sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

O início da viagem de regresso | 16 de Agosto de 1991 - 19º dia de actividade

 A viagem de autocarro teve duas paragens. Até à primeira, que ocorreu por volta das 2h, fomos todos a dormir. Alguns embalados pela música nos ouvidos e os outros embalados pela constante conversa entre o motorista e o guia. Mais uma vez, a estrada parecia ser só nossa. O autocarro seguia pelas duas faixas de rodagem, ora na sua, ora fora dela, sempre atrás de um carro de polícia. Depois da primeira paragem, alguns de nós seguimos nos lugares da frente para ver melhor a estrada. O autocarro ia por vezes a mais de 100 à hora e não era nenhum disparate apertarmos os cintos disponíveis (uma novidade naquela altura).

A terceira etapa da viagem levou uma hora até Seul e mais 45 minutos para o aeroporto. Nesta parte dormimos bastante, mas quando chegámos a Seus íamos mais acordados. Eram 5h e picos e já havia luz do dia, mas bastante neblina. Estranhámos haver muitas pessoas a "piquenicar" àquela hora.

Quando chegámos ao aeroporto, tirámos as mochilas e fomos lá para dentro, abancar nos primeiros bancos que nos apareceram à frente, para dormir ou, pelo menos, instalarmo-nos. Dir-se-ia que o aeroporto estava "fechado". As luzes estavam apagadas e o ar condicionado desligado.

O voo era só às 14h40 e como chegámos ao aeroporto ainda não eram 6h, tivemos de esperar - e muito. Durante a espera, além de dormir, tomámos o pequeno-almoço, trocámos dinheiro e falámos com os escoteiros brasileiros, que tinham vindo na mesma "leva" de autocarros que nós. Mas eles tinham de esperar até às 17h! Por volta das 9h chegaram mais autocarros e entre os escoteiros que vinham neles, vinham os nossos inseparáveis FaroeIslandeses, com quem já tínhamos estabelecido amizade. Assim passámos a manhã, num "palavra puxa palavra", num puxar também de caneta e papel para escrever moradas e deixar saudades.

Duas horas antes do voo, tínhamos de começar o "check in" às mochilas. Então, lá fomos, pelas 11.45h, para a fila, que não estava muito grande. As mochilas lá foram e deram-nos os bilhetes. Subimos para o piso de cima, onde esperaríamos pela nossa chamada para a revista aos passaportes e posterior entrada no avião. Seguiram-nos os FaroeIslandeses a alguns Brasileiros para se despedirem. No ecrã eletrónico apareceu "Lisbon" e o número do voo (com escala em Moscovo) e lá fomos nós, deixando alguma emoção para trás.

A fila para os passaportes era muito maior do que a anterior e mais demorada. De qualquer maneira, pudemos rever a eficiência com que os funcionários trabalhavam, uma disciplina talvez cultural. Seguidamente fomos para a sala onde esperaríamos pelo avião. Entretanto, chegaram os escoteiros mexicanos, que iam connosco no voo para Moscovo.

O voo era às 14.40h e o avião só apareceu às 14.35h. Dirigimo-nos à manga de acesso onde nos picaram os bilhetes e entrámos no avião. Até que todos se sentassem e o avião chegasse à pista demorámos quase uma hora. O resultado deste atraso foi que apenas descolássemos pelas 15.30h, hora de Seul. E foi o adeus à Coreia do Sul. Good bye, land of the morning calm.

Agora, ainda em território coreano mas já num avião russo, cheirava a Aeroflot e a Moscovo, um cheiro que nos ficou na memória, desde a última vez. Ao contrário do que esperávamos - e ambicionávamos também - não nos deram almoço. Só às 19h da Coreia é que comemos. Percebemos então que as refeições eram conforme o horário russo - é que eram 13h em Moscovo. O almoço foi parecido com as outras refeições de avião: a parte fria eram duas fatiazinhas de salmão fumado, uma folha de alface, um pouco de tomate, uma azeitona e um pouco de limão. A comida quente foi peixe e arroz. De resto, não diferiu muito, apenas que desta vez não havia palito e o pão foi a dobrar. Depois do almoço cantámos um bocado (deve ter sido efeito do café). Entretanto, havia uma mexicana que estava apaixonada pelo Ricardo e estava sempre a olhar para ele. 

Depois de cantarmos, dormimos até ao jantar. O jantar só diferiu do almoço pela comida quente, que foi carne, massa e ervilhas. A seguir ao jantar, a rapariga mexicana que fazia olhinhos ao Ricardo escreveu-lhe num guardanapo "I love you very much Ricardo" e mandou uma amiga dela entregar-lhe. Ele já suspeitava, mas não lhe deu troco. Continuámos a viagem, dormindo e cantando. Chegámos a Mockba às 21h15. Para evitar a confusão do costume, decidimos esperar que toda a gente saísse, e saímos no fim.

Tal como da outra vez, tivemos de preencher uma declaração dos nossos bens. De seguida, fomos buscar as mochilas ao tapete rolante. O tapete parou três vezes e as nossas mochilas nunca mais chegavam. Já pensávamos que as tínhamos perdido, o que soubemos que era bastante comum naquele aeroporto.

Depois de finalmente chegarem as nossas "mimis", fomos confirmar se o autocarro nos vinha buscar, mesmo com atraso. No mesmo local, entregaram-nos um envelope que nos vinha dirigido e redigido pelo Embaixador de Portugal na Rússia. O seu bilhete dava-nos as boas vindas e a esperança de que tudo corresse bem, com o seu número de telefone se fosse preciso.

Fomos então para o autocarro já que nos esperava. Rapidamente, colocámos as mochilas na bagageira e instalámo-nos para a viagem até ao hotel. Desta vez, pelo caminho fora, havia muito menos polícia do que da outra vez. Também não é todos os dias que lá vai o secretário geral dos Estados Unidos.

O autocarro parou à frente do hotel, que era o mesmo da outra vez. A rececionista fez o seu trabalho e deu-nos os cartões com os números dos quartos. Ficámos no 4º andar, tal como da outra vez, mas desta vez mais perto uns dos outros. Mais tarde soubemos que tinha havido um problema ali uma semana antes e que só haveria água quente dali a 5 dias. Como íamos ficar 3 noites, ficámos sem água quente.

Antes de nos separarmos para os diferentes quartos, combinámos estar prontos para sair às 10h do dia seguinte. E não tomaríamos o pequeno-almoço porque estávamos com muito sono, combinando comer só depois de sair.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sair de Moscovo no dia do golpe de estado | 19 de Agosto de 1991 - 22º dia de actividade

 A partida do autocarro para o aeroporto era às 6h. Já havia claridade quando nos levantámos, às 4h30, hora do início do golpe de estado. Nã...