sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Seul e os seus esplendores... e uma carteira perdida | Dia 5 de Agosto de 1991 - 8º dia de atividade

 A alvorada hoje tinha mesmo de ser às 6h. Apesar do cansaço do dia anterior, alguns já estavam bem acordados a essa hora.

Antes de sairmos, o Mr. Yum, com receio de que fôssemos à boleia, indicou-nos os números dos autocarros e o que estava escrito à frente desses números, em coreano. Saímos para a habitual caminhada às 7.50h. Em vez de pagarmos - como era costume - o autocarro, utilizámos umas fichas, equivalentes aos módulos [bilhetes que se compravam em grupos de 10 p, ex] que os CNE tinham comprado no dia anterior e que torna a viagem mais barata. Como saímos um pouco longe de City Hall, local de encontro com a conselheira Maria Júlia e com a Mónica, chegámos nove minutos atrasados.

Seguimos para o metro, guiados pela Mónica, que estava muito contente com o dia de folga da Embaixada. Pagámos 600wons - 120$ [0.6€] para irmos até à paragem de metro mais perto da agência turística que organizava as excursões para a Aldeia Folclórica.

Esta viagem de metro teve uma particularidade: não foi subterrânea, mas sim como um comboio normal. Apenas as primeiras estações foram "underground". Após uma hora e 10m de viagem, sempre de pé, numa estação estava tudo a sair e outras pessoas a entrarem. Nós, como estávamos cansados, sentámo-nos logo. Mas eis que percebemos que era a última paragem e tivemos de sair. Mesmo a tempo!

Comprámos os bilhetes de entrada na aldeia mas ainda tínhamos de esperar uma hora pelo autocarro que nos deixaria na aldeia. Aproveitámos para comprar bebidas e para trocar dinheiro e distribuí-lo.

No autocarro tivemos de ir de pé outra vez até à aldeia.

Como eram quase 13h e perto da entrada da aldeia havia uma nascente de água potável (o que é muito raro na Coreia, segundo as trabalhadoras da Embaixada), almoçámos. Ao pé desse lugar havia uma loja com souvenirs onde um artesão gravava a fogo desenhos lindíssimos em peças de madeira.

A juntar aos escoteiros mexicanos e italianos que víramos no dia anterior, neste dia vimos escoteiros de todo o lado! Especialmente canadianos que não se fartavam de oferecer crachás, que traziam às carradas nos bonés. Muitos escoteiros quiseram conhecer-nos pela originalidade da farda [ou pela sua composição em desuso] e do chapéu. Também elogiavam o nosso inglês. Considerámos muito estranho que muitos escoteiros não conhecessem o aperto de mão escotista. E então, ensinávamos.

A Aldeia Folclórica tinha as casas típicas, claro; as divisões das casas explicadas por cima de cada uma; os celeiros, os instrumentos de ceifar e moer.

Por um dos caminhos, desfilava um casamento típico, com a noiva num cubículo muito pequeno segurado por quatro homens, o noivo a cavalo e os criados vestidos a preceito com bonitas cores. Todavia, "Eles casam-se todos os dias", foi o comentário de Mónica, já habituada ao cortejo.

A seguir havia um sítio onde se podia escrever num papel por 500 wons - 100$. Então pedimos à Mónica que escrevesse os nossos nomes em Coreano. A técnica de escrita é de cima para baixo e da direita para a esquerda. Além disso, o papel é dobrado uma série de vezes, consoante o número de palavras e caracteres que se querem escrever, de modo a que não falte nem sobre espaço no papel. A princípio, a Mónica estava a tremer de vergonha, sentindo-se observada por tanta gente, mas depois para o fim já estava à vontade. 

Depois passámos por um baloiço gigante onde é hábito os coreanos andarem, e de pé. Todos quiseram experimentar. O Tó foi quem conseguiu ir mais alto, talvez por ser mais leve, e apanhou o jeito logo ao princípio. Mais à frente, havia um espetáculo numa corda bamba. O funâmbulo dava saltos espetaculares e foi muito aplaudido.

Entretanto, o Ricardo "decidiu" desaparecer e o Cabrita e o Jaime foram à procura dele. Saímos do complexo turístico e ficámos ainda um bocado à espera do autocarro. Quando entrámos, monopolizámos a parte de trás do autocarro. Estávamos tão bem instalados, que adormecemos.

Não faltando à promessa do dia anterior, fomos à Torre. Despedimo-nos da Conselheira e da Mónica no City Hall e seguimos o mesmo caminho do dia anterior. Andar de teleférico constituiu uma primeira experiência para a maior parte de nós. Depois mais uma escadaria e ali estava a Torre. À entrada, um elevador. Quando picámos os bilhetes, que também eram um postal, deram-nos um porta-chaves. Ficámos doidos quando chegámos lá acima. A Torre ficava mesmo no centro da cidade e podia ver-se tudo. Como era o fim do dia, vimos o sol por-se e as luzes da cidade a aparecerem cada vez mais depressa. Com a vista infinita que tínhamos à frente, pudemos compreender o elevado número de habitantes desta capital. Quanto mais olhávamos, mais a cidade parecia crescer para os subúrbios.

Subimos mais três andares e fomos jantar ao restaurante panorâmico, cujo chão rodava em torno do eixo da torre, por isso íamos vendo tudo enquanto comíamos. Como o restaurante era obviamente caro, não pudemos satisfazer o nosso estômago devidamente.

A seguir ao jantar, descemos. Lá em baixo havia um painel com as torres mais altas do mundo e a Rita, o Cabrita, o Zé Inácio e o Jaime ficaram a comparar torres e o Ricardo e o Bruno foram jogar "Tetris" para uma sala de jogos que lá havia. Concluímos que a Torre de Seul era a terceira mais alta do mundo e a mais alta do Oriente, só que ao nível da água do mar, pois ao nível do solo, não é das mais altas.

O Bruno às tantas bateu com a mão na testa, "não sei da carteira!" O Jaime, meio "irritado" com a situação, pois parecia que a carteira teria sido perdida na sala de jogos, mandou-o ir lá acima mais o Ricardo. Apesar da situação, o Bruno estava bem disposto.

No regresso ao metro, passámos por um supermercado onde comprámos o pequeno-almoço do dia seguinte. Já no metro, sentámo-nos como as demais pessoas, de cócoras. Apareceu um senhor que simpatizou com a nossa figura e meteu conversa connosco. Queria mandar a Rita embora e oferecer um copo aos rapazes. Ofereceu-nos uma coisa para comer, que não identificámos, e recusámos. Ele tentava comunicar connosco em coreano e nós tentávamos despedir-nos dele em português. Uma risota.

Entretanto chegaram o Ricardo e o Bruno, mas sem carteira. Pois é, o Bruno, que tinha montes de dinheiro na carteira, ficou só com o dinheiro russo, que guardara noutro sítio. Passámos a chamar-lhe "o pobre" até ao fim da atividade, mas o Jaime decidiu dar-lhe um fundo de maneio para compensar a perda da carteira.

No caminho de regresso, dormimos e na parte de caminhar para o campo, apareceu uma carrinha a oferecer boleia, e nós aceitámos.

Não tomámos banho por preguiça, só os pés, que estavam impossíveis depois de tanto caminhar. Depois metemo-nos nos sacos-cama e adormecemos outra vez que nem uns anjinhos.

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