sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

O sol veio para ficar | Dia 13 de Agosto - 16º dia de atividade

Mais uma vez, e felizmente, o dia amanhecera com sol. Apesar disso, custava a sair do saco-cama àquela hora. Desta vez, foram o Bruno e o Bispo a levantarem-se às 6h.

O pequeno-almoço vinha reforçado, tinha de se fazer uns bolos. Graças aos dotes artísticos e experiência do Bispo, o bolo ficou ótimo. E enchia... Eram uma espécie de panquecas, mas muito grande, muito grossa e ligeiramente doce. Pusemos manteiga por cima e pronto. Deve dizer-se que a primeira e a segunda ainda estavam na fase de experimentação, daí que se queimavam ou partiam um bocadinho, mas a terceira estava maravilhosa. Para além destas panquecas gigantes, havia o costume do pequeno-almoço. Depois de muito bem pequeno-almoçados, seguimos para as nossas atividades.

O Bruno foi para o Global Development Village. O Jaime, o Cabrita e o Zé Inácio foram para o mergulho. Nesta atividade os escoteiros eram agrupados conforme o nível Faziam equipas de duas pessoas e seguiam os estádios a, b e c no solo e no mar antes do início da atividade. A Rita e o Ricardo foram para a natação. Os chefes de serviço separaram os escoteiros das escoteiras para se vestirem nos respetivos balneários. Depois, exercícios de aquecimento. A atividade consistia em banhos. Havia uma corda a limitar a zona de banhos. O Ricardo e a Rita ficaram em parte desiludidos porque o nome da atividade não coincidia com o que era. Ninguém lhes pediu para nadar ou ensinou ou falou sequer em natação. Podia fazer-se o que se quisesse. Aproveitaram para mostrar dotes debaixo de água, como pinos e cambalhotas. Deu para reparar na nitidez e clareza da água. Mesmo quase sem pé, via-se os dedos dos pés na maior das perfeições. 

No fim quase todos voltaram ao campo para almoçar. E a fome já era grande. Devorámos os hamburgers que tínhamos para o almoço em poucos minutos.

À tarde, a Rita ia ao Global Development Village mas já ia atrasada. Como nesta atividade tinham de entrar todos ao mesmo tempo para fazerem as mesmas coisas, o chefe que estava lá não a deixou entrar. Aconselhou-a a ir a uma exposição que havia ali perto sobre a Coreia do Sul e lá foi. Era uma exposição cujo principal assunto era o desenvolvimento industrial da Coreia e maneiras como se tem desenvolvido. O "produto" do assunto era uma exposição que vai haver em 1993. Havia um televisor onde deu um filme de 30 minutos mostrando as principais indústrias e o rápido desenvolvimento que a Coreia do Sul tem vindo a conseguir. No fundo, a exposição que se realiza daqui a 2 anos é mais um meio publicitário, como os Jogos Olímpicos e o Jamboree, para o país, que tem ambições para o futuro e acredita muito no mercado interno.

Enquanto isso, o Bruno voltou a fazer a atividade de Alpinismo.

Ao fim da tarde, a Rita e o Bruno foram fazer as atividades de sub-campo, que consistiam em ir aos sub-campos e pedir o carimbo de lá para por no passaporte do Jamboree. Para isso, no primeiro sub-campo onde foram tinham de nomear os 20 países diferentes presentes em cada sub-campo. Responderam ao mesmo tempo, o que facilitou bastante. Depois do carimbo, foram visitar a Maria Amélia. Lá, funcionava um pequeno centro de estética. Então, prepararam as cabeças com carradas de gel, ficando com um penteado "fun". Os dotes de cabeleireiro dum francês que lá estava puseram o cabelo da Rita exageradamente volumoso e "algo" despenteado, e ao Bruno despentearam-no na nuca e fez uma grande poupa, com os cabelos da frente. No fim, a Maria Amélia convidou-nos para a festa dos franceses que iria haver à noite na arena pequena ao pé do nosso sub-campo. Naquele estado, mas com direito a uma bisnaga de gel e outras lembranças do contingente francês, seguiram caminho. Noutro sub-campo tinham de ver uma exposição sobre uma ilha da Coreia e responder a duas perguntas sobre ela. Noutro, carimbaram sem pedir nada. 

À hora de jantar, estávamos todos. Mas desta vez o jantar foi diferente. Era jantar para os 3 contingentes: Ilhas Faroe, Portugal e Marrocos. Fez-se o jantar na cozinha dos "dinamarqueses", que eram quem tinha a cozinha maior. Assim, o jantar foi maçarocas de milho assado nas brasas; muita salada; bifanas e arroz branco.

Depois do jantar, a Rita foi para a festa da França e os rapazes foram a uma festa holandesa. Regressámos todos ao campo por volta das 22.30h, para dormirmos.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

Challenge Valley, a melhor atividade do Jamboree | Dia 12 de Agosto - 15º dia de atividade

 Hoje, finalmente, o tempo começou a melhorar. Já não chovia e prometia ser um dia bem quente. Os primeiros a verem as montanhas que rodeavam o vale sem nuvens foram o Cabrita e o Nuno, que foram buscar a comida do dia.

Sem chuva, o pequeno-almoço sabia melhor ainda. Hoje havia croissants! Além disso, os cozinheiros mudaram o método de fazer os ovos. Em vez de ovos mexidos simples, fizeram com fiambre cortado aos bocadinhos. A seguir ao pequeno-almoço fardámo-nos para a já habitual cerimónia do hastear da bandeira. Depois deta, partimos para as atividades. Nesta manhã fomos quase todos para o mesmo, o Challenge Valley, só o Bruno foi fazer silkscreening outra vez. O Challenge Valley era um pouco longe e quando lá chegámos ainda tivemos de esperar.

A pista era composta por 18 obstáculos: 

1. subir uma rede de cordas com uns 3 metros; lá em cima passar por uns troncos afastados entre si 30 a 40 cm, e a descida fazia-se por uma escada de corda;

2. andar sobre um grosso tronco redondo que rolava. Se caíssemos, ficávamos todos molhados;

3. idêntico ao anterior, mas com o tronco preso (aqui a Rita malhou, e ficou com um alto na perna tipo para sempre). Ainda fazendo parte do mesmo obstáculo, havia vários troncos presos ao chão, na vertical, uns mais altos do que outros, e tínhamos de andar sobre eles;

4. Trepar a um cabo e lá em cima tocar um sino;

5. Passar várias barreiras que começavam com a altura de 3 troncos e acabavam com a altura de dois metros, mais ou menos;

6. Subir a um cano com mais ou menos 70 cm de diâmetro com a ajuda de uma corda. Para descer, havia uma parede quase perpendicular ao chão, para descer tipo rapel;

7. Escorrega de água (com fila, claro). Não era muito grande mas tinha duas descidas rápidas;

8. Subir por uma escada de metal e a descida era através de uns pneus, acabando na água enlameada, e cair bem dentro de água - enlameada, como toda a água do percurso;

9.  uma rede de cordas na horizontal ao nível quase do chão e tínhamos de passá-la por baixo, sendo que por baixo da rede era água, claro;

10. atravessar um tanquezinho de água com uma corda, tipo Tarzan, por isso a maior parte de nós foi parar ao charco, uma vez que não dominávamos a técnica do Tarzan;

11. Outro escorrega, mas desta vez feito com troncos e uma capa de borracha a proteger - era bastante inclinado. Soube mesmo bem, depois de atingir uma boa velocidade, cair outra vez dentro de água;

12. Atravessar quase 40 metros de tubo de cimento, com água pelo meio, cuja corrente ia aumentando de velocidade. Além de água, havia bocadinhos de esponja espalhados pelo tubo;

13. Dois "V" de troncos, sendo que o segundo "V" era maior do que o primeiro. Depois deste W, uma descida com água no fim;

14. Atravessar um rio por uma ponte de duas cordas, tipo ponte himalaya;

15. Atravessar um caminho de pneus pendurados por cordas, que balanceavam e tornavam mais difícil o percurso;

16. Uma sequência de 8 troncos que tínhamos de alternar, passando por cima de um e por baixo de outro;

17. Uns tubos, alternadamente de cimento e de rede, mas sempre na mesma sequência. A travessia tinha cerca de 50 m ou mais;

18. Uma ponte himalaya que tinha duas partes - a segunda era a subir.

Para chegar ao fim do percurso tínhamos ainda de subir um autêntico lamaçal.

Para melhor "identificação" dos obstáculos, ver as fotografias. Pormenor, o Bruno despachou-se e foi ter connosco.

No fim, havia uns duches para tirar a camada maior de lama, de terra e sujidade. Depois desta aventura fomos até ao rio tomar uma boa banhoca e aproveitar a corrente que seguia pelas pedras abaixo para fazer hidromassagem. Só depois destes momentos mais descontraídos é que fomos tomar banho e almoçar. O almoço foi cachorros quentes e estavam bastante bons.

À tarde, o Bruno partiu para o Rock Climbing. A atividade era composta de 6 etapas que eram ultrapassadas pelos escoteiros conforme as suas capacidades. Antes das provas eram dadas instruções sobre a subida e a descida.

O Cabrita, o Jaime e o Zé Inácio foram tentar, mais uma vez, fazer ultra-leves. Mas depois de uma longa espera na bicha, não conseguiram ir todos, porque só havia um bilhete. Só o Jaime compensou o tempo de espera.

A seguir às atividades e às não atividades, voltámos para o campo. À noite ia haver uma festa de sub-campo onde podíamos participar, fazendo algum "número". Por isso, depois do jantar e do arrear da bandeira, ensaiámos uma pequena dança que os CNEs nos ensinaram. Além disso, ensaiámos o "Rama Ó que linda Rama". Partimos para o espetáculo que era mesmo ali ao pé numa pequena arena. Os outros países que começaram a representar, tinham coisas muito bem ensaiadas, pareciam estar preparados há meses e meses, com lindos fatos, lindas canções, tudo afinadinho. Nós acabámos por não representar o nosso número perante o espetáculo dos demais. Enfim, lá ficámos a ver a exibição dos outros. A dança mais apreciada foi a dança ritmada do grupo Hawaiano. Entretanto apercebemo-nos de um equívoco. Metade da festa estava a realizar-se à entrada do nosso sub-campo. É que só à última hora é que os chefes deram autorização para realizar a festa na arena. Então, metade da festa estava de um lado e a outra metade, noutro. Por isso vimos um bocado em cada lado.

segunda-feira, 6 de junho de 2022

Dia 11 de Agosto de 1991 - 14º dia de atividade

 A chuva continuava e estávamos cheios de sono. Os alarmes dos relógios tocaram pontualmente às 6h, mas, exceptuando o Jaime e o Ricardo, que estavam de serviço, os outros só nos levantámos quase às 7h. Para "meter ordem ao pessoal", o Jaime, seguindo a lista dos sacrificados dia-a-dia, decidiu que ficavam também a fazer as refeições, tem de ter o pequeno almoço pronto às 7.30h, o almoço ao meio-dia e o jantar às 18h. Assim, as coisas ficavam mais disciplinadas.

Ainda que mal dormidos e bem ensonados, fomos para um duche rápido para estarmos prontos para a primeira refeição - sempre de tamanho XL - às 7.30h.

Hoje, o Bruno de manhã foi para o motocross e o Ricardo foi, mais uma vez, acompanhá-lo.

O Cabrita, o Zé e o Jaime, foram fazer balão, o que conseguiram depois de esperarem uma hora e tal. Voaram entre 8 a 10 minutos num balão, recebendo instruções antes da atividade. A altitude atingida não era grande, mas mesmo assim implicou grande coragem, especialmente por parte do Zé Inácio, que tem algumas vertigens. 

A Rita foi para o artesanato e fez um leque.

O almoço, desta vez, foi tipicamente coreano. Arroz com alguns ingredientes que não distinguimos bem que, como toda a comida tradicional coreana tem carradas de picante, mas enfim.

À tarde, a Rita e o Bruno, mais o Nuno, foram fazer uma atividade aquática - speed boating. Foram de camioneta até ao cais. Depois de esperarem por licença para entrarem no barco. Uns atrás dos outros, os barcos partiram. Nas primeiras milhas, já se pensava que o barco continuaria na fraca velocidade e que seguia e que o nome da atividade... era só nome. Mas a certa altura, começou a andar mesmo depressa. Como estava calor e estávamos cansados, às tantas já dormíamos. A velocidade, por muita que fosse, já não dava  entusiasmo devido à monotonia da viagem, e adormecemos. Se não tivéssemos sono, o entusiasmo poderia ter fundamento. Afinal, estar ali era um momento único. A "navegar" no mar do Japão e a perceber o silêncio da história que aquele mar guarda da guerra e tudo o que ali se passara...

Depois os barcos deram meia volta e regressaram ao cais. A viagem de autocarro foi igualmente na sorna, aliás, não éramos só nós, quase todos dormiam no autocarro.

Uma das atividades obrigatórias do Jamboree era o "Global Development Village". Lá, havia quarente e cinco postos diferentes e cada equipa de cerca de 15 escoteiros tinha de percorrer cinco pontos.

As atividades baseavam-se em educação. Um dos seus principais objetivos era perceber as dificuldades que as pessoas com deficiência encontravam na vida, havendo para isso atividades específicas. Além disso, previa-se uma educação à cerca dos perigos que o Planeta Terra vive; adolescência e educação sexual; prevenção de doenças a que atualmente somos sujeitos, etc.

A Rita e o Bruno foram até lá, mesmo sem bilhete. Mas como não tinham outras atividades para a tarde, foram tentar. Podendo ou não, as sessões já tinham acabado. De qualquer maneira, entraram para ver como era. Foram a um café que era o café francês, e estava lá a Maria Amélia. Ofereceu-nos um café e uma bebida fresca. Ali, naquele local, todos os dias havia um tema e, que lá fosse, escrevia sobre ele e pendurava a sua ideia num placard que lá havia. Naquele dia, o tema era o patriotismo e eles lá evocaram as suas ninfas para fazer sair o assunto do espírito para o papel.

A seguir saíram com ela e foram fazer uma visita à tenda do Brasil, mas depois como já era tarde, ela teve de regressar ao seu campo.

Na tenda brasileira, depois de mais café e conversa, convidaram todo o contingente português para, nessa noite, às 18h, irmos a uma festa joanina (de São João, tipo santos, tradicional brasileira).

Na volta para o campo encontrámos os Jaime, o Zé Inácio e o Cabrita, que vinham frustrados do "não disfrute" da tarde deles - de manhã, tinham tentado fazer motocross, mas só deixaram o Cabrita fazer, porque a atividade não era para chefes. Ao princípio da tarde, a única coisa que lhes valeu foi a visita ao campo do contingente brasileiro. Depois foram tentar andar de ultraleve e não conseguiram e a seguir foram tentar Challenge Valley - que é uma pista de obstáculos e estava fechada.

Voltámos todos para baixo. Encontrámos pelo caminho o António, que disse que precisava de dois escoteiros fardados para irem à recepção de Israel. Como o Bruno e a Rita estavam fardados, foram. Havia um "percurso" na recepção. A primeira paragem era do muro das lamentações, e cada escoteiro que passava por ali deixava uma mensagem. Depois era uma banca de comida onde davam um prato típico israelita. Uma espécie de almôndegas, salada e um puré esquisito mas que, misturado com o resto, caía bem. Depois experimentámos o pão que, em vez de feito em formato de bolo, é feito em formato de panquecas. No fim, ficámos a falar com os chefes que por ali passavam. falámos com um chefe alemão e com o secretário do Bureau internacional.

O jantar foi hamburger no pão. Quando arreámos a bandeira e cantámos o hino, muita gente tinha-se juntado no pórtico, de boca aberta a olhar para nós e a ouvir-nos. No fim, bateram palmas. Modéstia à parte, cantávamos o hino muito bem.

Depois da cerimónia fomos à tal festa joanina. No caminho da ida, o Cabrita perdeu a tampa da objetiva da máquina fotográfica. O resto do grupo foi andando enquanto ele procurava a tampa, sem resultado. Ele não sabia o caminho para lá, mas como o resto do grupo calculou, ele lá chegaria pelos seus próprios meios. E assim foi.

A festa começou com uma dança típica brasileira. Havia uma fila de rapazes de um lado e à frente, uma de raparigas. Depois, à voz do "mestre", iam fazendo o que ele dizia. Ora dançavam, ora andavam à roda, ora faziam rodas, ora tornavam às filas. Depois, a música continuou, mas a conversa e os conhecimentos trocados tomaram conta da festa. A acompanhar, pipocas, café brasileiro e quentão. Quentão é uma bebida tipo ponche, mas com o típico saborzinho a Brasil. No fim do convívio, voltámos ao campo para dormirmos. 


segunda-feira, 16 de maio de 2022

Rádio, lama e muito mais | Dia 10 de Agosto de 1991 - Sábado, 13º dia de atividade

 A alvorada, à qual nos tínhamos de habituar, foi mais uma vez às 6h. Não apetecia mesmo levantar, pois a chuva persistia e ameaçava continuar pelo dia fora. Mas, mais cedo do que os outros, levantaram-se o Zé Inácio e a Rita para irem buscar a comida para o grupo. Depois das lavagens, tomámos mais uma vez um excelente pequeno-almoço, que deesta vez diferia nos corn-flakes normais: eram de mel e às estrelinhas [presumo que não conhecesse as estrelitas em 1991 em PT].

Depois de hastearmos a bandeira e cantar o hino, partimos para os nossos afazeres.

O Ricardo foi para os Mopeds [falta explicação]. O Jaime foi fazer umas compritas e o Zé Inácio, depois de dar uma volta pelo campo, também foi.

A Rita foi à tenda das receções dos brasileiros, com o Tó e com o Cabrita, porque ia dar uma entrevista para a Rádio Coreana. Felizmente, a jornalista sabia falar português, embora fosse coreana. A repórter parecia muito atrapalhada e só conseguia falar em espanhol. Depois de "atinar" com a língua, lá fez as perguntas. A seguir a Rita ia fazer a atividade de Rádio Amador, mas ainda faltava bastante tempo, então foi com o Cabrita ver as coisas ali à volta. Ao pé do atelier de Rádio Amador havia uma tenda onde era a Igreja Protestante, onde davam leques e gelados de borla a quem lá fosse visitá-los.

A seguir foram ao atelier de computador onde viram escoteiros aprenderem as bases (mais básicas) de informática e alguns faziam desenhos ou construíam textos e depois imprimiam. Viram um escoteiro coreano muito compenetrado a desenhar o símbolo do Jamboree que copiava a olho de um poster que estava na parede. Fora do recinto, os escoteiros que esperavam pela atividade davam toques num género de pompom. O melhor com os pés naquela brincadeira era, claro, um chefe coreano. A particularidade dos toques é que, em vez de se darem alternadamente com os pés e joelhos, dobravam a perna para cima e para dentro e devam-se os toques só com a parte interior do pé.

Depois estiveram a dar uma vista de olhos às tendas dos diversos países. Quando voltavam, viram o Bruno, que vinha do Pioneirismo e que os levou a ver. Nesta atividade, os escoteiros podiam testar a imaginação para inventar nós e ligações. Nesta atividade, podia-se escolher entre construir em equipa uma torre de vigia, uma ponte Himalaia ou uma ponte levadiça.

O Bruno e o Cabrita foram de seguida para a atividade de motocross onde se sujaram todos de lama. A Rita seguiu para a atividade de Rádio Amador. Ali, havia um chefe americano que dava umas noções de código morse e as bases do funcionamento da Rádio Amador pelo mundo fora. Disse que os Rádio Amadores tinham um código em vez de um nome. Mostrou que conseguia emitir em Morse até 35 palavras por minuto, embora o normal sejam cerca de 20. Adiantou ainda que, para chamar um país, há determinadas iniciais e que este tipo de rádio funciona em onda curta. Depois construíram um pequeno sistema elétrico que funcionava com uma pilha e que tinha umas luzinhas que acendiam e apagavam. Os chefes que estavam a orientar esta atividade disseram que era para meter atrás da anilha do lenço.

Ao almoço, estávamos todos menos o Bispo, e decidimos inventar um grito para as refeições em que cada um dizia uma coisa. E ficou assim: o Bruno começava por dizer "Então?", depois o Ricardo, "Quando é que isto começa?", e o Cabrita, "Uhm?", a Rita, "Sei lá!", e o Zé Inácio, "Agora?", depois o Jaime, "Ainda não", e depois o Nuno, "Já!" e no final dizíamos todos "Komsa Humninda", que é como se diz obrigado em coreano. As habituais ricas sandes do almoço souberam-nos melhor.

À tarde, o Jaime, o Zé Inácio e o Cabrita foram fazer tiro ao alvo com arco, e depois com armas X-2.

O Bruno, a Rita e mais uma rapariga das Faroe Islands foram fazer serigrafia. Era ao pé da pequena arena. Levaram uma t-shirt para fazer a estampagem. Como estava muita gente, demoraram bastante tempo, mas divertiram-se a ver os oradores daquela tarde.

Ao fim da tarde, já no campo, foi lá um escoteiro belga que quer muito ser português. Ele conhece muitas terras portuguesas, fala português (razoavelmente) porque foi a Portugal há dois anos numa acampamento e no ano passado também. 

Às 18h apareceu o Tó e disse que precisava de alguém para cantar a canção do Jamboree no coro para o "Youth Concert" que ia haver às 20h. A Rita ofereceu-se e lá foi para o coro. Chegou lá e teve de esperar algum tempo - o suficiente para aprender a música. Depois mandaram todos subir ao palco, e ensaiaram uma vez. A segunda vez já foi o início do espetáculo. Depois começou a chover e os músicos não quiseram tocar assim. Ainda se esperou bastante tempo, mas a chuva continuava e o "show" não se realizou.

O Zé Inácio e o Jaime, depois da reunião de chefes de sub-campo que tiveram às 18h, ficaram lá para um cocktail oferecido pelo chefe de sub-campo. Entretanto, no nosso campo, jantava-se. Desta vez foi peixe frito com batatas.

O Bruno e o Cabrita foram à procura do campo onde estava acampada a Stoffel, a anfitriã do Cabrita quando do Fabula89. Como não a encontrara, foram à arena grande ver se havia o tal "Youth Show", mas não houve, como já se disse atrás. Entretanto, como o escoteiro belga os tinha convidado para ir a uma pequena festa organizada pela Itália no subcampo 6, lá foram e divertiram-se bastante. Quando voltaram ao campo, estava tudo a falar com a Stoffel, que acabara de chegar. Finalmente o Cabrita encontrou a sua amiga e ficámos todos a falar um bocado. 

Começou a ficar tarde, e fomo-nos deitando.

quinta-feira, 12 de maio de 2022

Jogos tradicionais, mercado e informática | Dia 9 de Agosto de 1991, sexta-feria, 12º dia de atividade

 Hoje foi a vez do Bruno e do Bispo irem buscar o pequeno-almoço e o almoço. Depois das lavagens, tivemos mais uma vez um pequeno-almoço que foi um senhor pequeno-almoço. O Jaime falou-nos do resultado da reunião do dia anterior. Destinou, à sorte, as fichas de participação nas atividades a cada um e depois, de acordo com os gostos de cada, fizeram-se algumas trocas, que se realizaram não só entre nós, mas também com os escoteiros marroquinos e das Ilhas Faroé. 

Às 8.30h foi o hastear da bandeira, para o qual nos fardámos com o lenço e o chapéu do grupo 93. Contudo, a corda não deslizava bem na roldana que estava no topo do mastro, e a Rita não conseguia hastear a bandeira.

À seguir à cerimónia protocolar, começámos a sair para as atividades. Apenas o Jaime e o Cabrita ficaram a arranjar o mastro. A Rita e o Zé Inácio foram fazer jogos populares coreanos. Havia 4 jogos mas só tínhamos de fazer dois, e fizemos os que parecia que íamos gostar mais. Um era um baloiço, o tal baloiço tradicional, onde andam principalmente os homens. No baloiço anda-se de pé. Tem de se fazer bastante força de braços e dar balanço fletindo as pernas. 

O outro foi saltar de pé num sobe e desce em que está uma pessoa ao centro a equilibrar os movimentos, tipo eixo, e outras duas a saltarem. Só se pode saltar quando o parceiro termina a descida do seu salto. Este jogo, tradicionalmente jogado pelas mulheres coreanas, era uma maneira de mostrar que as mulheres também faziam alguma coisa além dos trabalhos domésticos. Os outros dois jogos consistiam numa dança coreana e uma luta livre onde os lutadores colocam um cinto especial e agarram-se à cintura dos adversários, baixando o tronco. Nessa posição, iniciam o assalto, que termina quando um deles consegue atirar o outro ao chão.

Quando, por volta das 10.40h, a Rita e o Zé encontraram o Jaime e o Cabrita a meio caminho das suas atividades, resolveram ir à zona dos mercados. Debaixo de um grande toldo, vendiam-se muitas coisas, muitas delas que faziam parte do artesanato coreano. Havia máscaras, leques, biblôs, pulseiras, anéis, colares; havia até um sítio onde, na hora, se podia fazer a inscrição de um nome e da data da inscrição numa pequena medalha. Além destas coisas típicas, muitas das bancas vendiam t-shirts dos últimos jogos olímpicos e a respetiva mascote. Este mercado era composto de quatro fileiras de bancadas, havendo um corredor central. Na zona de compras do lado de fora da tenda havia pouca gente, pois chovia imenso e, para estar a ver as coisas à vontade, só lá dentro. 

Perto deste mercado, mas numa tenda separada, estava o "mercado do Jamboree". Ao balcão havia filas de pessoas a comprar tudo e mais alguma coisa. Desde t-shirts, porta-chaves, anilhas de lenço, lenços, bonés, até mochilas, toalhas de praia, tudo com o símbolo do Jamboree. Havia até um papelinho com a lista de todas as coisas para que as pessoas fossem colocando uma cruzinha, à medida que adquiriam os diferentes items. O Jaime e o Cabrita foram até ao banco trocar algum dinheiro. Quem trocasse dinheiro no acampamento, tinha direito a um porta-chaves do Jamboree. Depois o Jaime e a Rita foram aos correios, que eram ao lado do banco, para ligar à embaixada de Seul a dizer que chegáramos bem, mas nenhum de nós tinha ali o número da embaixada.

Embora estivesse a chover muito, havia uma data de escoteiros, especialmente norte-americanos a verem óculos de sol. Mas a atração quase principal do mercado eram as tais medalhinhas onde se gravava o nome e a data.

Quando voltaram para o campo, já muitos tinham almoçado. O Bruno, de manhã, tinha feito um porta-chaves e um leque na atividade de artesanato. Só tinha direito a fazer um, mas lá o deixaram fazer os dois. Para fazer o porta-chaves faziam um barulho enorme a martelar uma pecinha. Para o leque, o difícil era colar as últimas três ripas de madeira ao papel do leque, e tinham de desenhar uma pintura tradicional coreana. Havia mais duas atividades de artesanato: uma era um bonequinho que já estava feito e era só preciso pintar, para depois pendurar ao pescoço e a outra era uma anilha onde se colava a parte exterior à interior e dava-se lustro. 

Voltando ao almoço, o Bruno já estava a acabar de almoçar e ia agora para uma atividade de Hiking, que era em grupos de 20, faziam 6km ao longo da costa, no Parque nacional de Sorakson.

Mas o almoço foi o costume. Sandes cheias de condimentos com muita mostarda, maionese e ketchup. Para beber, desta vez foi uma bebida que sabia a pastilha elástica e a fruta foi melancia. 

O Cabrita era para ir fazer a atividade de "orador". Esta atividade, que se realizava numa pequena arena ao pé do nosso subcampo, consistia em falar, cantar ou fazer alguma coisa no palco durante pelo menos um minuto. Esta atividade decorria ao longo de todo o dia. Mas resolveu fazer ciclocross. No entanto, como chovia a potes, a atividade não se realizou (era 1km em zonas sinuosas e já de si lamacentas). Mais tarde, foi ao subcampo um.

A Rita foi fazer orientação. Quando chegou lá, deram-lhe um mapa onde estavam assinalados vários pontos. Cada ponto por onde se passasse, ganhava-se pontos (15, 20 ou 25, conforme a dificuldade em chegar ao local). Podia-se ir para o ponto de chegada onde se furava a pulseira quando se tivesse mais de 100 pontos. Com ela iam mais dois japoneses e dois coreanos que não sabiam falar inglês. Mas não houve problema por causa da dificuldade de comunicação. Até se divertiram bastante a rirem-se quando alguém caía na lama, que era "ligeiramente" escorregadia.

O Ricardo foi fazer a atividade de computadores, utilizando um IBM PC 5540 e impressora e aprendeu a estabelecer um programa e o seu funcionamento. Havia uma equipa de três participantes por aparelho e a linguagem de programação era BASIC.

Ao fim da tarde, estávamos a contar as nossas aventuras, quando aparece uma escoteira do contingente francês a falar português. Era francesa porque os pais emigraram para França. Disse-nos que já estava à nossa procura há muito tempo e achou-nos. Chama-se Maria Amélia. Tem 19 anos e no grupo dela é chefe dos lobitos. Convidámo-la para jantar, mas já tinha jantado.

Jantámos frango com arroz e batatas e uma data de coisas. Para o jantar tinham-nos dado 4 frascos de picante para fazer o frango (!) Nós só utilizámos um pouco de um e já estava picante. Imaginámos "quão ardente" iria ficar o nosso prato com toda aquela mistela avermelhada no comer.

Às 20h era para haver a "noite coreana", mas como estava a chover muito, não houve.

O Tó, que passara o dia a ver as tendas representativas de cada país*, conheceu o chefe brasileiro que nos convidou para passarmos lá depois do jantar.

 *Perto da grande arena onde se realizavam as grandes cerimónias, havia uma tenda para cada país, onde cada um tinha a oportunidade de representar o seu país, apresentando-se da melhor maneira, com fotografias de paisagens, e quando outros visitavam, tinham a oportunidade de explicar tradições locais, gastronomia, etc.

Fomos então ver a exposição do Brasil. Ao chegar, sentimo-nos logo bem, principalmente porque sabia bem falar português ao fim de um dia todo a falar inglês, e também porque fomos muito bem recebidos. Depois daquela chuva toda, soube bem despir o impermeável, e beber um ou dois cafés, bem fortes. O chefe Ignácio ficou feliz por haver um português com um nome semelhante. Por isso, quando distribuiu lembranças do contingente, como só tinha duas t-shirts, uma foi para o Zé Inácio, e outra para a Rita, a única menina. No Brasil, dizer rapariga muitas vezes adquire o significado de prostituta. Por isso quando os amigos disseram, "é por ser a única rapariga", o chefe Inácio estranhou. E depois explicou-se a situação.

A seguir ao café e às lembranças, estivemos a falar com o Ignácio, que estava a informar-nos sobre a vida socioeconómica do Brasil, que, segundo ele, é em parte muito difícil e com muitos problemas; mas os brasileiros têm dificuldade em sair do país: "uma vez lá instalado, vocês não quer mais sair de lá", disse, com um sorriso, sublinhado pela cara risonha que já tinha naturalmente.

Acabada a conversa, e já mais aquecidos, regressámos ao nosso campo. Felizmente, já não chovia, mas infelizmente, o céu prometia chover mais.

Antes de nos deitarmos, fizemos e/ou melhorámos os regos à volta das tendas. O Zé Inácio e o Cabrita descobriram uma "piscina" na sua tenda. Lá limparam tudo, e dormiram o mais seco possível. 

quarta-feira, 9 de março de 2022

Um pequeno acidente e os gadgets do Jamboree | Dia 8 de Agosto de 1991 - 11º dia de atividade

 Às 6.20h o Cabrita e o Nuno levantaram-se para irem buscar o pequeno-almoço e o almoço, mas quando chegaram ao sítio onde se dava a comida, souberam que os "Faroe Islandeses" já os tinham ido buscar para toda a "troop".

Os outros foram-se levantando com facilidade pois o sol já ia alto e até fazia algum calor. De seguida fomos tomar banho aos novos chuveiros. Já lavadinhos e fresquinhos, fomos fazer o pequeno-almoço. Com os cestos da comida vinha um livro com toda a ementa do acampamento. Achámos o pequeno-almoço enorme: ovos mexidos com bacon, corn-flakes, fruta e bolo. E sobrou.

A seguir à lavagem da loiça e arrumação, no campo começaram a fazer-se algumas construções. Primeiro foi o pórtico: os Faroe Islandeses deram a ideia, os portugueses aperfeiçoaram-na, ou seja, fizeram toda a construção, e os marroquinos "bateram palmas". Enquanto cortava um tronco com o machado, o Nuno cortou o joelho, fazendo um golpe profundo. O Jaime fez o primeiro socorro e depois foi para o Hospital do Jamboree acompanhado pela Rita, onde levou dois pontos. O hospital, feito numa grande tenda, era bastante bom e organizado. Mas, embora o Nuno se mostrasse bastante branco, ainda demorou quase três quartos de hora a ser atendido. Teve a sorte de se poder mexer à vontade, mesmo com os pontos, mas o azar de não poder fazer atividades aquáticas.

O Jaime teve uma reunião de chefes às 11h, onde recebeu informações para aquilo que iria ser o Jamboree enquanto atividade. 

Ninguém queria trabalhar muito. Realmente a vontade não era muito grande. Contudo, o que é certo é que só almoçámos por volta das 13h e apenas porque o Jaime nos "obrigou" a parar de trabalhar.

Durante o almoço, o Jaime deu-nos as informações que recolhera. Foi o seguinte: tínhamos direito a um lenço e boné de atividade, que tínhamos de usar durante o seu decorrer; ia haver a cerimónia de abertura às 20h na grande arena do campo, mas tínhamos de estar prontos às 18h, à entrada do sub-campo. Em relação à atividade, era assim: cada escoteiro tinha uma pulseira azul. À medida que ia fazendo atividades, faziam furos nas pulseiras para se saber ao fim o número de atividades que fizera. Para se obter a "especialidade" do Jamboree, tinha de se fazer três atividades obrigatórias e sete facultativas. No total eram 36 atividades. Para os escoteiros não irem fazer simplesmente as atividades que lhes apetecesse e às horas que quisesse, havia um computador que determinava as atividades e horas de cada um. Além disso, se não gostássemos ou não pudéssemos realizar determinada atividade, podíamos trocar com outros escoteiros. 

Algumas vezes, "vezes sem exemplo", conseguíamos fazer atividades mesmo sem o bilhete que nos dava o direito "legal" e muitas vezes a horas diferentes. É claro que essas exceções eram evitadas ao máximo pela organização, mas com um "choradinho" lá se conseguia o que se queria. Isto, também, com exceções...

Quanto aos lenços e aos bonés havia um problema: a indicação do nosso país e demais pequenos contingentes não estava na lista - ainda. Portanto, estávamos sempre a ver quando é que nos podiam dar e persistíamos. Na reunião de chefes o Jaime resolveu o problema e ia buscar o material às 16h. Mas o Bispo e o Bruno, pela manhã foram igualmente à luta pelo material e nunca mais chegavam para almoçar. Ainda esperámos, mas a fome já era grande e o trabalho para a tarde era tanto, que começámos a comer. O almoço foi sandes de queijo e fiambre, muita fruta e, para beber, tínhamos uma bebida que parecia Isostar. 

Mesmo no fim do almoço, apareceram o Bispo e o Bruno a dizer que tinham ido ao material pedir os lenços e os bonés do Jamboree, mas nada. O Jaime atalhou, dizendo mais uma vez que já resolvera essa questão na reunião da manhã.

Durante a tarde continuámos a trabalhar no pórtico e depois no mastro para as bandeiras. Para embelezar o pórtico, resolvemos fazer uma flor de lis em corda e pintá-la por dentro, de verde. Foi o Jaime quem a fez. Ficou simples, mas muito bonita. À medida que precisávamos de material - pinceis, tinta, corda, pregos - íamos pedindo aos outros contingentes, mas concretamente aos belgas, que traziam uma data de coisas e estavam ali mesmo ao lado.

Para o mastro, fomos buscar as três altas canas (mais ou menos 10m), que cada troop tinha direito lá no sítio do material e fizemos um tripé com a ligação a meio da cana. 

Fizemos ainda uma cerca para o mastro que custou um pouco a conseguir por os lados todos iguais, mas lá conseguimos. Tivemos de fazer tudo depressa porque ia lá o Príncipe de Marrocos, e os marroquinos estavam muito entusiasmados, e insistiam que tínhamos de estar fardados quando o Príncipe chegasse.

No fim do nosso trabalho, fomo-nos fardar e deixámos os Marroquinos fazerem a cerca exterior ao campo.

Felizmente, estava tudo pronto e em formatura quando Sua Alteza chegou. Com ele, veio uma data de fotógrafos, excitados com a ocasião. O Príncipe cumprimentou toda a gente. Os escoteiros marroquinos cantaram uma canção - que tinham ensaiado ao longo do dia - e que percebemos depois ser o seu Hino Nacional. Sua Alteza parou no contingente marroquino para falar com eles. Depois juntámo-nos todos para tirar fotografias. A seguir, os escoteiros marroquinos ofereceram três bolinhos diferentes a cada pessoa presente.

No fim de toda esta cerimónia fardámo-nos como pedia a organização - com o lenço, emblema e boné do Jamboree (que entretanto chegaram).

Demorámos algum tempo a jantar e atrasámo-nos um pouco, mas não houve problema, pois quando chegámos à entrada do sub-campo, embora já lá estivessem quase todos os escoteiros, tínhamos de esperar, não sabíamos porquê - ainda. Entretanto, o Cabrita foi desenrascar um mastro para a bandeira que íamos levar para a cerimónia.

Durante a espera, os escoteiros ali presentes cantavam coisas que sabiam e aplaudiam-se uns aos outros.

Chegou o "esperado". Era o desfile de escoteiros doutros campos, precedido de um costume excursional coreano, com coreanos lindamente vestidos, muitos tambores que davam um granda som, e muita alegria de todos os escoteiros atrás. A seguir à sua passagem, perfilaram os escoteiros do nosso sub-campo, incluindo nós, claro.

Nas curvas do caminho para a grande arena e numa ponte por onde tínhamos de passar, percebemos a quantidade de escoteiros que ali estava. A meio do caminho, entre as músicas e gritos dos escoteiros belgas e ingleses - que vinham à nossa frente e atrás de nós, respetivamente - nós cantámos a "Rama". Ficaram doidos! Primeiro calaram-se para ouvir bem e no fim aplaudiram bastante.

Quando lá chegámos, já a arena estava muito cheia. Sentámo-nos na relva, como todos. Havendo ainda alguma luz do dia, pudemos ver bem a mancha vermelha - dos bonés - que formávamos. Do céu, talvez se distinguisse bem essa mancha.

Antes do espetáculo em si, no palco desenvolviam-se danças coreanas. O espetáculo começou às 20h em ponto, anunciado por um locutor. Para além do palco - que mesmo lá de trás se via bem - havia dois grandes ecrãs onde se podia ver o que se passava no palco. Cantámos todos a canção do Jamboree. Numa enchente de música, fogo de artifício como provavelmente nunca voltaríamos a assistir ao vivo, muita cor, muitas fotografias, começou a festa. Em cada escoteiro vibrava de emoção à sua maneira. A seguir o Escoteiro chefe Nacional da Coreia do Sul veio dar as boas vindas e anunciar o Jamboree que, ao contrário da maioria dos atuais discursos, não foi chato. Depois foi a chegada das bandeiras. Estávamos sempre à espera da nossa. Quando finalmente entrou, gritámos e esbracejámos muito. O resto da cerimónia foi preenchido com danças de várias escolas coreanas e, no fim, muito fogo de artifício, de todos os lados.

Quando acabou, fomos contentes para os sub-campos, gritando de alegria por este acontecimento.

Chegámos ao nosso e, antes de seguirmos para o nosso campo, fomos às "dixies" que são as WC portáteis, espalhadas pelo campo. Antes de nos irmos deitar, fomos ainda tomar um grande banhão. De seguida, quase todos nos fomos deitar; apenas o Jaime e o Zé Inácio ficaram a ver as atividades que nos tinham sido destinadas pelo computador, quando foram a uma reunião com o resto dos chefes a seguir à cerimónia.


sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Finalmente, Sorakson | Dia 7 de Agosto de 1991 - 10º dia de atividade

 Hoje foi o dia de irmos para Sorakson, e o autocarro que nos levou arrancava às 9h. Acordámos às 6h e arrumámos tudo, desmontámos as tendas, etc. Como havia muitos bichinhos "acampados" no duplo teto e no cimo da tenda, quando sacudimos, assistimos a um espetáculo. O senhor Yum indicou-nos um sítio com sol para secar a tenda, mas mais tarde os cães estiveram a brincar ali sem darmos por isso, e ficou tudo sujo na mesma.

Depois de tudo arrumado e postas as mochilas no autocarro, fomos tirar fotografias todos juntos à entrada da sede. Primeiro, o senhor Yum tirou-nos duas fotografias com a máquina dele e depois tirámos nós. Deixámos algumas recordações com o Mr. Yum.

Antes de partirmos, pusemos a bandeira no vidro de trás do autocarro. Connosco, iam só dois alemães. Éramos para ir ter com os Bolivianos, mas eles não estavam lá, e seguimos só nós.

A viagem era de 7 horas. Havia um guia que traduzia as nossas perguntas ao motorista e vice-versa. Este dia deu-nos um guião de viagem, com as várias paragens que íamos fazer e a duração de cada trajeto. NO leitor de cassetes estava a dar músicas do Jamboree. Como eram sempre as mesmas, às tantas pedimos para mudarem para Phil Collins, Water Boys, etc. Atravessámos Seul de um lado ao outro para sairmos na direção de Sorakson. Estava muito trânsito e pudemos ver alguns dos locais por onde tínhamos andado nos últimos dias.

Pouco depois surgiu uma autoestrada que, naquele dia, era só para participantes do Jamboree. Toda a estrada exclusivamente para escoteiros e organizadores deste acontecimento. Tudo quanto era polícia e militares fazia continência à nossa passagem; a população acenava.

À medida que íamos avançando, a paisagem era mais espetacular. Imaginávamos já a beleza do local do acampamento. Para que a estrada se tornasse menos difícil no meio das montanhas, havia muitos túneis e viadutos. Umas vezes mais perto, outras mais longe, podíamos ver a linha do comboio, igualmente com muitos túneis. De uma vez, vimos um comboio a sair do túnel, parecia aquele anúncio da Nestlé. As florestas eram imensas e de grandes extensões; os rios eram límpidos e víamos pessoas a tomar banho, apetecia mesmo. Pela estrada fora víamos publicidade ao Jamboree, com muitas bandeiras, paineis, sempre o símbolo da atividade, havia também séries de bandeiras nacionais dos países presentes, pelo que, cada vez que víamos a nossa, aplaudíamos.

Nas paragens, além de irmos às "embaixadas", íamos conhecendo outros escoteiros que vinham nos outros autocarros. Eram tantos, que o Cabrita comentou, "Aqui só não há não escoteiros". Numa das paragens, quase todos comprámos uns bolinhos que pareciam de chocolate, mas eram um pouco enjoativos. Mais tarde, percebemos que eram de feijão.

Durante a viagem tirámos a desforra a horas de sono perdidas nos últimos dias, a Rita treinava o seu alemão, conversando os escoteiros alemães que vinham connosco; o Cabrita tirava algumas impressões com o anfitrião do dia (o guia da viagem).

A última parte da viagem durou 40m. Seguia por uma estrada de curvas apertadas e íngremes. Às tantas, começámos a descer para o vale onde decorreu o Jamboree. Chegámos às 16h, como previsto. Parámos na receção e o Tó foi perguntar qual o sítio onde íamos ficar. Quando voltou disse-nos que era no sub-campo 4, na troop 20. Despedimo-nos do intérprete e o motorista levou-nos para a entrada do sub-campo 4.

Aquilo era mesmo grande. Era uma autêntica cidade de escoteiros. Íamos estar ali uma semana inteira e mais um dia naquele sítio lindo, com escoteiros por todo o lado, lembrando-nos dos que não puderam vir connosco.

Com o contingente português, no nosso campo estavam mais dois, e como eram contingentes pequenos, ficámos todos juntos - além de nós, Marrocos e as Ilhas Faroe, que é um arquipélago que pertencia à Dinamarca e que entretanto tornou-se independente.

Enquanto o Jaime e o Tó foram informar-se de como estaria organizado o acampamento e outras coisas, o resto do grupo ficou a montas as tendas. O Zé Inácio e o Cabrita montaram um Iglu, o Bruno e a Rita montaram o Iglu do Jaime e o Ricardo tentou montar outra tenda, mas quando as outras já estavam montadas, ele ainda ia nas primeiras estacas, pois era mais difícil de montar e depois todos ajudámos. Um dos encaixes de um prumo partiu-se, e então o Cabrita improvisou um com um pau e a ajuda de facas de mato e a lâmina do corta-unhas do Bruno, que ficou ligeiramente torta.

A seguir fomos à receção buscar o material a que tínhamos direito - a cozinha e suas componentes. Eram imensas coisas: um toldo grande, uma mesa e dois bancos compridos para 4 pessoas cada, um fogão com dois bicos, o isqueiro, a bilha de gás, duas frigideiras, um tacho, uma panela enorme, uma espátula, uma concha, um pano de cozinha, uma esponja, uma luva, um alguidar e dois jerry-cans. Fomos ver como outros estavam a montar tudo aquilo para conseguirmos montar o nosso material.

Assim que acabámos, começámos logo a fazer o jantar, que era almôndegas. Havia também manteiga, pepino, cenouras, ket-chup. Fizemos sandes. Para empurrar, tínhamos leite. 

Depois tivemos de decidir quem ia dormir onde. O Zé Inácio e o Cabrita juntos, o Ricardo e o Jaime noutro iglu, a Rita e o Bruno na tenda.

Soubemos pelo Tó que a alvorada era às 6h, todos os dias, e que tínhamos de ir buscar o pequeno-almoço até às 6.30h. Por isso, rifámos os sacrificados para o dia seguinte. Os primeiros sorteados foram o Nuno e o Cabrita. O Tó, chefe do nosso contingente, tinha de ficar a dormir com os outros chefes, noutra zona do campo.

Quando acabámos de jantar fomos lavar a loiça e deitámo-nos, a ouvir montes de gente a falar até às tantas.

Sair de Moscovo no dia do golpe de estado | 19 de Agosto de 1991 - 22º dia de actividade

 A partida do autocarro para o aeroporto era às 6h. Já havia claridade quando nos levantámos, às 4h30, hora do início do golpe de estado. Nã...