reunimos no quarto do Cabrita e do Zé. Ficou decidido nesta mini-reunião que a seguir íamos para o duche e depois camita. No dia seguinte reuniríamos de novo às 8.45h para irmos tomar o pequeno-almoço.
Os quartos não eram maus. Mas achámos quea diária, 60USD era excessiva. O sabonete era quase asqueroso e o papel higiénico era áspero.
A diferença horária – ainda que pequena – já fazia confusão. Assim, embora cansados, custou-nos a adormecer.
Lembro-me que nos revistaram as mochilas e encontram sacos com pó branco. É que soaram logo todos os alarmes e nos viram como traficantes de droga. O Jaime la lhes explicou que era leite em pó. Os polícias só descansaram quando furaram os sacos e provaram o pó e certificaram-se do que dizíamos era verdade 😅
ResponderExcluirA quando da descolagem em Lisboa, quando o avião entrou em aceleração máxima, eu e o Bruno ficámos colados ao banco. O Bruno, agarrado aos braços do banco ia cantarolando 🎶 I’m learning to fly but I ain’t got wings🎶 do Tom Petty
ResponderExcluirhttps://open.spotify.com/track/5lGE5bsOeh1Zpf20fdcqmY?si=CZEd5lGVTRuc4w3bnYYYtQ