sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

A cidade olímpica de Seul | Dia 6 de Agosto de 1991 - 9º dia de atividade

 Chiça, nunca mais começa o acampamento! No dia anterior combináramos acordar Às 7.30h mas só acordámos às 8h e ainda tínhamos muito sono.

Depois do banho, comemos corn-flakes e preparámos umas lembranças de Sintra para dar na Embaixada, enquanto fazíamos o "programa das festas", do dia. Decidimos ir de manhã ao Complexo Olímpico, almoçar lá, depois ir à Embaixada e por fim fazer as últimas compras, pois seria o último dia em Seul.

Mais uma aventura de transportes para chegar ao complexo olímpico, e uma caminhada final. Passámos por uma mercearia onde comprámos o piquenique do dia. Embora com fome, ficámos entusiasmados para procurar a bandeira portuguesa entre 165 e para ver a chama olímpica.

Depois do almoço, começou a chover. Corremos para uns bancos que tinham um tejadilho. Ficámos ali quase meia hora à espera que a chuva parasse. Quando parou, fomos finalmente visitar o parque, começando por um museu, o "museu do ar". Tinha umas esculturas feitas por amadores. As obras tentavam dar um significado subjetivo ao corpo do homem e sua utilização. Pelo parque fora também havia esculturas espalhadas pelos relvados.

A certa altura avistámos um complexo de estádios e quase corremos para lá. O primeiro era o velódromo. Vimos lá alguns ciclistas de cross amadores às voltas. O segundo, onde só havia meia dúzia de pessoas nas bancadas, era o de Haltereofilia. Havia mais dois, fechados, que deviam ser de ginástica. O último que vimos foi o de natação e adorámos. Era o maior, com uma piscina de 50m e uma para os saltos. Estava muita gente a fazer natação. Havia lugares para milhares e milhares de espetadores. Mas não tínhamos todo o tempo do mundo. Tínhamos de ir à Embaixada e às compras. Demorámos a encontrar a saída do parque gigante.

Ao trocar de metro, perdemos o Bruno de vista. Como ele no outro ia a dormir, pensámos que ainda lá estivesse. Então, estávamos a programar quem iria descer na próxima estação e regressar para o ir buscar, quando ele aparece na outra carruagem.

Durante a viagem esteve sempre a chover, e lembrámo-nos da roupa que deixáramos a "secar" no campo.

Deixámos as "little souvenirs" na Embaixada, assim como as nossas moradas, e despedimo-nos. Ficaram contentes com as lembranças e mostraram-se tristes com a despedida, a Mónica até se comoveu. 

Depois fomos comprar souvenirs de Seul para levar para Lisboa, no mercado. Para chegar ao mercado, foi mais difícil. Apesar de estarmos em Seul há quase uma semana, ainda não éramos azes da orientação, mas para lá caminhávamos. Após alguma discussão, uma senhora meteu conversa connosco e ajudou-nos a encontrar o caminho certo.

Já no mercado, o Bruno, que antes de "pobre" queria comprar um relógio à prova de água, um "Rolex Polaris", tendo um fundo de maneio, quis usá-lo para comprar o relógio. Depois de muito regatear, lá conseguiu comprar um.

O Zé Inácio andou muito tempo de roda das máscaras tradicionais. Quando estava prestes a desistir por não conseguir o preço que queria [esta parte do relatório está uma confusão, não percebo].

Para variar, fomos jantar ao Hardee's. Seguimos para o campo no autocarro 158 que é o que vai sempre mais depressa, mas também mais cheio. Foi a última vez que fizemos aqueles 2km. O Zé Inácio estava aflito das virilhas e tinha de andar com as pernas ligeiramente afastadas. Felizmente conseguimos boleia de dois carros, quase seguidos.

Quando chegámos vimos um grupo enorme de pessoas a cantarem e a fazerem uma grande festa. Depressa soubemos que eram miúdos de uma colónia religiosa que também estava ali instalada.

Foi a última noite no campo de formação de escoteiros da Coreia do Sul.

Seul e os seus esplendores... e uma carteira perdida | Dia 5 de Agosto de 1991 - 8º dia de atividade

 A alvorada hoje tinha mesmo de ser às 6h. Apesar do cansaço do dia anterior, alguns já estavam bem acordados a essa hora.

Antes de sairmos, o Mr. Yum, com receio de que fôssemos à boleia, indicou-nos os números dos autocarros e o que estava escrito à frente desses números, em coreano. Saímos para a habitual caminhada às 7.50h. Em vez de pagarmos - como era costume - o autocarro, utilizámos umas fichas, equivalentes aos módulos [bilhetes que se compravam em grupos de 10 p, ex] que os CNE tinham comprado no dia anterior e que torna a viagem mais barata. Como saímos um pouco longe de City Hall, local de encontro com a conselheira Maria Júlia e com a Mónica, chegámos nove minutos atrasados.

Seguimos para o metro, guiados pela Mónica, que estava muito contente com o dia de folga da Embaixada. Pagámos 600wons - 120$ [0.6€] para irmos até à paragem de metro mais perto da agência turística que organizava as excursões para a Aldeia Folclórica.

Esta viagem de metro teve uma particularidade: não foi subterrânea, mas sim como um comboio normal. Apenas as primeiras estações foram "underground". Após uma hora e 10m de viagem, sempre de pé, numa estação estava tudo a sair e outras pessoas a entrarem. Nós, como estávamos cansados, sentámo-nos logo. Mas eis que percebemos que era a última paragem e tivemos de sair. Mesmo a tempo!

Comprámos os bilhetes de entrada na aldeia mas ainda tínhamos de esperar uma hora pelo autocarro que nos deixaria na aldeia. Aproveitámos para comprar bebidas e para trocar dinheiro e distribuí-lo.

No autocarro tivemos de ir de pé outra vez até à aldeia.

Como eram quase 13h e perto da entrada da aldeia havia uma nascente de água potável (o que é muito raro na Coreia, segundo as trabalhadoras da Embaixada), almoçámos. Ao pé desse lugar havia uma loja com souvenirs onde um artesão gravava a fogo desenhos lindíssimos em peças de madeira.

A juntar aos escoteiros mexicanos e italianos que víramos no dia anterior, neste dia vimos escoteiros de todo o lado! Especialmente canadianos que não se fartavam de oferecer crachás, que traziam às carradas nos bonés. Muitos escoteiros quiseram conhecer-nos pela originalidade da farda [ou pela sua composição em desuso] e do chapéu. Também elogiavam o nosso inglês. Considerámos muito estranho que muitos escoteiros não conhecessem o aperto de mão escotista. E então, ensinávamos.

A Aldeia Folclórica tinha as casas típicas, claro; as divisões das casas explicadas por cima de cada uma; os celeiros, os instrumentos de ceifar e moer.

Por um dos caminhos, desfilava um casamento típico, com a noiva num cubículo muito pequeno segurado por quatro homens, o noivo a cavalo e os criados vestidos a preceito com bonitas cores. Todavia, "Eles casam-se todos os dias", foi o comentário de Mónica, já habituada ao cortejo.

A seguir havia um sítio onde se podia escrever num papel por 500 wons - 100$. Então pedimos à Mónica que escrevesse os nossos nomes em Coreano. A técnica de escrita é de cima para baixo e da direita para a esquerda. Além disso, o papel é dobrado uma série de vezes, consoante o número de palavras e caracteres que se querem escrever, de modo a que não falte nem sobre espaço no papel. A princípio, a Mónica estava a tremer de vergonha, sentindo-se observada por tanta gente, mas depois para o fim já estava à vontade. 

Depois passámos por um baloiço gigante onde é hábito os coreanos andarem, e de pé. Todos quiseram experimentar. O Tó foi quem conseguiu ir mais alto, talvez por ser mais leve, e apanhou o jeito logo ao princípio. Mais à frente, havia um espetáculo numa corda bamba. O funâmbulo dava saltos espetaculares e foi muito aplaudido.

Entretanto, o Ricardo "decidiu" desaparecer e o Cabrita e o Jaime foram à procura dele. Saímos do complexo turístico e ficámos ainda um bocado à espera do autocarro. Quando entrámos, monopolizámos a parte de trás do autocarro. Estávamos tão bem instalados, que adormecemos.

Não faltando à promessa do dia anterior, fomos à Torre. Despedimo-nos da Conselheira e da Mónica no City Hall e seguimos o mesmo caminho do dia anterior. Andar de teleférico constituiu uma primeira experiência para a maior parte de nós. Depois mais uma escadaria e ali estava a Torre. À entrada, um elevador. Quando picámos os bilhetes, que também eram um postal, deram-nos um porta-chaves. Ficámos doidos quando chegámos lá acima. A Torre ficava mesmo no centro da cidade e podia ver-se tudo. Como era o fim do dia, vimos o sol por-se e as luzes da cidade a aparecerem cada vez mais depressa. Com a vista infinita que tínhamos à frente, pudemos compreender o elevado número de habitantes desta capital. Quanto mais olhávamos, mais a cidade parecia crescer para os subúrbios.

Subimos mais três andares e fomos jantar ao restaurante panorâmico, cujo chão rodava em torno do eixo da torre, por isso íamos vendo tudo enquanto comíamos. Como o restaurante era obviamente caro, não pudemos satisfazer o nosso estômago devidamente.

A seguir ao jantar, descemos. Lá em baixo havia um painel com as torres mais altas do mundo e a Rita, o Cabrita, o Zé Inácio e o Jaime ficaram a comparar torres e o Ricardo e o Bruno foram jogar "Tetris" para uma sala de jogos que lá havia. Concluímos que a Torre de Seul era a terceira mais alta do mundo e a mais alta do Oriente, só que ao nível da água do mar, pois ao nível do solo, não é das mais altas.

O Bruno às tantas bateu com a mão na testa, "não sei da carteira!" O Jaime, meio "irritado" com a situação, pois parecia que a carteira teria sido perdida na sala de jogos, mandou-o ir lá acima mais o Ricardo. Apesar da situação, o Bruno estava bem disposto.

No regresso ao metro, passámos por um supermercado onde comprámos o pequeno-almoço do dia seguinte. Já no metro, sentámo-nos como as demais pessoas, de cócoras. Apareceu um senhor que simpatizou com a nossa figura e meteu conversa connosco. Queria mandar a Rita embora e oferecer um copo aos rapazes. Ofereceu-nos uma coisa para comer, que não identificámos, e recusámos. Ele tentava comunicar connosco em coreano e nós tentávamos despedir-nos dele em português. Uma risota.

Entretanto chegaram o Ricardo e o Bruno, mas sem carteira. Pois é, o Bruno, que tinha montes de dinheiro na carteira, ficou só com o dinheiro russo, que guardara noutro sítio. Passámos a chamar-lhe "o pobre" até ao fim da atividade, mas o Jaime decidiu dar-lhe um fundo de maneio para compensar a perda da carteira.

No caminho de regresso, dormimos e na parte de caminhar para o campo, apareceu uma carrinha a oferecer boleia, e nós aceitámos.

Não tomámos banho por preguiça, só os pés, que estavam impossíveis depois de tanto caminhar. Depois metemo-nos nos sacos-cama e adormecemos outra vez que nem uns anjinhos.

Secret Gardens de Seul e mais hamburgers | Dia 4 de Agosto de 1991 - 7º dia de atividade

 Estávamos tão moles que não nos queríamos levantar. Então, ficámos a brincar com os cachorrinhos que tinham vindo à porta da tenda. Entretanto, apareceu um fotógrafo que nos pediu para tirar fotografias de nós dentro da tenda. Disse que era para o jornal do Jamboree.

Tomámos banho e fizemos o pequeno-almoço que comemos mais ou menos pelo meio-dia. Assim que nos "despachámos", fomos fazer o caminho do costume até à paragem de camioneta e consequente viagem de autocarro até Seul. Neste dia íamos visitar os jardins secretos, que nos tinham sido recomendados na Embaixada, que seria giro vermos, e pusemo-nos a caminho.

Com a ajuda do mapa e de algum desenrasque, chegámos num instante. Mas a visita guiada daquela hora, em inglês, já tinha começado há um bocado e outra, só às 15.30h. Por isso fomos procurar um sítio para almoçar. Pusemo-nos a andar por uma avenida fora, cheia de restaurantes, mas só coreanos. Então, já meio fartos, sentámo-nos a olhar para o mapa. Apareceu uma família coreana e quem meteu conversa foi a filha mais nova, para aí com 5 anos, porque tinha ido aos Estados Unidos e sabia falar inglês. Aproveitámos para perguntar por um restaurante ocidental [shame on us] e eles indicaram-nos a "Americana", que é outro sítio onde se comem... hamburgers. Lá demos com aquilo ao fim de algum tempo.

A seguir ao almoço voltámos depressa para a entrada dos "Secret Gargens" para entrar a horas com o resto da excursão daquela hora. Na visita vimos escoteiros mexicanos e italianos. Durante a visita, o Ricardo meteu conversa com a cicerone que ficou muito contente por haver turistas tão interessados. Houve uma paragem de uns 10 minutos num sítio muito bonito, com um grande lago e grandes casas típicas coreanas. Mais para o fim havia umas árvores muito estranhas para nós e muito antigas, e com lendas de dragões e de serpentes associadas.

À saída, sentámo-nos um bocado para decidir o próximo passo do dia e decidimos ir à Torre de Seul. Andámos em mais alguns transportes até à estação central e depois fomos a pé até à Torre. Depois de subirmos várias ruas e estradas "algo" íngremes, e de subirmos umas quantas escadarias, chegámos ao "sopé" da Torre. Dali, apanhava-se o teleférico e a seguir é que era a Torre. Um coreano, que tinha aprendido português na faculdade, mas que já tinha esquecido pela falta de prática, disse-nos que já fechara e, vendo a nossa expressão de desilusão, indicou-nos um sítio bem perto dali que era um género de jardim zoológico, mas em ponto pequeno. Fomos então ver umas aves raras, uns macacos e umas galinhas enjauladas, ficando a promessa de voltar no dia seguinte, mas cedo, para visitar a Torre.

Voltámos para trás e fizemos compras para o piquenique na Aldeia Folclórica que iríamos visitar no dia seguinte. Jantámos no Hardee's e depois voltámos ao campo para dormirmos que nem uns anjinhos. 

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

Aspetos culturais na Coreia do Sul | Dia 3 de Agosto de 1991 - 6º dia de atividade

 Quando acordámos descobrimos que, mais ou menos ao pé de nós, tinham dormido também escoteiros mexicanos.

Tomámos banho e, mais uma vez, comemos farinha de chocolate pensal feita com leite em pó.

Como íamos nas calmas no caminho para a estação, demorámos um bocado a fazer os 2km, a que nos acostumávamos, dia após dia.

Já não era muito cedo e nós estamos sempre com fome. Então, quando chegámos a Seul fomos almoçar ao Wendy's. Começávamo-nos a fartar um bocado de hamburgers, mas ao mesmo tempo que nos fartávamos, habituavamo-nos à rotina.

A seguir ao almoço andámos às voltas e tirámos bastantes fotografias. Às 15.30h fomos para o Hardeis (?) onde tínhamos combinado. O caminho para a casa do embaixador ainda era longo e andámos a pé um bom bocado para além de duas carreiras que tivemos de apanhar.

Depois das apresentações ao Embaixador, fomos comer. Havia muito que comer - salada de frutas, mousse de chocolate, sandes de queijo e de presunto, salgadinhos, bolo de chocolate, sumos frescos, café gelado, etc.

Acalmado o estômago, começaram, em maior força, as palestras, chamemos assim. Tivemos uma conversa bastante interessante com o Embaixador, que esteve a contar-nos muitos aspectos culturais da Coreia do Sul. O aspeto que ele mais acentuadamente focou foi o facto de se estar a perder alguma cultura que havia antigamente, na Coreia. Mas este tipo de aculturação, feita principalmente pelos americanos que têm uma base militar, nem por isso tem feito muito melhor ou pior ao povo coreano. O povo das aldeias e do campo não tem sentido mudanças, segundo ele, pois continuam com a sua casinha, a sua cultura de arroz, sem muitas influências urbanas. Muitos há, no entanto, que saem do campo para a cidade, em busca de uma vida menos cansativa; mas, como em todo o lado, perdem bastante com o êxodo. Continuando, antes da vinda dos americanos e consequentes influências, não havia roubos e existia muito pouca marginalidade. Houve um crescimento muito acentuado de Seul - neste momento a cidade e arredores englobam cerca de 18 milhões de pessoas - crescimento este que contribuiu consideravelmente para a existência de algum "fora da lei". Em relação à vida na cidade, as pessoas são menos simpáticas do que as do campo - no campo não há tanta competitividade relativamente àqueles que vivem na cidade e arredores.

Falando do povo em geral, são muito amigos uns dos outros, havendo no entanto alguma desconfiança entre eles. Dentro do mesmo sexo e apenas como prova de amizade, andam abraçados ou de mão dada, facto que seria logo mal visto por muitos portugueses e outros povos ocidentais.

Um factor de difícil aceitação da nossa parte relativamente à cultura coreana, é a maneira como são feitos os casamentos e a vida dos casais (é uma generalização, mas pronto). Os casamentos são arranjados por casamenteiros. As pessoas namoram com quem quiserem, mas quando chega a altura do casamento, têm de casar com fulano de tal e pronto. Com isto, muitos homens e mulheres coreanas são tristes. A mulher é quem manda em casa, e o marido trabalha. Depois, parece mal se o homem não chegar tarde a casa. Mesmo que não queira, a mulher manda-o dar uma volta e só lhe abre a porta a partir de determinada hora. Assim, o homem, sem muito ou nada que fazer, embebeda-se.

Outro factor relevante é a religião. Em primeiro lugar, é importante sublinhar que a religião é a base da cultura. A religião com mais crentes é o Budismo, que foca em três princípios básicos: a disciplina, a organização e a concentração. Depois, como a Coreia é muito aberta às influências exteriores, foi o país do oriente onde o cristianismo teve mais aceitação.

A Coreia é, já de si, um país com uma cultura muito aberta às outras culturas, pois durante séculos e séculos não tinham nada de fora, só da China. Como disse o Embaixador, "as influências culturais partem dos arredores do país [países vizinhos] e daqueles que cá vêm."    

Como já estava a ficar tarde para nós, embora fosse interessante, tivermos de acabar a conversa. Fomos ainda tirar fotografias - daquelas do género das de família - ao pé da bandeira portuguesa e ficou combinado que no dia 5 iríamos todos visitar a aldeia folk. 

Depois saímos, juntamente com a Mónica e a Isabel. Elas perguntaram se nós queríamos conhecer o sítio onde os jovens universitários se juntavam à noite, que eram umas ruas num bairro em Seul. Lá fomos de metro e de autocarro para o local, onde jantámos, num restaurante. Como a comida era muito picante, pediram aos cozinheiros para não por tanto, mas continuava bastante picante, principalmente umas lulas e respetivo molho. Gostámos todos muito de uma espécie de Pizza, do arroz, e da água. E de uma bebida, cerveja ou licor de arroz? que cheirava muito a álcool, mas que até não parecia muito alcoólica.

A seguir ao jantar, quando passeávamos nas ruas daquele bairro, reparámos que os grupos de jovens se reuniam em círculos, sentados à chinês ou sentados sobre os pés. Vimos um grupo de músicos a ensaiar para um espetáculo de amadores que ia haver dali a duas semanas. Era um som muito forte, provocado principalmente por tambores. Numa pequena arena, estava um cantor a cantar "La Bamba", algo que não esperávamos. As duas funcionárias da Embaixada vão habitualmente para ali, mais ou menos uma vez por semana. 

Regressámos de metro e de autocarro para a estação e despedimo-nos da Mónica e da Isabel. Antes de irmos para o campo de formação, passámos por um supermercado, onde comprámos o pequeno-almoço do dia seguinte. Fizemos o habitual caminho de volta de camioneta, mais os 2km, e quando chegámos, fomos logo nos deitar.

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

Hamburgers por todo o lado e compras no mercado | Dia 2 de Agosto de 1991 - 5º dia de atividade

 Tinha chovido a noite toda e às cinco e tal da manhã o Zé Inácio acordou todo molhado. Então vestiu-se todo e deitou-se noutro sítio da tenda. Depois dormimos até perto das 11h. Muito à vontade com o tempo, tomámos banho, lavámos meias e tal, depois, como estava a chover fizemos o pequeno-almoço ao pé de uma garagem por baixo da sede. Tivemos uma certa dificuldade em fazer o pequeno-almoço porque os cachorrinhos estavam sempre a querer cheirar. Comemos, ao meio dia e tal, farinha Pensal feita com leite em pó, e juntámos à refeição bastante do pequeno-almoço que o chefe oferecera no dia anterior.

Para a paragem de camioneta ainda eram 2km. Embora a circulação fosse pouca, o Zé, o Jaime, o Cabrita e a Rita apanharam boleia de um senhor que não andava a mais do que 30km/h. Devido à velocidade a que íamos, quando chegámos à paragem, não tivemos de esperar mais do que cinco minutos pelo Ricardo e pelo Bruno. Com a ideia da boleia, pedimos boleia na paragem a alguns carros, para ir para Seul. O senhor Yum desaconselhou-nos ao máximo a boleia e não descansou enquanto não nos viu dentro do autocarro. Mas andar de autocarro em Seul é das maiores aventuras urbanas. Os condutores aceleram constantemente e quase que batem. Fartam-se de buzinar e só travam mesmo em cima das paragens. Mas é impressionante como não batem. Têm ótimos reflexos.

Parámos perto da estação e voltámos a dividir-nos. Andámos por ali às voltas e entrámos por uma rua cheia de mercado - com muita cor, muitas coisas, muita gente. Os coreanos que se metiam connosco perguntavam, "Jamboree?" e nós "Yes", e eles: "Where are you from?" e nós, "Portugal". E eles, "Ooh", e faziam a relação ao país com o desporto, dizendo, "Junior Socker" (Portugal ganhara nesse ano o mundial, na Luz), e "Eusebio" e ainda "Lopes, maraton". Ao quinto ou sexto coreano, rendemo-nos ao sotaque porque assim entendiam-nos melhor. 

Tínhamos combinado com os CNEs às quatro e meia para telefonarmos para a Embaixada. Lá fomos, mas antes fomos comer um Hamburger ao "Wendy's" e fomos à "Embaixada" (que agora era nick name para WC). Depois lá nos encontrámos todos com a conselheira do Embaixador. Fomos de autocarro até ao sítio das compras. A conselheira insistia com a "Guida" em comprar uma imitação genuína dum fato de treino da Channel. Nessa tarde, fartámo-nos de andar "nas ruas do comércio", de discutir preços, de discutir preços e, ah, de discutir preços também (acabámos por comprar bastantes coisas, sobretudo coisas típicas coreanas, entre elas máscaras características).

No fim das compras fomos comer ao Mc Donald's Os preços daqui já não eram como os de Moscovo, por um hamburger já pagávamos duzentos e tal escudos.

Regressámos à estação de autocarro. Ficou combinado com a conselheira encontrarmo-nos todos no dia seguinte às 15.30h no Harden's - outra casa de hamburgers, para depois irmos lanchar a casa do Embaixador e falarmos com ele. Saímos na estação e apanhámos outra carreira, para a paragem mais próxima do campo de formação. Fizemos os tais 2km a pé. Quando chegámos, o Mr. Yum estava chateado porque não disséramos que íamos chegar tarde. Mas afinal tinha sido um mal entendido entre o Tó e o Mr. Yum.

Quando fomos para a tenda, o Bruno e o Ricardo andaram ao moshe com os CNEs para adquirirem o resto do pequeno almoço que o chefe nos tinha oferecido. Depois fomos dormir.

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Primeiras impressões de Seul | Dia 1 de Agosto - 4º dia de atividade

 Os primeiros a levantar-se foram o Zé Inácio e o Cabrita. Os outros ficaram a comer as bolachas Maria do Ricardo a ver se conseguiam arranjar coragem para se levantarem. Mas combináramos estar prontos às 9.00h para falarmos com o Chefe, e a carrinha vinha buscar-nos para levar-nos ao centro de Seul; portanto tivemos de arranjar coragem. Fomos tomar banho e fazer o pequeno-almoço, que foi Farinha Pensal de Chocolate feita com leite em pó (todos estes ingredientes e das outras refeições em campo foram comprados no Continente no dia anterior à partida). 

Depois de comermos, de lavarmos a loiça e de arrumá-la, fomos falar com o chefe. Ele trazia-nos o pequeno-almoço, mas já não era preciso... De qualquer modo guardámo-lo para outras refeições.

O Chefe perguntou-nos até quando iríamos ficar lá e nós concordámos unanimemente com a ideia do "até dia 7", que foi o que respondemos. Ele concordou, aliás era o dia em que a maioria dos escoteiros iam para Sorakson - o local do Jamboree. 

Ele acrescentou que a carrinha vinha buscar-nos naquele dia, mas não sabia se conseguiria arranjar carrinha todos os dias. 

A carrinha veio. Embora com mais espaço, continuávamos cheios de calor e depois o ar condicionado só funcionava às vezes. Em Seul, ficámos na estação. Primeiro pensámos em andar juntos durante o dia, mas depois o Tó, o Bispo e o Nuno preferiram andar à sua vontade.

Pusemo-nos a pensar um bocado e decidimos ir à Embaixada. Vimos o caminho pelo mapa e pusemo-nos a andar. Pelo caminho passámos pelos correios e comprámos selos e postais. Mandámos alguns e guardámos os selos restantes. Quando chegámos à Embaixada - que era num edifício novo e grande - íamos começar a falar em inglês quando nos dirigiram a palavra em português, bastante bem falado. Perguntámos se podíamos falar com o Embaixador, mas elas responderam que ele não estava. 

Como nós durante estes dias em Seul queríamos conhecer a cidade o melhor possível, pedimos que nos dissessem os sítios mais giros para se visitarem. Entretanto chegou a conselheira do Embaixador. Ficou muito contente com a nossa visita. Viemos a saber por ela os nomes das funcionárias com quem falámos. Elas têm nomes em coreano e em português, para ser mais fácil. A conselheira chama-se Maria Júlia e as funcionárias, Mónica e Isabel. Perguntámos de novo pelo Embaixador e disse-nos que ele ia deixar de ser Embaixador e que estava agora a arranjar as coisas para partir. Depois aconselhou-nos uma data de sítios para visitar.

Como a Rita era muito parecida com uma sobrinha dela que se chama Guida, começou a chamar-lhe Guida. Em vez de escoteiros, chamou-nos escudeiros - sempre. A senhora conselheira era muito despachada e estava contente com a nossa visita. Durante a conversa, falámos de Moscovo e de como era. Reparámos que, em vez de Moscovo, dizia Moscow, e que em vez de URSS dizia USSR, tudo pegado. Eis se não quando, estava a D. Maria Júlia a falar com a Mónica e diz de repente: "É que eu gostava de ir almoçar com eles". Não era por nada, mas era mesmo o que queríamos. Então, acabada a conversa, saímos para almoçar. Seguimos por umas ruas até um belíssimo restaurante ao ar livre. Mandaram trazer pratos que não fossem muito picantes mas havia lá um que picava e muito. Comemos uma sopa gigante que enchemos com arroz que vinha numa tigela à parte; aquilo que picava imenso que não sei descrever, e aprendemos a comer com pauzinhos. À sobremesa comemos melancia. Para disfarçar o picante na garganta, bebemos água, muita água...

A seguir ao almoço regressámos à Embaixada. Falámos sobre os mercados em Seul. A Conselheira disse-nos que, ao preço que nos pedissem, deveríamos dividi-lo por metade, e a partir daí, discutir o preço até ao mínimo. Um pouco mais tarde, enquanto falávamos de coisas sobre Portugal e bebíamos café e comíamos bolachinhas, aproveitámos para ir discretamente, um a um, à casa de banho, que era esplêndida. A partir daí, batizámos todas as casas-de-banho de "embaixadas". 

A combinação final com a conselheira foi que, no dia seguinte, telefonávamos entre as 4h e as 4h30 a fim de combinar encontrarmo-nos num sítio para irmos todos às compras a um lugar onde vão muitos turistas e há muitas imitações "genuínas" e "más imitações" [de coisas de marca] disse ela, perto da base americana em Seul (um mercado que os americanos fizeram ali há três anos).

A seguir fomos ao Museu Nacional de Arqueologia. Tínhamos combinado encontrarmo-nos com o Tó, o Bispo e o Nuno na estação às 17h30 pois a carrinha vinha buscar-nos às 18h, por isso não tínhamos muito tempo para estar no museu. O museu era enorme, com quatro andares. As exposições às quais pode dizer-se que demos apenas uma vista de olhos eram nas salas que circundavam uma sala grande, tipo assembleia, que tinha a altura total do edifício. Foi esse o sítio do museu que mais apreciámos.

No caminho - apressado - do regresso, reparámos nalgumas bancas de venda que vendiam peixe seco. Reparámos num - único - peixe fresco, com grandes cubos de gelo a tentarem manter a frescura do peixe. Ficámos contentes por termos chegado perto da estação, do outro lado da avenida, dentro do horário combinado. Descemos a uma passagem subterrânea e perdemo-nos. Aquilo tinha caminhos por todos os lados. Tentámos um e outros e nunca mais dávamos com o raio da estação. Para ajudar, as tabuletas eram muito elucidativas, todas em coreano, claro. Por fim, e atrasados, demos com a estação. O Tó disse-nos que a carrinha já lá estava há um bocado. Fomos a correr para ela. Connosco, na carrinha, estava também um chefe mexicano que ia ficar no campo de formação.

Quando chegámos ao campo, qual não foi a nossa frustração, quando percebemos que o chefe mexicano ia ficar a dormir dentro da sede. Sentimo-nos um bocado discriminados. Mas também, já estávamos bem instalados na tenda, que era enorme, também não tinha importância. 

Depois fomos tomar banho. Antes do jantar, o Zé Inácio e o Jaime lavaram a camisa. Quando  Zé ia estendê-la, chegou o Mr. Jun e, entre mímica, conseguiu convencer o Zé a encharcar a camisa e a segui-lo. Era para metê-la na máquina de secar! 

Comemos o mesmo que no dia anterior, mas estava melhor - parecia que nos habituávamos bem às comidas de pacote. Estávamos com grande pedalada para falar e o Jaime, o Cabrita e o Zé Inácio, juntamente com o Tó, o Bispo e o Nuno, ficaram a contar as suas aventuras e desventuras das descidas e subidas de rios que já fizeram. 

Deitámo-nos às 23h30.

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

De Moscovo a Seul | Dia 31 de Julho de 1991 - 3º dia de atividade

Quando já sobrevoávamos a China, vimos ao longo de bastante tempo, a muralha. Durante a descida a Xangai, o piloto andava às voltas com o avião, e havia muitos poços de ar. Em Xangai parámos durante uma hora e meia. Durante a paragem, surgiu um nevoeiro esquisito do teto do avião. Achámos aquilo um bocado estranho (por inexperiência), mas lá nos habituámos. Infelizmente não pudemos sair. Assim, ficámos dentro do avião, a gozar a cena que se passava lá fora - nas pistas acessórias podiam observar-se pessoas a andar de bicicleta na maior das calmas, como se nada fosse. Penso que em nenhum outro aeroporto se lembrariam de deixar pessoas a circular de bicicleta [poderiam ser trabalhadores, mas nada o indicava claramente] pelo aeroporto fora.

No princípio da segunda parte da viagem (a seguir a mais poços de ar e tentativas de sair dali), ouvimos e aplaudimos músicas que os Bolivianos cantavam. Depois, uma rapariga coreana de 16 anos que o Ricardo conhecera no avião, foi lá ter connosco onde estávamos sentados e ensinou ao Ricardo o abecedário coreano e algumas expressões coreanas. Já no fim da viagem, tivemos de preencher um formulário que era obrigatório entregar no aeroporto de Seul. Fez-nos impressão como estávamos já às 17.15h de Seul do dia 31 de Julho! Custou-nos a habituar.

Ao contrário das expressões duras dos russos, aqui os coreanos sorriam e cumprimentavam-nos com alegria [creio que muita gente estaria informada do evento internacional]. Reparámos na sofisticação do aeroporto. Quando chegámos ao sítio onde tínhamos de mostrar os passaportes, além dos inúmeros anúncios ao Jamboree, estava lá um escoteiro com uma tabuleta na mão a dizer Portugal. Começámos a sentir uma organização extrema que nos fez sentir bem. O escoteiro falava inglês e ajudou-nos a preencher o resto dos formulários. A seguir a mostrar o passaporte fomos buscar as mochilas. Este escoteiro, e outro que o acompanhava, oferecia constantemente carros de carga, pois achou-nos demasiado carregados com aquelas mochilas. De seguida fomos trocar dinheiro. Aqui as contas com dinheiro também eram fáceis. Era só dividir por cinco. Um Wouwn é equivalente à quinta parte de um escudo - vinte centavos [4 cêntimos de euro]; ao contrário de um rublo, que vale 5 escudos. Era fácil, portanto.

À saída do aeroporto, tínhamos uma carrinha só para nós, que ia levar-nos até um campo de formação de escoteiros, a 30km do centro de Seul. Assim que saímos para o exterior, parecia que tínhamos entrado numa piscina coberta. O céu estava coberto de nuvens e estava muito calor e muita humidade. Colocámos, com algum custo, todas as bagagens e toda a gente na carrinha. Mesmo com calor e suores, estávamos cansados e dormitámos um pouco.

O campo de formação de escoteiros ficava nos subúrbios da cidade, bastante isolado e ao pé de um campo de golfe e de um campo de arroz. O edifício da sede imitava uma tenda. Tinha uma sala grande assim que se entrava, com uma mesa de reuniões. À volta desta, podiam observar-se bustos de figuras importantes do escotismo coreano e posters de acampamentos. Mais perto da entrada e à esquerda, havia um balcão com coisas do Jamboree à venda. Depois ao pé havia uma porta que dava para o escritório do presidente. Do outro lado havia um grande refeitório e outras salas. Estivemos a falar com o chefe e conhecemos o senhor que tomava conta daquilo - o Se. Yum, uma figura caricata, com quem aprendemos várias coisas e nós também lhe ensinámos, apesar de ele não saber falar inglês.

Deram-nos duas tendas grandes. Uma ficou para os CNE e a outra para nós. O Jaime, o Zé Inácio e o Cabrita ficaram a montar a tenda, enquanto o Bruno, o Ricardo e a Rita ficaram nas escadas do edifício da sede. Entretanto, começou a chover, mas até soube bem. As mochilas, que tinham ficado à porta da sede, foram carregadas pelos três mais novos. A seguir brincámos com um cachorrinho que lá havia.

Depois de tudo arrumadinho, fomos tomar banho. O banho frio soube bastante bem, mas com a humidade e o calor, passados cinco minutos, apetecia-nos mais um banho. A seguir fomos preparar o jantar. Ao pé dos balneários e das casas de banho (que além de não serem limpas há bastante tempo, tinham uns besouros horrorosos) havia um chafariz e uma mesa. Foi aí que preparámos o jantar e a maior parte das outras refeições no campo de formação. O nosso jantar foi arroz à valenciana, daquele de preparação instantânea. Depois do jantar e de se ter lavado a loiça, fomo-nos logo deitar.  

Sair de Moscovo no dia do golpe de estado | 19 de Agosto de 1991 - 22º dia de actividade

 A partida do autocarro para o aeroporto era às 6h. Já havia claridade quando nos levantámos, às 4h30, hora do início do golpe de estado. Nã...