quarta-feira, 9 de março de 2022

Um pequeno acidente e os gadgets do Jamboree | Dia 8 de Agosto de 1991 - 11º dia de atividade

 Às 6.20h o Cabrita e o Nuno levantaram-se para irem buscar o pequeno-almoço e o almoço, mas quando chegaram ao sítio onde se dava a comida, souberam que os "Faroe Islandeses" já os tinham ido buscar para toda a "troop".

Os outros foram-se levantando com facilidade pois o sol já ia alto e até fazia algum calor. De seguida fomos tomar banho aos novos chuveiros. Já lavadinhos e fresquinhos, fomos fazer o pequeno-almoço. Com os cestos da comida vinha um livro com toda a ementa do acampamento. Achámos o pequeno-almoço enorme: ovos mexidos com bacon, corn-flakes, fruta e bolo. E sobrou.

A seguir à lavagem da loiça e arrumação, no campo começaram a fazer-se algumas construções. Primeiro foi o pórtico: os Faroe Islandeses deram a ideia, os portugueses aperfeiçoaram-na, ou seja, fizeram toda a construção, e os marroquinos "bateram palmas". Enquanto cortava um tronco com o machado, o Nuno cortou o joelho, fazendo um golpe profundo. O Jaime fez o primeiro socorro e depois foi para o Hospital do Jamboree acompanhado pela Rita, onde levou dois pontos. O hospital, feito numa grande tenda, era bastante bom e organizado. Mas, embora o Nuno se mostrasse bastante branco, ainda demorou quase três quartos de hora a ser atendido. Teve a sorte de se poder mexer à vontade, mesmo com os pontos, mas o azar de não poder fazer atividades aquáticas.

O Jaime teve uma reunião de chefes às 11h, onde recebeu informações para aquilo que iria ser o Jamboree enquanto atividade. 

Ninguém queria trabalhar muito. Realmente a vontade não era muito grande. Contudo, o que é certo é que só almoçámos por volta das 13h e apenas porque o Jaime nos "obrigou" a parar de trabalhar.

Durante o almoço, o Jaime deu-nos as informações que recolhera. Foi o seguinte: tínhamos direito a um lenço e boné de atividade, que tínhamos de usar durante o seu decorrer; ia haver a cerimónia de abertura às 20h na grande arena do campo, mas tínhamos de estar prontos às 18h, à entrada do sub-campo. Em relação à atividade, era assim: cada escoteiro tinha uma pulseira azul. À medida que ia fazendo atividades, faziam furos nas pulseiras para se saber ao fim o número de atividades que fizera. Para se obter a "especialidade" do Jamboree, tinha de se fazer três atividades obrigatórias e sete facultativas. No total eram 36 atividades. Para os escoteiros não irem fazer simplesmente as atividades que lhes apetecesse e às horas que quisesse, havia um computador que determinava as atividades e horas de cada um. Além disso, se não gostássemos ou não pudéssemos realizar determinada atividade, podíamos trocar com outros escoteiros. 

Algumas vezes, "vezes sem exemplo", conseguíamos fazer atividades mesmo sem o bilhete que nos dava o direito "legal" e muitas vezes a horas diferentes. É claro que essas exceções eram evitadas ao máximo pela organização, mas com um "choradinho" lá se conseguia o que se queria. Isto, também, com exceções...

Quanto aos lenços e aos bonés havia um problema: a indicação do nosso país e demais pequenos contingentes não estava na lista - ainda. Portanto, estávamos sempre a ver quando é que nos podiam dar e persistíamos. Na reunião de chefes o Jaime resolveu o problema e ia buscar o material às 16h. Mas o Bispo e o Bruno, pela manhã foram igualmente à luta pelo material e nunca mais chegavam para almoçar. Ainda esperámos, mas a fome já era grande e o trabalho para a tarde era tanto, que começámos a comer. O almoço foi sandes de queijo e fiambre, muita fruta e, para beber, tínhamos uma bebida que parecia Isostar. 

Mesmo no fim do almoço, apareceram o Bispo e o Bruno a dizer que tinham ido ao material pedir os lenços e os bonés do Jamboree, mas nada. O Jaime atalhou, dizendo mais uma vez que já resolvera essa questão na reunião da manhã.

Durante a tarde continuámos a trabalhar no pórtico e depois no mastro para as bandeiras. Para embelezar o pórtico, resolvemos fazer uma flor de lis em corda e pintá-la por dentro, de verde. Foi o Jaime quem a fez. Ficou simples, mas muito bonita. À medida que precisávamos de material - pinceis, tinta, corda, pregos - íamos pedindo aos outros contingentes, mas concretamente aos belgas, que traziam uma data de coisas e estavam ali mesmo ao lado.

Para o mastro, fomos buscar as três altas canas (mais ou menos 10m), que cada troop tinha direito lá no sítio do material e fizemos um tripé com a ligação a meio da cana. 

Fizemos ainda uma cerca para o mastro que custou um pouco a conseguir por os lados todos iguais, mas lá conseguimos. Tivemos de fazer tudo depressa porque ia lá o Príncipe de Marrocos, e os marroquinos estavam muito entusiasmados, e insistiam que tínhamos de estar fardados quando o Príncipe chegasse.

No fim do nosso trabalho, fomo-nos fardar e deixámos os Marroquinos fazerem a cerca exterior ao campo.

Felizmente, estava tudo pronto e em formatura quando Sua Alteza chegou. Com ele, veio uma data de fotógrafos, excitados com a ocasião. O Príncipe cumprimentou toda a gente. Os escoteiros marroquinos cantaram uma canção - que tinham ensaiado ao longo do dia - e que percebemos depois ser o seu Hino Nacional. Sua Alteza parou no contingente marroquino para falar com eles. Depois juntámo-nos todos para tirar fotografias. A seguir, os escoteiros marroquinos ofereceram três bolinhos diferentes a cada pessoa presente.

No fim de toda esta cerimónia fardámo-nos como pedia a organização - com o lenço, emblema e boné do Jamboree (que entretanto chegaram).

Demorámos algum tempo a jantar e atrasámo-nos um pouco, mas não houve problema, pois quando chegámos à entrada do sub-campo, embora já lá estivessem quase todos os escoteiros, tínhamos de esperar, não sabíamos porquê - ainda. Entretanto, o Cabrita foi desenrascar um mastro para a bandeira que íamos levar para a cerimónia.

Durante a espera, os escoteiros ali presentes cantavam coisas que sabiam e aplaudiam-se uns aos outros.

Chegou o "esperado". Era o desfile de escoteiros doutros campos, precedido de um costume excursional coreano, com coreanos lindamente vestidos, muitos tambores que davam um granda som, e muita alegria de todos os escoteiros atrás. A seguir à sua passagem, perfilaram os escoteiros do nosso sub-campo, incluindo nós, claro.

Nas curvas do caminho para a grande arena e numa ponte por onde tínhamos de passar, percebemos a quantidade de escoteiros que ali estava. A meio do caminho, entre as músicas e gritos dos escoteiros belgas e ingleses - que vinham à nossa frente e atrás de nós, respetivamente - nós cantámos a "Rama". Ficaram doidos! Primeiro calaram-se para ouvir bem e no fim aplaudiram bastante.

Quando lá chegámos, já a arena estava muito cheia. Sentámo-nos na relva, como todos. Havendo ainda alguma luz do dia, pudemos ver bem a mancha vermelha - dos bonés - que formávamos. Do céu, talvez se distinguisse bem essa mancha.

Antes do espetáculo em si, no palco desenvolviam-se danças coreanas. O espetáculo começou às 20h em ponto, anunciado por um locutor. Para além do palco - que mesmo lá de trás se via bem - havia dois grandes ecrãs onde se podia ver o que se passava no palco. Cantámos todos a canção do Jamboree. Numa enchente de música, fogo de artifício como provavelmente nunca voltaríamos a assistir ao vivo, muita cor, muitas fotografias, começou a festa. Em cada escoteiro vibrava de emoção à sua maneira. A seguir o Escoteiro chefe Nacional da Coreia do Sul veio dar as boas vindas e anunciar o Jamboree que, ao contrário da maioria dos atuais discursos, não foi chato. Depois foi a chegada das bandeiras. Estávamos sempre à espera da nossa. Quando finalmente entrou, gritámos e esbracejámos muito. O resto da cerimónia foi preenchido com danças de várias escolas coreanas e, no fim, muito fogo de artifício, de todos os lados.

Quando acabou, fomos contentes para os sub-campos, gritando de alegria por este acontecimento.

Chegámos ao nosso e, antes de seguirmos para o nosso campo, fomos às "dixies" que são as WC portáteis, espalhadas pelo campo. Antes de nos irmos deitar, fomos ainda tomar um grande banhão. De seguida, quase todos nos fomos deitar; apenas o Jaime e o Zé Inácio ficaram a ver as atividades que nos tinham sido destinadas pelo computador, quando foram a uma reunião com o resto dos chefes a seguir à cerimónia.


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