segunda-feira, 6 de junho de 2022

Dia 11 de Agosto de 1991 - 14º dia de atividade

 A chuva continuava e estávamos cheios de sono. Os alarmes dos relógios tocaram pontualmente às 6h, mas, exceptuando o Jaime e o Ricardo, que estavam de serviço, os outros só nos levantámos quase às 7h. Para "meter ordem ao pessoal", o Jaime, seguindo a lista dos sacrificados dia-a-dia, decidiu que ficavam também a fazer as refeições, tem de ter o pequeno almoço pronto às 7.30h, o almoço ao meio-dia e o jantar às 18h. Assim, as coisas ficavam mais disciplinadas.

Ainda que mal dormidos e bem ensonados, fomos para um duche rápido para estarmos prontos para a primeira refeição - sempre de tamanho XL - às 7.30h.

Hoje, o Bruno de manhã foi para o motocross e o Ricardo foi, mais uma vez, acompanhá-lo.

O Cabrita, o Zé e o Jaime, foram fazer balão, o que conseguiram depois de esperarem uma hora e tal. Voaram entre 8 a 10 minutos num balão, recebendo instruções antes da atividade. A altitude atingida não era grande, mas mesmo assim implicou grande coragem, especialmente por parte do Zé Inácio, que tem algumas vertigens. 

A Rita foi para o artesanato e fez um leque.

O almoço, desta vez, foi tipicamente coreano. Arroz com alguns ingredientes que não distinguimos bem que, como toda a comida tradicional coreana tem carradas de picante, mas enfim.

À tarde, a Rita e o Bruno, mais o Nuno, foram fazer uma atividade aquática - speed boating. Foram de camioneta até ao cais. Depois de esperarem por licença para entrarem no barco. Uns atrás dos outros, os barcos partiram. Nas primeiras milhas, já se pensava que o barco continuaria na fraca velocidade e que seguia e que o nome da atividade... era só nome. Mas a certa altura, começou a andar mesmo depressa. Como estava calor e estávamos cansados, às tantas já dormíamos. A velocidade, por muita que fosse, já não dava  entusiasmo devido à monotonia da viagem, e adormecemos. Se não tivéssemos sono, o entusiasmo poderia ter fundamento. Afinal, estar ali era um momento único. A "navegar" no mar do Japão e a perceber o silêncio da história que aquele mar guarda da guerra e tudo o que ali se passara...

Depois os barcos deram meia volta e regressaram ao cais. A viagem de autocarro foi igualmente na sorna, aliás, não éramos só nós, quase todos dormiam no autocarro.

Uma das atividades obrigatórias do Jamboree era o "Global Development Village". Lá, havia quarente e cinco postos diferentes e cada equipa de cerca de 15 escoteiros tinha de percorrer cinco pontos.

As atividades baseavam-se em educação. Um dos seus principais objetivos era perceber as dificuldades que as pessoas com deficiência encontravam na vida, havendo para isso atividades específicas. Além disso, previa-se uma educação à cerca dos perigos que o Planeta Terra vive; adolescência e educação sexual; prevenção de doenças a que atualmente somos sujeitos, etc.

A Rita e o Bruno foram até lá, mesmo sem bilhete. Mas como não tinham outras atividades para a tarde, foram tentar. Podendo ou não, as sessões já tinham acabado. De qualquer maneira, entraram para ver como era. Foram a um café que era o café francês, e estava lá a Maria Amélia. Ofereceu-nos um café e uma bebida fresca. Ali, naquele local, todos os dias havia um tema e, que lá fosse, escrevia sobre ele e pendurava a sua ideia num placard que lá havia. Naquele dia, o tema era o patriotismo e eles lá evocaram as suas ninfas para fazer sair o assunto do espírito para o papel.

A seguir saíram com ela e foram fazer uma visita à tenda do Brasil, mas depois como já era tarde, ela teve de regressar ao seu campo.

Na tenda brasileira, depois de mais café e conversa, convidaram todo o contingente português para, nessa noite, às 18h, irmos a uma festa joanina (de São João, tipo santos, tradicional brasileira).

Na volta para o campo encontrámos os Jaime, o Zé Inácio e o Cabrita, que vinham frustrados do "não disfrute" da tarde deles - de manhã, tinham tentado fazer motocross, mas só deixaram o Cabrita fazer, porque a atividade não era para chefes. Ao princípio da tarde, a única coisa que lhes valeu foi a visita ao campo do contingente brasileiro. Depois foram tentar andar de ultraleve e não conseguiram e a seguir foram tentar Challenge Valley - que é uma pista de obstáculos e estava fechada.

Voltámos todos para baixo. Encontrámos pelo caminho o António, que disse que precisava de dois escoteiros fardados para irem à recepção de Israel. Como o Bruno e a Rita estavam fardados, foram. Havia um "percurso" na recepção. A primeira paragem era do muro das lamentações, e cada escoteiro que passava por ali deixava uma mensagem. Depois era uma banca de comida onde davam um prato típico israelita. Uma espécie de almôndegas, salada e um puré esquisito mas que, misturado com o resto, caía bem. Depois experimentámos o pão que, em vez de feito em formato de bolo, é feito em formato de panquecas. No fim, ficámos a falar com os chefes que por ali passavam. falámos com um chefe alemão e com o secretário do Bureau internacional.

O jantar foi hamburger no pão. Quando arreámos a bandeira e cantámos o hino, muita gente tinha-se juntado no pórtico, de boca aberta a olhar para nós e a ouvir-nos. No fim, bateram palmas. Modéstia à parte, cantávamos o hino muito bem.

Depois da cerimónia fomos à tal festa joanina. No caminho da ida, o Cabrita perdeu a tampa da objetiva da máquina fotográfica. O resto do grupo foi andando enquanto ele procurava a tampa, sem resultado. Ele não sabia o caminho para lá, mas como o resto do grupo calculou, ele lá chegaria pelos seus próprios meios. E assim foi.

A festa começou com uma dança típica brasileira. Havia uma fila de rapazes de um lado e à frente, uma de raparigas. Depois, à voz do "mestre", iam fazendo o que ele dizia. Ora dançavam, ora andavam à roda, ora faziam rodas, ora tornavam às filas. Depois, a música continuou, mas a conversa e os conhecimentos trocados tomaram conta da festa. A acompanhar, pipocas, café brasileiro e quentão. Quentão é uma bebida tipo ponche, mas com o típico saborzinho a Brasil. No fim do convívio, voltámos ao campo para dormirmos. 


segunda-feira, 16 de maio de 2022

Rádio, lama e muito mais | Dia 10 de Agosto de 1991 - Sábado, 13º dia de atividade

 A alvorada, à qual nos tínhamos de habituar, foi mais uma vez às 6h. Não apetecia mesmo levantar, pois a chuva persistia e ameaçava continuar pelo dia fora. Mas, mais cedo do que os outros, levantaram-se o Zé Inácio e a Rita para irem buscar a comida para o grupo. Depois das lavagens, tomámos mais uma vez um excelente pequeno-almoço, que deesta vez diferia nos corn-flakes normais: eram de mel e às estrelinhas [presumo que não conhecesse as estrelitas em 1991 em PT].

Depois de hastearmos a bandeira e cantar o hino, partimos para os nossos afazeres.

O Ricardo foi para os Mopeds [falta explicação]. O Jaime foi fazer umas compritas e o Zé Inácio, depois de dar uma volta pelo campo, também foi.

A Rita foi à tenda das receções dos brasileiros, com o Tó e com o Cabrita, porque ia dar uma entrevista para a Rádio Coreana. Felizmente, a jornalista sabia falar português, embora fosse coreana. A repórter parecia muito atrapalhada e só conseguia falar em espanhol. Depois de "atinar" com a língua, lá fez as perguntas. A seguir a Rita ia fazer a atividade de Rádio Amador, mas ainda faltava bastante tempo, então foi com o Cabrita ver as coisas ali à volta. Ao pé do atelier de Rádio Amador havia uma tenda onde era a Igreja Protestante, onde davam leques e gelados de borla a quem lá fosse visitá-los.

A seguir foram ao atelier de computador onde viram escoteiros aprenderem as bases (mais básicas) de informática e alguns faziam desenhos ou construíam textos e depois imprimiam. Viram um escoteiro coreano muito compenetrado a desenhar o símbolo do Jamboree que copiava a olho de um poster que estava na parede. Fora do recinto, os escoteiros que esperavam pela atividade davam toques num género de pompom. O melhor com os pés naquela brincadeira era, claro, um chefe coreano. A particularidade dos toques é que, em vez de se darem alternadamente com os pés e joelhos, dobravam a perna para cima e para dentro e devam-se os toques só com a parte interior do pé.

Depois estiveram a dar uma vista de olhos às tendas dos diversos países. Quando voltavam, viram o Bruno, que vinha do Pioneirismo e que os levou a ver. Nesta atividade, os escoteiros podiam testar a imaginação para inventar nós e ligações. Nesta atividade, podia-se escolher entre construir em equipa uma torre de vigia, uma ponte Himalaia ou uma ponte levadiça.

O Bruno e o Cabrita foram de seguida para a atividade de motocross onde se sujaram todos de lama. A Rita seguiu para a atividade de Rádio Amador. Ali, havia um chefe americano que dava umas noções de código morse e as bases do funcionamento da Rádio Amador pelo mundo fora. Disse que os Rádio Amadores tinham um código em vez de um nome. Mostrou que conseguia emitir em Morse até 35 palavras por minuto, embora o normal sejam cerca de 20. Adiantou ainda que, para chamar um país, há determinadas iniciais e que este tipo de rádio funciona em onda curta. Depois construíram um pequeno sistema elétrico que funcionava com uma pilha e que tinha umas luzinhas que acendiam e apagavam. Os chefes que estavam a orientar esta atividade disseram que era para meter atrás da anilha do lenço.

Ao almoço, estávamos todos menos o Bispo, e decidimos inventar um grito para as refeições em que cada um dizia uma coisa. E ficou assim: o Bruno começava por dizer "Então?", depois o Ricardo, "Quando é que isto começa?", e o Cabrita, "Uhm?", a Rita, "Sei lá!", e o Zé Inácio, "Agora?", depois o Jaime, "Ainda não", e depois o Nuno, "Já!" e no final dizíamos todos "Komsa Humninda", que é como se diz obrigado em coreano. As habituais ricas sandes do almoço souberam-nos melhor.

À tarde, o Jaime, o Zé Inácio e o Cabrita foram fazer tiro ao alvo com arco, e depois com armas X-2.

O Bruno, a Rita e mais uma rapariga das Faroe Islands foram fazer serigrafia. Era ao pé da pequena arena. Levaram uma t-shirt para fazer a estampagem. Como estava muita gente, demoraram bastante tempo, mas divertiram-se a ver os oradores daquela tarde.

Ao fim da tarde, já no campo, foi lá um escoteiro belga que quer muito ser português. Ele conhece muitas terras portuguesas, fala português (razoavelmente) porque foi a Portugal há dois anos numa acampamento e no ano passado também. 

Às 18h apareceu o Tó e disse que precisava de alguém para cantar a canção do Jamboree no coro para o "Youth Concert" que ia haver às 20h. A Rita ofereceu-se e lá foi para o coro. Chegou lá e teve de esperar algum tempo - o suficiente para aprender a música. Depois mandaram todos subir ao palco, e ensaiaram uma vez. A segunda vez já foi o início do espetáculo. Depois começou a chover e os músicos não quiseram tocar assim. Ainda se esperou bastante tempo, mas a chuva continuava e o "show" não se realizou.

O Zé Inácio e o Jaime, depois da reunião de chefes de sub-campo que tiveram às 18h, ficaram lá para um cocktail oferecido pelo chefe de sub-campo. Entretanto, no nosso campo, jantava-se. Desta vez foi peixe frito com batatas.

O Bruno e o Cabrita foram à procura do campo onde estava acampada a Stoffel, a anfitriã do Cabrita quando do Fabula89. Como não a encontrara, foram à arena grande ver se havia o tal "Youth Show", mas não houve, como já se disse atrás. Entretanto, como o escoteiro belga os tinha convidado para ir a uma pequena festa organizada pela Itália no subcampo 6, lá foram e divertiram-se bastante. Quando voltaram ao campo, estava tudo a falar com a Stoffel, que acabara de chegar. Finalmente o Cabrita encontrou a sua amiga e ficámos todos a falar um bocado. 

Começou a ficar tarde, e fomo-nos deitando.

quinta-feira, 12 de maio de 2022

Jogos tradicionais, mercado e informática | Dia 9 de Agosto de 1991, sexta-feria, 12º dia de atividade

 Hoje foi a vez do Bruno e do Bispo irem buscar o pequeno-almoço e o almoço. Depois das lavagens, tivemos mais uma vez um pequeno-almoço que foi um senhor pequeno-almoço. O Jaime falou-nos do resultado da reunião do dia anterior. Destinou, à sorte, as fichas de participação nas atividades a cada um e depois, de acordo com os gostos de cada, fizeram-se algumas trocas, que se realizaram não só entre nós, mas também com os escoteiros marroquinos e das Ilhas Faroé. 

Às 8.30h foi o hastear da bandeira, para o qual nos fardámos com o lenço e o chapéu do grupo 93. Contudo, a corda não deslizava bem na roldana que estava no topo do mastro, e a Rita não conseguia hastear a bandeira.

À seguir à cerimónia protocolar, começámos a sair para as atividades. Apenas o Jaime e o Cabrita ficaram a arranjar o mastro. A Rita e o Zé Inácio foram fazer jogos populares coreanos. Havia 4 jogos mas só tínhamos de fazer dois, e fizemos os que parecia que íamos gostar mais. Um era um baloiço, o tal baloiço tradicional, onde andam principalmente os homens. No baloiço anda-se de pé. Tem de se fazer bastante força de braços e dar balanço fletindo as pernas. 

O outro foi saltar de pé num sobe e desce em que está uma pessoa ao centro a equilibrar os movimentos, tipo eixo, e outras duas a saltarem. Só se pode saltar quando o parceiro termina a descida do seu salto. Este jogo, tradicionalmente jogado pelas mulheres coreanas, era uma maneira de mostrar que as mulheres também faziam alguma coisa além dos trabalhos domésticos. Os outros dois jogos consistiam numa dança coreana e uma luta livre onde os lutadores colocam um cinto especial e agarram-se à cintura dos adversários, baixando o tronco. Nessa posição, iniciam o assalto, que termina quando um deles consegue atirar o outro ao chão.

Quando, por volta das 10.40h, a Rita e o Zé encontraram o Jaime e o Cabrita a meio caminho das suas atividades, resolveram ir à zona dos mercados. Debaixo de um grande toldo, vendiam-se muitas coisas, muitas delas que faziam parte do artesanato coreano. Havia máscaras, leques, biblôs, pulseiras, anéis, colares; havia até um sítio onde, na hora, se podia fazer a inscrição de um nome e da data da inscrição numa pequena medalha. Além destas coisas típicas, muitas das bancas vendiam t-shirts dos últimos jogos olímpicos e a respetiva mascote. Este mercado era composto de quatro fileiras de bancadas, havendo um corredor central. Na zona de compras do lado de fora da tenda havia pouca gente, pois chovia imenso e, para estar a ver as coisas à vontade, só lá dentro. 

Perto deste mercado, mas numa tenda separada, estava o "mercado do Jamboree". Ao balcão havia filas de pessoas a comprar tudo e mais alguma coisa. Desde t-shirts, porta-chaves, anilhas de lenço, lenços, bonés, até mochilas, toalhas de praia, tudo com o símbolo do Jamboree. Havia até um papelinho com a lista de todas as coisas para que as pessoas fossem colocando uma cruzinha, à medida que adquiriam os diferentes items. O Jaime e o Cabrita foram até ao banco trocar algum dinheiro. Quem trocasse dinheiro no acampamento, tinha direito a um porta-chaves do Jamboree. Depois o Jaime e a Rita foram aos correios, que eram ao lado do banco, para ligar à embaixada de Seul a dizer que chegáramos bem, mas nenhum de nós tinha ali o número da embaixada.

Embora estivesse a chover muito, havia uma data de escoteiros, especialmente norte-americanos a verem óculos de sol. Mas a atração quase principal do mercado eram as tais medalhinhas onde se gravava o nome e a data.

Quando voltaram para o campo, já muitos tinham almoçado. O Bruno, de manhã, tinha feito um porta-chaves e um leque na atividade de artesanato. Só tinha direito a fazer um, mas lá o deixaram fazer os dois. Para fazer o porta-chaves faziam um barulho enorme a martelar uma pecinha. Para o leque, o difícil era colar as últimas três ripas de madeira ao papel do leque, e tinham de desenhar uma pintura tradicional coreana. Havia mais duas atividades de artesanato: uma era um bonequinho que já estava feito e era só preciso pintar, para depois pendurar ao pescoço e a outra era uma anilha onde se colava a parte exterior à interior e dava-se lustro. 

Voltando ao almoço, o Bruno já estava a acabar de almoçar e ia agora para uma atividade de Hiking, que era em grupos de 20, faziam 6km ao longo da costa, no Parque nacional de Sorakson.

Mas o almoço foi o costume. Sandes cheias de condimentos com muita mostarda, maionese e ketchup. Para beber, desta vez foi uma bebida que sabia a pastilha elástica e a fruta foi melancia. 

O Cabrita era para ir fazer a atividade de "orador". Esta atividade, que se realizava numa pequena arena ao pé do nosso subcampo, consistia em falar, cantar ou fazer alguma coisa no palco durante pelo menos um minuto. Esta atividade decorria ao longo de todo o dia. Mas resolveu fazer ciclocross. No entanto, como chovia a potes, a atividade não se realizou (era 1km em zonas sinuosas e já de si lamacentas). Mais tarde, foi ao subcampo um.

A Rita foi fazer orientação. Quando chegou lá, deram-lhe um mapa onde estavam assinalados vários pontos. Cada ponto por onde se passasse, ganhava-se pontos (15, 20 ou 25, conforme a dificuldade em chegar ao local). Podia-se ir para o ponto de chegada onde se furava a pulseira quando se tivesse mais de 100 pontos. Com ela iam mais dois japoneses e dois coreanos que não sabiam falar inglês. Mas não houve problema por causa da dificuldade de comunicação. Até se divertiram bastante a rirem-se quando alguém caía na lama, que era "ligeiramente" escorregadia.

O Ricardo foi fazer a atividade de computadores, utilizando um IBM PC 5540 e impressora e aprendeu a estabelecer um programa e o seu funcionamento. Havia uma equipa de três participantes por aparelho e a linguagem de programação era BASIC.

Ao fim da tarde, estávamos a contar as nossas aventuras, quando aparece uma escoteira do contingente francês a falar português. Era francesa porque os pais emigraram para França. Disse-nos que já estava à nossa procura há muito tempo e achou-nos. Chama-se Maria Amélia. Tem 19 anos e no grupo dela é chefe dos lobitos. Convidámo-la para jantar, mas já tinha jantado.

Jantámos frango com arroz e batatas e uma data de coisas. Para o jantar tinham-nos dado 4 frascos de picante para fazer o frango (!) Nós só utilizámos um pouco de um e já estava picante. Imaginámos "quão ardente" iria ficar o nosso prato com toda aquela mistela avermelhada no comer.

Às 20h era para haver a "noite coreana", mas como estava a chover muito, não houve.

O Tó, que passara o dia a ver as tendas representativas de cada país*, conheceu o chefe brasileiro que nos convidou para passarmos lá depois do jantar.

 *Perto da grande arena onde se realizavam as grandes cerimónias, havia uma tenda para cada país, onde cada um tinha a oportunidade de representar o seu país, apresentando-se da melhor maneira, com fotografias de paisagens, e quando outros visitavam, tinham a oportunidade de explicar tradições locais, gastronomia, etc.

Fomos então ver a exposição do Brasil. Ao chegar, sentimo-nos logo bem, principalmente porque sabia bem falar português ao fim de um dia todo a falar inglês, e também porque fomos muito bem recebidos. Depois daquela chuva toda, soube bem despir o impermeável, e beber um ou dois cafés, bem fortes. O chefe Ignácio ficou feliz por haver um português com um nome semelhante. Por isso, quando distribuiu lembranças do contingente, como só tinha duas t-shirts, uma foi para o Zé Inácio, e outra para a Rita, a única menina. No Brasil, dizer rapariga muitas vezes adquire o significado de prostituta. Por isso quando os amigos disseram, "é por ser a única rapariga", o chefe Inácio estranhou. E depois explicou-se a situação.

A seguir ao café e às lembranças, estivemos a falar com o Ignácio, que estava a informar-nos sobre a vida socioeconómica do Brasil, que, segundo ele, é em parte muito difícil e com muitos problemas; mas os brasileiros têm dificuldade em sair do país: "uma vez lá instalado, vocês não quer mais sair de lá", disse, com um sorriso, sublinhado pela cara risonha que já tinha naturalmente.

Acabada a conversa, e já mais aquecidos, regressámos ao nosso campo. Felizmente, já não chovia, mas infelizmente, o céu prometia chover mais.

Antes de nos deitarmos, fizemos e/ou melhorámos os regos à volta das tendas. O Zé Inácio e o Cabrita descobriram uma "piscina" na sua tenda. Lá limparam tudo, e dormiram o mais seco possível. 

quarta-feira, 9 de março de 2022

Um pequeno acidente e os gadgets do Jamboree | Dia 8 de Agosto de 1991 - 11º dia de atividade

 Às 6.20h o Cabrita e o Nuno levantaram-se para irem buscar o pequeno-almoço e o almoço, mas quando chegaram ao sítio onde se dava a comida, souberam que os "Faroe Islandeses" já os tinham ido buscar para toda a "troop".

Os outros foram-se levantando com facilidade pois o sol já ia alto e até fazia algum calor. De seguida fomos tomar banho aos novos chuveiros. Já lavadinhos e fresquinhos, fomos fazer o pequeno-almoço. Com os cestos da comida vinha um livro com toda a ementa do acampamento. Achámos o pequeno-almoço enorme: ovos mexidos com bacon, corn-flakes, fruta e bolo. E sobrou.

A seguir à lavagem da loiça e arrumação, no campo começaram a fazer-se algumas construções. Primeiro foi o pórtico: os Faroe Islandeses deram a ideia, os portugueses aperfeiçoaram-na, ou seja, fizeram toda a construção, e os marroquinos "bateram palmas". Enquanto cortava um tronco com o machado, o Nuno cortou o joelho, fazendo um golpe profundo. O Jaime fez o primeiro socorro e depois foi para o Hospital do Jamboree acompanhado pela Rita, onde levou dois pontos. O hospital, feito numa grande tenda, era bastante bom e organizado. Mas, embora o Nuno se mostrasse bastante branco, ainda demorou quase três quartos de hora a ser atendido. Teve a sorte de se poder mexer à vontade, mesmo com os pontos, mas o azar de não poder fazer atividades aquáticas.

O Jaime teve uma reunião de chefes às 11h, onde recebeu informações para aquilo que iria ser o Jamboree enquanto atividade. 

Ninguém queria trabalhar muito. Realmente a vontade não era muito grande. Contudo, o que é certo é que só almoçámos por volta das 13h e apenas porque o Jaime nos "obrigou" a parar de trabalhar.

Durante o almoço, o Jaime deu-nos as informações que recolhera. Foi o seguinte: tínhamos direito a um lenço e boné de atividade, que tínhamos de usar durante o seu decorrer; ia haver a cerimónia de abertura às 20h na grande arena do campo, mas tínhamos de estar prontos às 18h, à entrada do sub-campo. Em relação à atividade, era assim: cada escoteiro tinha uma pulseira azul. À medida que ia fazendo atividades, faziam furos nas pulseiras para se saber ao fim o número de atividades que fizera. Para se obter a "especialidade" do Jamboree, tinha de se fazer três atividades obrigatórias e sete facultativas. No total eram 36 atividades. Para os escoteiros não irem fazer simplesmente as atividades que lhes apetecesse e às horas que quisesse, havia um computador que determinava as atividades e horas de cada um. Além disso, se não gostássemos ou não pudéssemos realizar determinada atividade, podíamos trocar com outros escoteiros. 

Algumas vezes, "vezes sem exemplo", conseguíamos fazer atividades mesmo sem o bilhete que nos dava o direito "legal" e muitas vezes a horas diferentes. É claro que essas exceções eram evitadas ao máximo pela organização, mas com um "choradinho" lá se conseguia o que se queria. Isto, também, com exceções...

Quanto aos lenços e aos bonés havia um problema: a indicação do nosso país e demais pequenos contingentes não estava na lista - ainda. Portanto, estávamos sempre a ver quando é que nos podiam dar e persistíamos. Na reunião de chefes o Jaime resolveu o problema e ia buscar o material às 16h. Mas o Bispo e o Bruno, pela manhã foram igualmente à luta pelo material e nunca mais chegavam para almoçar. Ainda esperámos, mas a fome já era grande e o trabalho para a tarde era tanto, que começámos a comer. O almoço foi sandes de queijo e fiambre, muita fruta e, para beber, tínhamos uma bebida que parecia Isostar. 

Mesmo no fim do almoço, apareceram o Bispo e o Bruno a dizer que tinham ido ao material pedir os lenços e os bonés do Jamboree, mas nada. O Jaime atalhou, dizendo mais uma vez que já resolvera essa questão na reunião da manhã.

Durante a tarde continuámos a trabalhar no pórtico e depois no mastro para as bandeiras. Para embelezar o pórtico, resolvemos fazer uma flor de lis em corda e pintá-la por dentro, de verde. Foi o Jaime quem a fez. Ficou simples, mas muito bonita. À medida que precisávamos de material - pinceis, tinta, corda, pregos - íamos pedindo aos outros contingentes, mas concretamente aos belgas, que traziam uma data de coisas e estavam ali mesmo ao lado.

Para o mastro, fomos buscar as três altas canas (mais ou menos 10m), que cada troop tinha direito lá no sítio do material e fizemos um tripé com a ligação a meio da cana. 

Fizemos ainda uma cerca para o mastro que custou um pouco a conseguir por os lados todos iguais, mas lá conseguimos. Tivemos de fazer tudo depressa porque ia lá o Príncipe de Marrocos, e os marroquinos estavam muito entusiasmados, e insistiam que tínhamos de estar fardados quando o Príncipe chegasse.

No fim do nosso trabalho, fomo-nos fardar e deixámos os Marroquinos fazerem a cerca exterior ao campo.

Felizmente, estava tudo pronto e em formatura quando Sua Alteza chegou. Com ele, veio uma data de fotógrafos, excitados com a ocasião. O Príncipe cumprimentou toda a gente. Os escoteiros marroquinos cantaram uma canção - que tinham ensaiado ao longo do dia - e que percebemos depois ser o seu Hino Nacional. Sua Alteza parou no contingente marroquino para falar com eles. Depois juntámo-nos todos para tirar fotografias. A seguir, os escoteiros marroquinos ofereceram três bolinhos diferentes a cada pessoa presente.

No fim de toda esta cerimónia fardámo-nos como pedia a organização - com o lenço, emblema e boné do Jamboree (que entretanto chegaram).

Demorámos algum tempo a jantar e atrasámo-nos um pouco, mas não houve problema, pois quando chegámos à entrada do sub-campo, embora já lá estivessem quase todos os escoteiros, tínhamos de esperar, não sabíamos porquê - ainda. Entretanto, o Cabrita foi desenrascar um mastro para a bandeira que íamos levar para a cerimónia.

Durante a espera, os escoteiros ali presentes cantavam coisas que sabiam e aplaudiam-se uns aos outros.

Chegou o "esperado". Era o desfile de escoteiros doutros campos, precedido de um costume excursional coreano, com coreanos lindamente vestidos, muitos tambores que davam um granda som, e muita alegria de todos os escoteiros atrás. A seguir à sua passagem, perfilaram os escoteiros do nosso sub-campo, incluindo nós, claro.

Nas curvas do caminho para a grande arena e numa ponte por onde tínhamos de passar, percebemos a quantidade de escoteiros que ali estava. A meio do caminho, entre as músicas e gritos dos escoteiros belgas e ingleses - que vinham à nossa frente e atrás de nós, respetivamente - nós cantámos a "Rama". Ficaram doidos! Primeiro calaram-se para ouvir bem e no fim aplaudiram bastante.

Quando lá chegámos, já a arena estava muito cheia. Sentámo-nos na relva, como todos. Havendo ainda alguma luz do dia, pudemos ver bem a mancha vermelha - dos bonés - que formávamos. Do céu, talvez se distinguisse bem essa mancha.

Antes do espetáculo em si, no palco desenvolviam-se danças coreanas. O espetáculo começou às 20h em ponto, anunciado por um locutor. Para além do palco - que mesmo lá de trás se via bem - havia dois grandes ecrãs onde se podia ver o que se passava no palco. Cantámos todos a canção do Jamboree. Numa enchente de música, fogo de artifício como provavelmente nunca voltaríamos a assistir ao vivo, muita cor, muitas fotografias, começou a festa. Em cada escoteiro vibrava de emoção à sua maneira. A seguir o Escoteiro chefe Nacional da Coreia do Sul veio dar as boas vindas e anunciar o Jamboree que, ao contrário da maioria dos atuais discursos, não foi chato. Depois foi a chegada das bandeiras. Estávamos sempre à espera da nossa. Quando finalmente entrou, gritámos e esbracejámos muito. O resto da cerimónia foi preenchido com danças de várias escolas coreanas e, no fim, muito fogo de artifício, de todos os lados.

Quando acabou, fomos contentes para os sub-campos, gritando de alegria por este acontecimento.

Chegámos ao nosso e, antes de seguirmos para o nosso campo, fomos às "dixies" que são as WC portáteis, espalhadas pelo campo. Antes de nos irmos deitar, fomos ainda tomar um grande banhão. De seguida, quase todos nos fomos deitar; apenas o Jaime e o Zé Inácio ficaram a ver as atividades que nos tinham sido destinadas pelo computador, quando foram a uma reunião com o resto dos chefes a seguir à cerimónia.


sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Finalmente, Sorakson | Dia 7 de Agosto de 1991 - 10º dia de atividade

 Hoje foi o dia de irmos para Sorakson, e o autocarro que nos levou arrancava às 9h. Acordámos às 6h e arrumámos tudo, desmontámos as tendas, etc. Como havia muitos bichinhos "acampados" no duplo teto e no cimo da tenda, quando sacudimos, assistimos a um espetáculo. O senhor Yum indicou-nos um sítio com sol para secar a tenda, mas mais tarde os cães estiveram a brincar ali sem darmos por isso, e ficou tudo sujo na mesma.

Depois de tudo arrumado e postas as mochilas no autocarro, fomos tirar fotografias todos juntos à entrada da sede. Primeiro, o senhor Yum tirou-nos duas fotografias com a máquina dele e depois tirámos nós. Deixámos algumas recordações com o Mr. Yum.

Antes de partirmos, pusemos a bandeira no vidro de trás do autocarro. Connosco, iam só dois alemães. Éramos para ir ter com os Bolivianos, mas eles não estavam lá, e seguimos só nós.

A viagem era de 7 horas. Havia um guia que traduzia as nossas perguntas ao motorista e vice-versa. Este dia deu-nos um guião de viagem, com as várias paragens que íamos fazer e a duração de cada trajeto. NO leitor de cassetes estava a dar músicas do Jamboree. Como eram sempre as mesmas, às tantas pedimos para mudarem para Phil Collins, Water Boys, etc. Atravessámos Seul de um lado ao outro para sairmos na direção de Sorakson. Estava muito trânsito e pudemos ver alguns dos locais por onde tínhamos andado nos últimos dias.

Pouco depois surgiu uma autoestrada que, naquele dia, era só para participantes do Jamboree. Toda a estrada exclusivamente para escoteiros e organizadores deste acontecimento. Tudo quanto era polícia e militares fazia continência à nossa passagem; a população acenava.

À medida que íamos avançando, a paisagem era mais espetacular. Imaginávamos já a beleza do local do acampamento. Para que a estrada se tornasse menos difícil no meio das montanhas, havia muitos túneis e viadutos. Umas vezes mais perto, outras mais longe, podíamos ver a linha do comboio, igualmente com muitos túneis. De uma vez, vimos um comboio a sair do túnel, parecia aquele anúncio da Nestlé. As florestas eram imensas e de grandes extensões; os rios eram límpidos e víamos pessoas a tomar banho, apetecia mesmo. Pela estrada fora víamos publicidade ao Jamboree, com muitas bandeiras, paineis, sempre o símbolo da atividade, havia também séries de bandeiras nacionais dos países presentes, pelo que, cada vez que víamos a nossa, aplaudíamos.

Nas paragens, além de irmos às "embaixadas", íamos conhecendo outros escoteiros que vinham nos outros autocarros. Eram tantos, que o Cabrita comentou, "Aqui só não há não escoteiros". Numa das paragens, quase todos comprámos uns bolinhos que pareciam de chocolate, mas eram um pouco enjoativos. Mais tarde, percebemos que eram de feijão.

Durante a viagem tirámos a desforra a horas de sono perdidas nos últimos dias, a Rita treinava o seu alemão, conversando os escoteiros alemães que vinham connosco; o Cabrita tirava algumas impressões com o anfitrião do dia (o guia da viagem).

A última parte da viagem durou 40m. Seguia por uma estrada de curvas apertadas e íngremes. Às tantas, começámos a descer para o vale onde decorreu o Jamboree. Chegámos às 16h, como previsto. Parámos na receção e o Tó foi perguntar qual o sítio onde íamos ficar. Quando voltou disse-nos que era no sub-campo 4, na troop 20. Despedimo-nos do intérprete e o motorista levou-nos para a entrada do sub-campo 4.

Aquilo era mesmo grande. Era uma autêntica cidade de escoteiros. Íamos estar ali uma semana inteira e mais um dia naquele sítio lindo, com escoteiros por todo o lado, lembrando-nos dos que não puderam vir connosco.

Com o contingente português, no nosso campo estavam mais dois, e como eram contingentes pequenos, ficámos todos juntos - além de nós, Marrocos e as Ilhas Faroe, que é um arquipélago que pertencia à Dinamarca e que entretanto tornou-se independente.

Enquanto o Jaime e o Tó foram informar-se de como estaria organizado o acampamento e outras coisas, o resto do grupo ficou a montas as tendas. O Zé Inácio e o Cabrita montaram um Iglu, o Bruno e a Rita montaram o Iglu do Jaime e o Ricardo tentou montar outra tenda, mas quando as outras já estavam montadas, ele ainda ia nas primeiras estacas, pois era mais difícil de montar e depois todos ajudámos. Um dos encaixes de um prumo partiu-se, e então o Cabrita improvisou um com um pau e a ajuda de facas de mato e a lâmina do corta-unhas do Bruno, que ficou ligeiramente torta.

A seguir fomos à receção buscar o material a que tínhamos direito - a cozinha e suas componentes. Eram imensas coisas: um toldo grande, uma mesa e dois bancos compridos para 4 pessoas cada, um fogão com dois bicos, o isqueiro, a bilha de gás, duas frigideiras, um tacho, uma panela enorme, uma espátula, uma concha, um pano de cozinha, uma esponja, uma luva, um alguidar e dois jerry-cans. Fomos ver como outros estavam a montar tudo aquilo para conseguirmos montar o nosso material.

Assim que acabámos, começámos logo a fazer o jantar, que era almôndegas. Havia também manteiga, pepino, cenouras, ket-chup. Fizemos sandes. Para empurrar, tínhamos leite. 

Depois tivemos de decidir quem ia dormir onde. O Zé Inácio e o Cabrita juntos, o Ricardo e o Jaime noutro iglu, a Rita e o Bruno na tenda.

Soubemos pelo Tó que a alvorada era às 6h, todos os dias, e que tínhamos de ir buscar o pequeno-almoço até às 6.30h. Por isso, rifámos os sacrificados para o dia seguinte. Os primeiros sorteados foram o Nuno e o Cabrita. O Tó, chefe do nosso contingente, tinha de ficar a dormir com os outros chefes, noutra zona do campo.

Quando acabámos de jantar fomos lavar a loiça e deitámo-nos, a ouvir montes de gente a falar até às tantas.

A cidade olímpica de Seul | Dia 6 de Agosto de 1991 - 9º dia de atividade

 Chiça, nunca mais começa o acampamento! No dia anterior combináramos acordar Às 7.30h mas só acordámos às 8h e ainda tínhamos muito sono.

Depois do banho, comemos corn-flakes e preparámos umas lembranças de Sintra para dar na Embaixada, enquanto fazíamos o "programa das festas", do dia. Decidimos ir de manhã ao Complexo Olímpico, almoçar lá, depois ir à Embaixada e por fim fazer as últimas compras, pois seria o último dia em Seul.

Mais uma aventura de transportes para chegar ao complexo olímpico, e uma caminhada final. Passámos por uma mercearia onde comprámos o piquenique do dia. Embora com fome, ficámos entusiasmados para procurar a bandeira portuguesa entre 165 e para ver a chama olímpica.

Depois do almoço, começou a chover. Corremos para uns bancos que tinham um tejadilho. Ficámos ali quase meia hora à espera que a chuva parasse. Quando parou, fomos finalmente visitar o parque, começando por um museu, o "museu do ar". Tinha umas esculturas feitas por amadores. As obras tentavam dar um significado subjetivo ao corpo do homem e sua utilização. Pelo parque fora também havia esculturas espalhadas pelos relvados.

A certa altura avistámos um complexo de estádios e quase corremos para lá. O primeiro era o velódromo. Vimos lá alguns ciclistas de cross amadores às voltas. O segundo, onde só havia meia dúzia de pessoas nas bancadas, era o de Haltereofilia. Havia mais dois, fechados, que deviam ser de ginástica. O último que vimos foi o de natação e adorámos. Era o maior, com uma piscina de 50m e uma para os saltos. Estava muita gente a fazer natação. Havia lugares para milhares e milhares de espetadores. Mas não tínhamos todo o tempo do mundo. Tínhamos de ir à Embaixada e às compras. Demorámos a encontrar a saída do parque gigante.

Ao trocar de metro, perdemos o Bruno de vista. Como ele no outro ia a dormir, pensámos que ainda lá estivesse. Então, estávamos a programar quem iria descer na próxima estação e regressar para o ir buscar, quando ele aparece na outra carruagem.

Durante a viagem esteve sempre a chover, e lembrámo-nos da roupa que deixáramos a "secar" no campo.

Deixámos as "little souvenirs" na Embaixada, assim como as nossas moradas, e despedimo-nos. Ficaram contentes com as lembranças e mostraram-se tristes com a despedida, a Mónica até se comoveu. 

Depois fomos comprar souvenirs de Seul para levar para Lisboa, no mercado. Para chegar ao mercado, foi mais difícil. Apesar de estarmos em Seul há quase uma semana, ainda não éramos azes da orientação, mas para lá caminhávamos. Após alguma discussão, uma senhora meteu conversa connosco e ajudou-nos a encontrar o caminho certo.

Já no mercado, o Bruno, que antes de "pobre" queria comprar um relógio à prova de água, um "Rolex Polaris", tendo um fundo de maneio, quis usá-lo para comprar o relógio. Depois de muito regatear, lá conseguiu comprar um.

O Zé Inácio andou muito tempo de roda das máscaras tradicionais. Quando estava prestes a desistir por não conseguir o preço que queria [esta parte do relatório está uma confusão, não percebo].

Para variar, fomos jantar ao Hardee's. Seguimos para o campo no autocarro 158 que é o que vai sempre mais depressa, mas também mais cheio. Foi a última vez que fizemos aqueles 2km. O Zé Inácio estava aflito das virilhas e tinha de andar com as pernas ligeiramente afastadas. Felizmente conseguimos boleia de dois carros, quase seguidos.

Quando chegámos vimos um grupo enorme de pessoas a cantarem e a fazerem uma grande festa. Depressa soubemos que eram miúdos de uma colónia religiosa que também estava ali instalada.

Foi a última noite no campo de formação de escoteiros da Coreia do Sul.

Seul e os seus esplendores... e uma carteira perdida | Dia 5 de Agosto de 1991 - 8º dia de atividade

 A alvorada hoje tinha mesmo de ser às 6h. Apesar do cansaço do dia anterior, alguns já estavam bem acordados a essa hora.

Antes de sairmos, o Mr. Yum, com receio de que fôssemos à boleia, indicou-nos os números dos autocarros e o que estava escrito à frente desses números, em coreano. Saímos para a habitual caminhada às 7.50h. Em vez de pagarmos - como era costume - o autocarro, utilizámos umas fichas, equivalentes aos módulos [bilhetes que se compravam em grupos de 10 p, ex] que os CNE tinham comprado no dia anterior e que torna a viagem mais barata. Como saímos um pouco longe de City Hall, local de encontro com a conselheira Maria Júlia e com a Mónica, chegámos nove minutos atrasados.

Seguimos para o metro, guiados pela Mónica, que estava muito contente com o dia de folga da Embaixada. Pagámos 600wons - 120$ [0.6€] para irmos até à paragem de metro mais perto da agência turística que organizava as excursões para a Aldeia Folclórica.

Esta viagem de metro teve uma particularidade: não foi subterrânea, mas sim como um comboio normal. Apenas as primeiras estações foram "underground". Após uma hora e 10m de viagem, sempre de pé, numa estação estava tudo a sair e outras pessoas a entrarem. Nós, como estávamos cansados, sentámo-nos logo. Mas eis que percebemos que era a última paragem e tivemos de sair. Mesmo a tempo!

Comprámos os bilhetes de entrada na aldeia mas ainda tínhamos de esperar uma hora pelo autocarro que nos deixaria na aldeia. Aproveitámos para comprar bebidas e para trocar dinheiro e distribuí-lo.

No autocarro tivemos de ir de pé outra vez até à aldeia.

Como eram quase 13h e perto da entrada da aldeia havia uma nascente de água potável (o que é muito raro na Coreia, segundo as trabalhadoras da Embaixada), almoçámos. Ao pé desse lugar havia uma loja com souvenirs onde um artesão gravava a fogo desenhos lindíssimos em peças de madeira.

A juntar aos escoteiros mexicanos e italianos que víramos no dia anterior, neste dia vimos escoteiros de todo o lado! Especialmente canadianos que não se fartavam de oferecer crachás, que traziam às carradas nos bonés. Muitos escoteiros quiseram conhecer-nos pela originalidade da farda [ou pela sua composição em desuso] e do chapéu. Também elogiavam o nosso inglês. Considerámos muito estranho que muitos escoteiros não conhecessem o aperto de mão escotista. E então, ensinávamos.

A Aldeia Folclórica tinha as casas típicas, claro; as divisões das casas explicadas por cima de cada uma; os celeiros, os instrumentos de ceifar e moer.

Por um dos caminhos, desfilava um casamento típico, com a noiva num cubículo muito pequeno segurado por quatro homens, o noivo a cavalo e os criados vestidos a preceito com bonitas cores. Todavia, "Eles casam-se todos os dias", foi o comentário de Mónica, já habituada ao cortejo.

A seguir havia um sítio onde se podia escrever num papel por 500 wons - 100$. Então pedimos à Mónica que escrevesse os nossos nomes em Coreano. A técnica de escrita é de cima para baixo e da direita para a esquerda. Além disso, o papel é dobrado uma série de vezes, consoante o número de palavras e caracteres que se querem escrever, de modo a que não falte nem sobre espaço no papel. A princípio, a Mónica estava a tremer de vergonha, sentindo-se observada por tanta gente, mas depois para o fim já estava à vontade. 

Depois passámos por um baloiço gigante onde é hábito os coreanos andarem, e de pé. Todos quiseram experimentar. O Tó foi quem conseguiu ir mais alto, talvez por ser mais leve, e apanhou o jeito logo ao princípio. Mais à frente, havia um espetáculo numa corda bamba. O funâmbulo dava saltos espetaculares e foi muito aplaudido.

Entretanto, o Ricardo "decidiu" desaparecer e o Cabrita e o Jaime foram à procura dele. Saímos do complexo turístico e ficámos ainda um bocado à espera do autocarro. Quando entrámos, monopolizámos a parte de trás do autocarro. Estávamos tão bem instalados, que adormecemos.

Não faltando à promessa do dia anterior, fomos à Torre. Despedimo-nos da Conselheira e da Mónica no City Hall e seguimos o mesmo caminho do dia anterior. Andar de teleférico constituiu uma primeira experiência para a maior parte de nós. Depois mais uma escadaria e ali estava a Torre. À entrada, um elevador. Quando picámos os bilhetes, que também eram um postal, deram-nos um porta-chaves. Ficámos doidos quando chegámos lá acima. A Torre ficava mesmo no centro da cidade e podia ver-se tudo. Como era o fim do dia, vimos o sol por-se e as luzes da cidade a aparecerem cada vez mais depressa. Com a vista infinita que tínhamos à frente, pudemos compreender o elevado número de habitantes desta capital. Quanto mais olhávamos, mais a cidade parecia crescer para os subúrbios.

Subimos mais três andares e fomos jantar ao restaurante panorâmico, cujo chão rodava em torno do eixo da torre, por isso íamos vendo tudo enquanto comíamos. Como o restaurante era obviamente caro, não pudemos satisfazer o nosso estômago devidamente.

A seguir ao jantar, descemos. Lá em baixo havia um painel com as torres mais altas do mundo e a Rita, o Cabrita, o Zé Inácio e o Jaime ficaram a comparar torres e o Ricardo e o Bruno foram jogar "Tetris" para uma sala de jogos que lá havia. Concluímos que a Torre de Seul era a terceira mais alta do mundo e a mais alta do Oriente, só que ao nível da água do mar, pois ao nível do solo, não é das mais altas.

O Bruno às tantas bateu com a mão na testa, "não sei da carteira!" O Jaime, meio "irritado" com a situação, pois parecia que a carteira teria sido perdida na sala de jogos, mandou-o ir lá acima mais o Ricardo. Apesar da situação, o Bruno estava bem disposto.

No regresso ao metro, passámos por um supermercado onde comprámos o pequeno-almoço do dia seguinte. Já no metro, sentámo-nos como as demais pessoas, de cócoras. Apareceu um senhor que simpatizou com a nossa figura e meteu conversa connosco. Queria mandar a Rita embora e oferecer um copo aos rapazes. Ofereceu-nos uma coisa para comer, que não identificámos, e recusámos. Ele tentava comunicar connosco em coreano e nós tentávamos despedir-nos dele em português. Uma risota.

Entretanto chegaram o Ricardo e o Bruno, mas sem carteira. Pois é, o Bruno, que tinha montes de dinheiro na carteira, ficou só com o dinheiro russo, que guardara noutro sítio. Passámos a chamar-lhe "o pobre" até ao fim da atividade, mas o Jaime decidiu dar-lhe um fundo de maneio para compensar a perda da carteira.

No caminho de regresso, dormimos e na parte de caminhar para o campo, apareceu uma carrinha a oferecer boleia, e nós aceitámos.

Não tomámos banho por preguiça, só os pés, que estavam impossíveis depois de tanto caminhar. Depois metemo-nos nos sacos-cama e adormecemos outra vez que nem uns anjinhos.

Sair de Moscovo no dia do golpe de estado | 19 de Agosto de 1991 - 22º dia de actividade

 A partida do autocarro para o aeroporto era às 6h. Já havia claridade quando nos levantámos, às 4h30, hora do início do golpe de estado. Nã...