sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

Sair de Moscovo no dia do golpe de estado | 19 de Agosto de 1991 - 22º dia de actividade

 A partida do autocarro para o aeroporto era às 6h. Já havia claridade quando nos levantámos, às 4h30, hora do início do golpe de estado. Não demos por nada. E fomos para o aeroporto. Agora estávamos desejosos de chegar a Portugal e quase que nem voltávamos. Éramos os últimos da fila do check in e a funcionária que nos deu os bilhetes tinha um ar muito preocupado. Demorou muito tempo a dar-nos os bilhetes. Havia over booking e só voltámos todos no mesmo voo porque 3 passageiros tinham anulado o voo e três de nós acabámos por viajar com nomes que não eram os nossos. No mesmo voo estava uma equipa de futebol portuguesa que tinha ido fazer um curso e que também estavam desejosos de chegar a Portugal [não fixei o nome da equipa].

O avião partiu pontualmente às 8.20h. Talvez ainda fosse cedo para suspirar de alívio, mas deu mesmo vontade. Foram cinco horas intermináveis, e não sabíamos o que acontecera; simplesmente a actividade fora muito longa e estávamos cansados. Quando a hospedeira disse que estávamos a chegar a Lisboa, nem queríamos acreditar. Para pudemos confirmar pelas janelas e avistar a Costa da Caparica, reparar no avião a dar a volta e entrar em Lisboa. Batemos palmas na aterragem, não pela astúcia do piloto, na verdade, mas pela chegada.

Quando mostrámos os passaportes, disseram-nos que tinha havido um golpe de estado contra a Perestroika e que éramos uns sortudos, pois o nosso tinha sido o último voo a sair de Moscovo. Só o Bruno acreditou, pois foi a quem disseram isto, os outros achámos que era piada. Mas depois, já com os pais que nos esperavam, confirmámos. À nossa espera estava também o Bob, de farda e tudo. Devíamos parecer diferentes, pelo ar dele. Tínhamos na cabeça o boné do Jamboree e dava que pensar. Tirámos muitas fotografias e fomos andando de regresso a casa. 

Ainda em Moscovo | 18 de Agosto de 1991 - 21º dia de actividade

 Para este dia, o nosso objetivo cingia-se a ir à Torre de Moscovo, ir às compras de lembranças e comer. O (sempre) desgraçado do Bruno não pôde ir connosco r ficou o dia de cama a ver televisão russa.

Começámos por ir tomar o pequeno-almoço ao restaurante do hotel. Depois fomos em direção à Torre. Víamo-la, mas não conseguíamos chegar lá. Fomos andando, andando, e fomos dar a um parque. Pagámos não sei quantos centavos de rublo para entrarmos e perguntávamo-nos se seriam aqueles edifícios imitações ou originais. E eram imitações. O parque era uma espécie de "Rússia dos Pequenitos". Ao lado deste, havia outro parque com um lago e alguns carroceis. Queríamos ir para lá, mas tínhamos de dar uma grande volta e resolvermos passar por um buraco na rede. 

Acabada a visita aos parques, continuámos na direção da Torre. Perto dela, já se podiam ver bem os vidros partidos, tudo cinzento e cheio de pó. Pensámos que de certeza estaria fechada ao público. Contudo, qual não foi a nossa surpresa quando percebemos que estava aberta! [não percebo se visitámos, não escrevi sobre isso]

Fomos à procura da Pizza Hut. Ainda era longe. Entretanto começa a chover. Não estávamos à espera disto. Chegados à Pizza Hut, havia fila, aliás, duas filas. Uma para quem pagasse em dólares - curtíssima - e outra para quem pagasse em rublos - longa. Estivemos 2h15 na fila. Comemos quase às 16h, mas valeu a pena. Por 125 escudos comemos um disparate de comida. A pizza familiar era 75 escudos (nem 0.40€), os jarros de Pepsi a 15 escudos, etc. Como se pedia à mesa, a comunicação foi difícil, mas salvámo-nos com um inglês que lá estava.

Ao que nos restava da tarde fomos para o mercado. Era para gastar os rublos.

Esperávamos jantar no hotel, mas quando chegámos, o restaurante estava fechado. Deitámo-nos às 22h, com alguns roncos no estômago.

De novo em Moscovo, da Praça Vermelha ao mercado de rua | 17 de Agosto de 1991 - 20º dia de actividade

 Como combináramos, estávamos prontos às 10h. Desta vez, desfardados, já prevenidos para podermos entrar em todos os sítios que quiséssemos visitar sem que pusessem objeções.

Pode dizer-se que o Zé Inácio e o Cabrita estavam ligeiramente mais prontos do que os outros, porque, como acordaram bastante antes do que esperavam, aproveitaram para ir comer. Daí que, enquanto os "cheios" gozavam com os outros, estes ansiavam pela chegada ao MacDonald's. Mas antes de nos dirigirmos lá, fomos ao Hotel Kocmoc, que se lê Cosmos, trocar dinheiro.

O Bruno estava cheio de dores de cabeça. Agora rico - porque tinha guardado os rublos noutro sítio que não a carteira que perdeu em Seul - surgia-lhe outro problema. As dores de cabeça deviam-se certamente à febre, o rapaz fervia. O Cabrita insistiu que o melhor era "sopas e descanso" mas como não devia ser muito provável ele conseguir sopa por ali, e como descanso só ao fim do dia, ficou-se por uma aspirina que o Tó tinha trazido e pela comida do MacDonald's que, em parte, faziam esquecer as mudanças de temperatura.

O Hotel Kocmoc, que deve ser o grande hotel de Moscovo, apesar da aparente excelência da arquitetura, não falando dos preços, que devem exceder os 150 Dollars a diária, soubemos que o papel higiénico não era melhor do que o do nosso hotel. Por isso, viva o papel higiénico áspero português que, ao pé daquele, pelos vistos único na Rússia, era o rei da suavidade. Depois de trocarmos dinheiro, saímos em direção aos palácios subterrâneos, o metro. Lá fizemos o "sacrifício" de pagar 0.75 Rublos para podermos entrar. Mais uma vez, descemos as enormes escadas rolantes da estação, reparando nas caras aparentemente passivas dos russos. Fizemos a viagem de metro até à estação mais perto do MacDonald's maior do mundo. Desta vez a fila para a entrada estava mais pequena e demorámos menos de 20 minutos para entrarmos. Comemos, comemos e comemos até ficarmos com o estômago bem cheinho de trabalho até à hora do jantar.

O destino da tarde foi o Kremlin e a Praça Vermelha. Havia centenas de pessoas a olharem para o túmulo de Lenine e, provavelmente, à espera para entrar. Quando foi o render da guarda, havia atropelamento de gente para ver aquilo que se podia confundir com bonecos de corda, só que em tamanho humano e sem corda nas costas.

A bandeira vermelha lá estava erguida, mal sabíamos nós que pelas últimas vezes. Vimos também muitas estátuas inteiras. 

O fim da tarde passámo-lo no mercado de Moscovo que é uma rua em pedra, só para peões e carros de venda, que atravessa algumas vias automóveis (como a Rua Augusta). O comprimento do mercado deverá exceder os 2km. Mais ou menos a meio, havia um grupo de russos a cantar e a dançar. O que diziam, imaginámos que fosse escárnio em relação à política. Havia um refrão e os cantos pareciam improvisados. Não sabíamos porquê, mas também ríamos com os demais espetadores. No mercado denotavam-se bem os traços culturais.

Os brasileiro que esteve connosco da outra vez que passámos por Moscovo, tinha-nos dito que havia um restaurante espanhol onde se comia muito bem e onde não se pagava muito. Afinal, dava-nos jeito, depois de andarmos constantamente a comer hamburgers. Mas afinal não era bem assim. Esperámos bastante tempo para percebermos como funcionava o restaurante e não compensou de forma alguma. Cansados, o Bruno com febre, fomos outra vez para o MacDonald's. Estavam quase a fechar, mas ainda entrámos. Também era o que faltava! Depois de comer, fomos para o hotel, para tomar banho frio e dormir.

O início da viagem de regresso | 16 de Agosto de 1991 - 19º dia de actividade

 A viagem de autocarro teve duas paragens. Até à primeira, que ocorreu por volta das 2h, fomos todos a dormir. Alguns embalados pela música nos ouvidos e os outros embalados pela constante conversa entre o motorista e o guia. Mais uma vez, a estrada parecia ser só nossa. O autocarro seguia pelas duas faixas de rodagem, ora na sua, ora fora dela, sempre atrás de um carro de polícia. Depois da primeira paragem, alguns de nós seguimos nos lugares da frente para ver melhor a estrada. O autocarro ia por vezes a mais de 100 à hora e não era nenhum disparate apertarmos os cintos disponíveis (uma novidade naquela altura).

A terceira etapa da viagem levou uma hora até Seul e mais 45 minutos para o aeroporto. Nesta parte dormimos bastante, mas quando chegámos a Seus íamos mais acordados. Eram 5h e picos e já havia luz do dia, mas bastante neblina. Estranhámos haver muitas pessoas a "piquenicar" àquela hora.

Quando chegámos ao aeroporto, tirámos as mochilas e fomos lá para dentro, abancar nos primeiros bancos que nos apareceram à frente, para dormir ou, pelo menos, instalarmo-nos. Dir-se-ia que o aeroporto estava "fechado". As luzes estavam apagadas e o ar condicionado desligado.

O voo era só às 14h40 e como chegámos ao aeroporto ainda não eram 6h, tivemos de esperar - e muito. Durante a espera, além de dormir, tomámos o pequeno-almoço, trocámos dinheiro e falámos com os escoteiros brasileiros, que tinham vindo na mesma "leva" de autocarros que nós. Mas eles tinham de esperar até às 17h! Por volta das 9h chegaram mais autocarros e entre os escoteiros que vinham neles, vinham os nossos inseparáveis FaroeIslandeses, com quem já tínhamos estabelecido amizade. Assim passámos a manhã, num "palavra puxa palavra", num puxar também de caneta e papel para escrever moradas e deixar saudades.

Duas horas antes do voo, tínhamos de começar o "check in" às mochilas. Então, lá fomos, pelas 11.45h, para a fila, que não estava muito grande. As mochilas lá foram e deram-nos os bilhetes. Subimos para o piso de cima, onde esperaríamos pela nossa chamada para a revista aos passaportes e posterior entrada no avião. Seguiram-nos os FaroeIslandeses a alguns Brasileiros para se despedirem. No ecrã eletrónico apareceu "Lisbon" e o número do voo (com escala em Moscovo) e lá fomos nós, deixando alguma emoção para trás.

A fila para os passaportes era muito maior do que a anterior e mais demorada. De qualquer maneira, pudemos rever a eficiência com que os funcionários trabalhavam, uma disciplina talvez cultural. Seguidamente fomos para a sala onde esperaríamos pelo avião. Entretanto, chegaram os escoteiros mexicanos, que iam connosco no voo para Moscovo.

O voo era às 14.40h e o avião só apareceu às 14.35h. Dirigimo-nos à manga de acesso onde nos picaram os bilhetes e entrámos no avião. Até que todos se sentassem e o avião chegasse à pista demorámos quase uma hora. O resultado deste atraso foi que apenas descolássemos pelas 15.30h, hora de Seul. E foi o adeus à Coreia do Sul. Good bye, land of the morning calm.

Agora, ainda em território coreano mas já num avião russo, cheirava a Aeroflot e a Moscovo, um cheiro que nos ficou na memória, desde a última vez. Ao contrário do que esperávamos - e ambicionávamos também - não nos deram almoço. Só às 19h da Coreia é que comemos. Percebemos então que as refeições eram conforme o horário russo - é que eram 13h em Moscovo. O almoço foi parecido com as outras refeições de avião: a parte fria eram duas fatiazinhas de salmão fumado, uma folha de alface, um pouco de tomate, uma azeitona e um pouco de limão. A comida quente foi peixe e arroz. De resto, não diferiu muito, apenas que desta vez não havia palito e o pão foi a dobrar. Depois do almoço cantámos um bocado (deve ter sido efeito do café). Entretanto, havia uma mexicana que estava apaixonada pelo Ricardo e estava sempre a olhar para ele. 

Depois de cantarmos, dormimos até ao jantar. O jantar só diferiu do almoço pela comida quente, que foi carne, massa e ervilhas. A seguir ao jantar, a rapariga mexicana que fazia olhinhos ao Ricardo escreveu-lhe num guardanapo "I love you very much Ricardo" e mandou uma amiga dela entregar-lhe. Ele já suspeitava, mas não lhe deu troco. Continuámos a viagem, dormindo e cantando. Chegámos a Mockba às 21h15. Para evitar a confusão do costume, decidimos esperar que toda a gente saísse, e saímos no fim.

Tal como da outra vez, tivemos de preencher uma declaração dos nossos bens. De seguida, fomos buscar as mochilas ao tapete rolante. O tapete parou três vezes e as nossas mochilas nunca mais chegavam. Já pensávamos que as tínhamos perdido, o que soubemos que era bastante comum naquele aeroporto.

Depois de finalmente chegarem as nossas "mimis", fomos confirmar se o autocarro nos vinha buscar, mesmo com atraso. No mesmo local, entregaram-nos um envelope que nos vinha dirigido e redigido pelo Embaixador de Portugal na Rússia. O seu bilhete dava-nos as boas vindas e a esperança de que tudo corresse bem, com o seu número de telefone se fosse preciso.

Fomos então para o autocarro já que nos esperava. Rapidamente, colocámos as mochilas na bagageira e instalámo-nos para a viagem até ao hotel. Desta vez, pelo caminho fora, havia muito menos polícia do que da outra vez. Também não é todos os dias que lá vai o secretário geral dos Estados Unidos.

O autocarro parou à frente do hotel, que era o mesmo da outra vez. A rececionista fez o seu trabalho e deu-nos os cartões com os números dos quartos. Ficámos no 4º andar, tal como da outra vez, mas desta vez mais perto uns dos outros. Mais tarde soubemos que tinha havido um problema ali uma semana antes e que só haveria água quente dali a 5 dias. Como íamos ficar 3 noites, ficámos sem água quente.

Antes de nos separarmos para os diferentes quartos, combinámos estar prontos para sair às 10h do dia seguinte. E não tomaríamos o pequeno-almoço porque estávamos com muito sono, combinando comer só depois de sair.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

Arrumar e festejar | Dia 15 de Agosto - 18º dia de atividade

 Era inacreditável. Como - infelizmente - o tempo passara tão depressa. Por mais bem que cada um de nós tivesse aproveitado cada momento da atividade, sentíamos que tinha passado tudo muito depressa e agora... estava a chegar ao fim. Este dia amanheceu ainda com mais Sol e com o calor a aumentar minuto após minuto. Mas, mesmo com o calor e com o Sol, a falta de horas de sono já pesavam e, a muito custo, lá nos levantámos, sendo o Jaime e o Ricardo os mais madrugadores do dia.

Pelo atraso que o sono e a moleza no banho trouxeram, só começámos a tomar o pequeno-almoço às 7.50h. Desta vez, ainda mais comida do que o costume. Em vez de ovos, veio macarrão, ficámos logo cheios. E mesmo assim, sobrou, porque gostamos de variedade e quisemos comer os corn-flakes, a fruta e os croissants. 

Às 8.30h, foi o hastear das bandeiras e respetivos hinos. Desta vez, os outros dois contingentes, que nem sempre se apresentavam fardados, estavam bem fardadinhos. Como nós, claro.

Entretanto chegou o Tó. Depois da cerimónia, fomos tirar fotografias em frente ao mastro, os três contingentes juntos. O Tó foi quem tirou todas as fotografias e estava com mais de 15 máquinas ao pescoço, braços e mãos. Para facilitar as manobras fotográficas, pousou-as todas num saco-cama e foi tirando as fotografias conforme as preferências dos donos das máquinas.

A seguir fomos para o pórtico do sub-campo tirar mais fotografias. Todos juntos, de contingentes separados, AEPs, CNEs, e todos juntos outra vez.

Depois voltámos ao nosso campo e começámos a arrumar as mochilas. O Jaime, entretanto, foi saber quando é que se recebiam as especialidades do Jamboree. O Cabrita e o Zé Inácio foram dar uma volta. O Jaime, a Rita, o Ricardo e o Bruno ficaram a preparar as lembranças de Sintra para os vários países de todo o sub-campo. Depois da preparação, a distribuição. E assim completámos a manhã.

O almoço foi hamburgers.

Depois de comermos, continuámos nas arrumações. Às 18h tínhamos de ter tudo pronto e havia ainda bastante que fazer. Depois de ter as nossas mochilas mais ou menos arrumadas, desmontámos e arrumámos as tendas, e desmontámos a cozinha. Desmontámos também as cercas do campo e do mastro. Entretanto, a Rita e o Bruno foram despedir-se do Antoine. Quando se levaram os troncos das construções desmanchadas para o pórtico do sub-campo, o Jaime foi buscar os distintivos para o Ricardo, a Rita e o Bruno. 

Depois de tudo feito, fomos tomar banho e arrumar as últimas coisas nas mochilas.

Às 18h em ponto veio a camioneta que nos ia levar as bagagens. As nossas mochilas iam para a tenda do Brasil - ao pé da grande arena - onde depois da cerimónia de encerramento as iríamos buscar.

Despedimo-nos dos nossos companheiros do "troop", trocando moradas, telefones, abraços e beijinhos e fomos para a entrada do sub-campo. Lá, tínhamos de dar o testemunho da nossa saída ao organizador. De seguida, despedimo-nos do Chefe de Sub-campo e partimos. 

A cerimónia de encerramento só começava às 20h, e tínhamos tempo. Portanto, cada um foi despedir-se dos seus amigos e combinámos encontrar-nos na tenda do Brasil às 19.15h. Quando lá estávamos todos, fomos comer ao Restaurante Wendy's que havia lá. O pobre do Bruno (que perdera a carteira na torre de Seul e que tinha agora pouco dinheiro, deixou cair parte da comida quando se dirigia para a mesa com o tabuleiro recheado de hamburgers, batata-frita e coca-cola. Mas acabou por comer decentemente, graças à "piedade" dos outros.

Assim que acabámos de jantar, fomos de imediato e bem depressa para a arena. Chegámos lá, já estava cheia, mas como nós éramos poucos, pusemo-nos lá para o meio sem problemas.

No princípio da cerimónia, houve exibição de alguns países, entre eles, a China, que apresentou a dança do Dragão; o Zimbabwe e o México também apresentaram danças.

Havia um pequeno problema com o som e a imagem dos écrãs de lado do palco, que se resolveu a meio da cerimónia, mais ou menos.

De seguida, fez-se uma contagem decrescente, simbolizando o princípio do fim do Jamboree. Com o ZERO, foi lançado muito fogo de artifício e contou-se a música do Jamboree, acompanhada de aplausos. Posteriormente deu-se a entrada de todas as bandeiras. Para nossa felicidade, a Portugesa estava na fila da frente, bem no meio, ao pé da bandeira coreana. À frente das bandeiras desenvolviam-se danças coreanas de várias escolas do país.

A seguir fez-se silêncio. Falou o chefe dos escoteiros coreano e o Rei da Suécia, que participou no Jamboree. Depois dos discursos, fez-se a entrega da chama do Jamboree aos Holandeses. Atrás dos escoteiros que fizeram a entrega/recepção da chama, estava uma fila de escoteiros holandeses que suportavam um cartão com uma letra. Todos juntos formavam a expressão: "Welcome Holland".

O encerramento continuou. As bandeiras saíram por um corredor que seguia pelo centro do público formado pelos escoteiros ingleses. Surgiram cinco enormes balões  - cada um com várias bandeiras pintadas - simbolizando os cinco continentes, que foram levados até ao palco, onde se encontrava um sexto balão com mais ou menos 3 metros de altura, simbolizando o planeta Terra. Um dos "continentes" não conseguiu chegar ao palco porque furou-se a meio do caminho. De qualquer maneira, já no palco, os outros "continentes" foram presos à Terra e lançados ao ar. Depois do lançamento, houve muito fogo de artifício. Fogo de artifício, assim, provavelmente nunca mais iríamos ver. Foi um autêntico espetáculo de luz. Segundo o Bruno, "punham os Jogos Olímpicos a um canto", daí que se pode imaginar a singularidade da situação.

Quando percebemos que a festa tinha acabado, cada país agitava a sua bandeira o melhor possível. Nós fizemos uma pirâmide humana com o Bruno e a Rita em cima a segurarem a bandeira. Mas, como todas as pirâmides humanas acabam por cair, nós não fugimos à regra e caímos também. 

Entretanto, chegaram os nossos colegas Faroe Islandeses e depois chegou o nosso amigo belga, que quis segurar na bandeira, e o francês, que vinha despedir-se de nós. Mas depois vieram todos para o palco. Havia muita música do conhecimento geral de todos. O Jaime e o Bruno, que estiveram às cavalitas do Cabrita, aleijaram-se um tanto ou quanto com os saltos que este dava. Estavam ali escoteiros alemães, coreanos, etc. As despedidas eram sucessivas e pareciam não acabar. A festa era de alegria e ficava a promessa do reencontro na Holanda - nem que fosse em espírito, caso as possibilidades económicas escasseassem. 

De repente, vinda não se sabe bem de onde, surgiu uma enorme cana, que era passada de escoteiros para escoteiros. Pegámos nela e prendemo-la ao nosso mastro de forma a ficar a bandeira mais alta. De seguida, o Bruno subiu ao mastro. A "população" parava para ver e ele ia subindo, subindo, até que caiu, segurando o mastro. Graças ao facto de estarmos todos a ver, só um escoteiro menos atento sentido a cana na cara, mas felizmente não fez nenhum ferimento grave, só de raspão.

Entretanto, a música parou, as pessoas foram-se despedindo e saindo da arena aos poucos. Depois, fomos para a tenda do Brasil esperar pelo autocarro que nos ia levar ao aeroporto. A Rita, que desaparecera, apareceu e depois ainda se foi despedir dos escoteiros de Faroe Island e desapareceu outra vez. 

À meia-noite, o autocarro surgiu, mas o mesmo não aconteceu com a Rita. Ainda que estivesse ao lado de uma das tendas ao pé da do Brasil, não viu o grupo passar para o autocarro. Às 00.20h, o Zé Inácio lá a encontrou e foram todos para o autocarro. Aquando da espera pela Rita, o motorista irritou.se "um bocadinho". Assim, o autocarro só partiu às 00.30h. A hora prevista para chegarmos ao aeroporto era às 6h.

Challenge Valley - second round | Dia 14 de Agosto - 17º dia de atividade

 ...E parecia que o clima queria manter-se bom. Com alguma humidade durante a noite, acordámos de novo com um grande sol e as nuvens a escassearem nas montanhas.

E as seis horas como hora de alvorada tinham mesmo vindo para ficar até ao fim. E o "tem de ser" hoje foi para o Zé Inácio e para a Rita.

Depois do banho, o pequeno-almoço, desta vez sem panquecas, mas com croissants. A seguir, como sempre, hasteámos a bandeira.

Para o almoço, as típicas sandes de fiambre e queijo, com muito pepino, tomate, cenoura, Ketchup, maionaise e mostarda, acompanhado de coca-cola. Mas a Rita, o Bruno e o Ricardo, que tinham sido convidados para um almoço por um francês, no mesmo sub-campo a que pertencíamos, o Antoine. E lá foram. Não puderam ficar muito tempo porque tinham combinado às 14h, todos juntos. Mas depois de alguma conversa, deram-lhes porta-chaves e autocolantes. Nós prometemos voltar para dar lembranças de Sintra.

Já todos juntos, fomos todos para o Challenge Valley. O Zé Inácio foi, mas não fez, para poder tirar fotografias durante o trajeto da equipa portuguesa. Como não estávamos na expetativa do que iria ser a atividade pois já a fizéramos, tirando o Bruno, para quem foi a primeira vez, ultrapassámos os obstáculos com mais facilidade. Depois do duche no fim desta atividade, o Bruno ainda foi fazer balão! E o Zé Inácio?

O jantar, mais uma vez, foi com toda a "troop", feito na mesma cozinha que no dia anterior. Hoje tínhamos para o jantar salada de frutas, que incluía, além da frua, alface e iogurte de morango, carne guisada e jardineira. Os marroquinos ofereceram a todos frutos do mar, pequenas gambas e bolos típicos de Marrocos. Com o jantar já feito, fomos arrear as bandeiras. Ficámos indignados com a falta de respeito da parte dos escoteiros de Faroe Island, pois enquanto arreávamos a bandeira e cantávamos o Hino, permaneceram sentados à mesa e a comer. Só a escoteira que arriou a bandeira é que lá estava. Além disso, a distribuição da comida acabou por ser desproporcional, pois eles tiraram à vontade, e sobrou menos para nós e para os marroquinos. Mas pronto, tudo bem. Também não íamos discutir no último dia do Jamboree.

A seguir ao jantar, juntaram-se a nós alguns escoteiros de outros contingentes e foi feita uma pequena festa marroquina. Cantámos, bebemos sumo de laranja e comemos mais bolos marroquinos. O Jaime, o Zé e o Cabrita foram dar uma volta aos sub-campos. Deitámo-nos todos por volta das 23h.   

O sol veio para ficar | Dia 13 de Agosto - 16º dia de atividade

Mais uma vez, e felizmente, o dia amanhecera com sol. Apesar disso, custava a sair do saco-cama àquela hora. Desta vez, foram o Bruno e o Bispo a levantarem-se às 6h.

O pequeno-almoço vinha reforçado, tinha de se fazer uns bolos. Graças aos dotes artísticos e experiência do Bispo, o bolo ficou ótimo. E enchia... Eram uma espécie de panquecas, mas muito grande, muito grossa e ligeiramente doce. Pusemos manteiga por cima e pronto. Deve dizer-se que a primeira e a segunda ainda estavam na fase de experimentação, daí que se queimavam ou partiam um bocadinho, mas a terceira estava maravilhosa. Para além destas panquecas gigantes, havia o costume do pequeno-almoço. Depois de muito bem pequeno-almoçados, seguimos para as nossas atividades.

O Bruno foi para o Global Development Village. O Jaime, o Cabrita e o Zé Inácio foram para o mergulho. Nesta atividade os escoteiros eram agrupados conforme o nível Faziam equipas de duas pessoas e seguiam os estádios a, b e c no solo e no mar antes do início da atividade. A Rita e o Ricardo foram para a natação. Os chefes de serviço separaram os escoteiros das escoteiras para se vestirem nos respetivos balneários. Depois, exercícios de aquecimento. A atividade consistia em banhos. Havia uma corda a limitar a zona de banhos. O Ricardo e a Rita ficaram em parte desiludidos porque o nome da atividade não coincidia com o que era. Ninguém lhes pediu para nadar ou ensinou ou falou sequer em natação. Podia fazer-se o que se quisesse. Aproveitaram para mostrar dotes debaixo de água, como pinos e cambalhotas. Deu para reparar na nitidez e clareza da água. Mesmo quase sem pé, via-se os dedos dos pés na maior das perfeições. 

No fim quase todos voltaram ao campo para almoçar. E a fome já era grande. Devorámos os hamburgers que tínhamos para o almoço em poucos minutos.

À tarde, a Rita ia ao Global Development Village mas já ia atrasada. Como nesta atividade tinham de entrar todos ao mesmo tempo para fazerem as mesmas coisas, o chefe que estava lá não a deixou entrar. Aconselhou-a a ir a uma exposição que havia ali perto sobre a Coreia do Sul e lá foi. Era uma exposição cujo principal assunto era o desenvolvimento industrial da Coreia e maneiras como se tem desenvolvido. O "produto" do assunto era uma exposição que vai haver em 1993. Havia um televisor onde deu um filme de 30 minutos mostrando as principais indústrias e o rápido desenvolvimento que a Coreia do Sul tem vindo a conseguir. No fundo, a exposição que se realiza daqui a 2 anos é mais um meio publicitário, como os Jogos Olímpicos e o Jamboree, para o país, que tem ambições para o futuro e acredita muito no mercado interno.

Enquanto isso, o Bruno voltou a fazer a atividade de Alpinismo.

Ao fim da tarde, a Rita e o Bruno foram fazer as atividades de sub-campo, que consistiam em ir aos sub-campos e pedir o carimbo de lá para por no passaporte do Jamboree. Para isso, no primeiro sub-campo onde foram tinham de nomear os 20 países diferentes presentes em cada sub-campo. Responderam ao mesmo tempo, o que facilitou bastante. Depois do carimbo, foram visitar a Maria Amélia. Lá, funcionava um pequeno centro de estética. Então, prepararam as cabeças com carradas de gel, ficando com um penteado "fun". Os dotes de cabeleireiro dum francês que lá estava puseram o cabelo da Rita exageradamente volumoso e "algo" despenteado, e ao Bruno despentearam-no na nuca e fez uma grande poupa, com os cabelos da frente. No fim, a Maria Amélia convidou-nos para a festa dos franceses que iria haver à noite na arena pequena ao pé do nosso sub-campo. Naquele estado, mas com direito a uma bisnaga de gel e outras lembranças do contingente francês, seguiram caminho. Noutro sub-campo tinham de ver uma exposição sobre uma ilha da Coreia e responder a duas perguntas sobre ela. Noutro, carimbaram sem pedir nada. 

À hora de jantar, estávamos todos. Mas desta vez o jantar foi diferente. Era jantar para os 3 contingentes: Ilhas Faroe, Portugal e Marrocos. Fez-se o jantar na cozinha dos "dinamarqueses", que eram quem tinha a cozinha maior. Assim, o jantar foi maçarocas de milho assado nas brasas; muita salada; bifanas e arroz branco.

Depois do jantar, a Rita foi para a festa da França e os rapazes foram a uma festa holandesa. Regressámos todos ao campo por volta das 22.30h, para dormirmos.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

Challenge Valley, a melhor atividade do Jamboree | Dia 12 de Agosto - 15º dia de atividade

 Hoje, finalmente, o tempo começou a melhorar. Já não chovia e prometia ser um dia bem quente. Os primeiros a verem as montanhas que rodeavam o vale sem nuvens foram o Cabrita e o Nuno, que foram buscar a comida do dia.

Sem chuva, o pequeno-almoço sabia melhor ainda. Hoje havia croissants! Além disso, os cozinheiros mudaram o método de fazer os ovos. Em vez de ovos mexidos simples, fizeram com fiambre cortado aos bocadinhos. A seguir ao pequeno-almoço fardámo-nos para a já habitual cerimónia do hastear da bandeira. Depois deta, partimos para as atividades. Nesta manhã fomos quase todos para o mesmo, o Challenge Valley, só o Bruno foi fazer silkscreening outra vez. O Challenge Valley era um pouco longe e quando lá chegámos ainda tivemos de esperar.

A pista era composta por 18 obstáculos: 

1. subir uma rede de cordas com uns 3 metros; lá em cima passar por uns troncos afastados entre si 30 a 40 cm, e a descida fazia-se por uma escada de corda;

2. andar sobre um grosso tronco redondo que rolava. Se caíssemos, ficávamos todos molhados;

3. idêntico ao anterior, mas com o tronco preso (aqui a Rita malhou, e ficou com um alto na perna tipo para sempre). Ainda fazendo parte do mesmo obstáculo, havia vários troncos presos ao chão, na vertical, uns mais altos do que outros, e tínhamos de andar sobre eles;

4. Trepar a um cabo e lá em cima tocar um sino;

5. Passar várias barreiras que começavam com a altura de 3 troncos e acabavam com a altura de dois metros, mais ou menos;

6. Subir a um cano com mais ou menos 70 cm de diâmetro com a ajuda de uma corda. Para descer, havia uma parede quase perpendicular ao chão, para descer tipo rapel;

7. Escorrega de água (com fila, claro). Não era muito grande mas tinha duas descidas rápidas;

8. Subir por uma escada de metal e a descida era através de uns pneus, acabando na água enlameada, e cair bem dentro de água - enlameada, como toda a água do percurso;

9.  uma rede de cordas na horizontal ao nível quase do chão e tínhamos de passá-la por baixo, sendo que por baixo da rede era água, claro;

10. atravessar um tanquezinho de água com uma corda, tipo Tarzan, por isso a maior parte de nós foi parar ao charco, uma vez que não dominávamos a técnica do Tarzan;

11. Outro escorrega, mas desta vez feito com troncos e uma capa de borracha a proteger - era bastante inclinado. Soube mesmo bem, depois de atingir uma boa velocidade, cair outra vez dentro de água;

12. Atravessar quase 40 metros de tubo de cimento, com água pelo meio, cuja corrente ia aumentando de velocidade. Além de água, havia bocadinhos de esponja espalhados pelo tubo;

13. Dois "V" de troncos, sendo que o segundo "V" era maior do que o primeiro. Depois deste W, uma descida com água no fim;

14. Atravessar um rio por uma ponte de duas cordas, tipo ponte himalaya;

15. Atravessar um caminho de pneus pendurados por cordas, que balanceavam e tornavam mais difícil o percurso;

16. Uma sequência de 8 troncos que tínhamos de alternar, passando por cima de um e por baixo de outro;

17. Uns tubos, alternadamente de cimento e de rede, mas sempre na mesma sequência. A travessia tinha cerca de 50 m ou mais;

18. Uma ponte himalaya que tinha duas partes - a segunda era a subir.

Para chegar ao fim do percurso tínhamos ainda de subir um autêntico lamaçal.

Para melhor "identificação" dos obstáculos, ver as fotografias. Pormenor, o Bruno despachou-se e foi ter connosco.

No fim, havia uns duches para tirar a camada maior de lama, de terra e sujidade. Depois desta aventura fomos até ao rio tomar uma boa banhoca e aproveitar a corrente que seguia pelas pedras abaixo para fazer hidromassagem. Só depois destes momentos mais descontraídos é que fomos tomar banho e almoçar. O almoço foi cachorros quentes e estavam bastante bons.

À tarde, o Bruno partiu para o Rock Climbing. A atividade era composta de 6 etapas que eram ultrapassadas pelos escoteiros conforme as suas capacidades. Antes das provas eram dadas instruções sobre a subida e a descida.

O Cabrita, o Jaime e o Zé Inácio foram tentar, mais uma vez, fazer ultra-leves. Mas depois de uma longa espera na bicha, não conseguiram ir todos, porque só havia um bilhete. Só o Jaime compensou o tempo de espera.

A seguir às atividades e às não atividades, voltámos para o campo. À noite ia haver uma festa de sub-campo onde podíamos participar, fazendo algum "número". Por isso, depois do jantar e do arrear da bandeira, ensaiámos uma pequena dança que os CNEs nos ensinaram. Além disso, ensaiámos o "Rama Ó que linda Rama". Partimos para o espetáculo que era mesmo ali ao pé numa pequena arena. Os outros países que começaram a representar, tinham coisas muito bem ensaiadas, pareciam estar preparados há meses e meses, com lindos fatos, lindas canções, tudo afinadinho. Nós acabámos por não representar o nosso número perante o espetáculo dos demais. Enfim, lá ficámos a ver a exibição dos outros. A dança mais apreciada foi a dança ritmada do grupo Hawaiano. Entretanto apercebemo-nos de um equívoco. Metade da festa estava a realizar-se à entrada do nosso sub-campo. É que só à última hora é que os chefes deram autorização para realizar a festa na arena. Então, metade da festa estava de um lado e a outra metade, noutro. Por isso vimos um bocado em cada lado.

segunda-feira, 6 de junho de 2022

Dia 11 de Agosto de 1991 - 14º dia de atividade

 A chuva continuava e estávamos cheios de sono. Os alarmes dos relógios tocaram pontualmente às 6h, mas, exceptuando o Jaime e o Ricardo, que estavam de serviço, os outros só nos levantámos quase às 7h. Para "meter ordem ao pessoal", o Jaime, seguindo a lista dos sacrificados dia-a-dia, decidiu que ficavam também a fazer as refeições, tem de ter o pequeno almoço pronto às 7.30h, o almoço ao meio-dia e o jantar às 18h. Assim, as coisas ficavam mais disciplinadas.

Ainda que mal dormidos e bem ensonados, fomos para um duche rápido para estarmos prontos para a primeira refeição - sempre de tamanho XL - às 7.30h.

Hoje, o Bruno de manhã foi para o motocross e o Ricardo foi, mais uma vez, acompanhá-lo.

O Cabrita, o Zé e o Jaime, foram fazer balão, o que conseguiram depois de esperarem uma hora e tal. Voaram entre 8 a 10 minutos num balão, recebendo instruções antes da atividade. A altitude atingida não era grande, mas mesmo assim implicou grande coragem, especialmente por parte do Zé Inácio, que tem algumas vertigens. 

A Rita foi para o artesanato e fez um leque.

O almoço, desta vez, foi tipicamente coreano. Arroz com alguns ingredientes que não distinguimos bem que, como toda a comida tradicional coreana tem carradas de picante, mas enfim.

À tarde, a Rita e o Bruno, mais o Nuno, foram fazer uma atividade aquática - speed boating. Foram de camioneta até ao cais. Depois de esperarem por licença para entrarem no barco. Uns atrás dos outros, os barcos partiram. Nas primeiras milhas, já se pensava que o barco continuaria na fraca velocidade e que seguia e que o nome da atividade... era só nome. Mas a certa altura, começou a andar mesmo depressa. Como estava calor e estávamos cansados, às tantas já dormíamos. A velocidade, por muita que fosse, já não dava  entusiasmo devido à monotonia da viagem, e adormecemos. Se não tivéssemos sono, o entusiasmo poderia ter fundamento. Afinal, estar ali era um momento único. A "navegar" no mar do Japão e a perceber o silêncio da história que aquele mar guarda da guerra e tudo o que ali se passara...

Depois os barcos deram meia volta e regressaram ao cais. A viagem de autocarro foi igualmente na sorna, aliás, não éramos só nós, quase todos dormiam no autocarro.

Uma das atividades obrigatórias do Jamboree era o "Global Development Village". Lá, havia quarente e cinco postos diferentes e cada equipa de cerca de 15 escoteiros tinha de percorrer cinco pontos.

As atividades baseavam-se em educação. Um dos seus principais objetivos era perceber as dificuldades que as pessoas com deficiência encontravam na vida, havendo para isso atividades específicas. Além disso, previa-se uma educação à cerca dos perigos que o Planeta Terra vive; adolescência e educação sexual; prevenção de doenças a que atualmente somos sujeitos, etc.

A Rita e o Bruno foram até lá, mesmo sem bilhete. Mas como não tinham outras atividades para a tarde, foram tentar. Podendo ou não, as sessões já tinham acabado. De qualquer maneira, entraram para ver como era. Foram a um café que era o café francês, e estava lá a Maria Amélia. Ofereceu-nos um café e uma bebida fresca. Ali, naquele local, todos os dias havia um tema e, que lá fosse, escrevia sobre ele e pendurava a sua ideia num placard que lá havia. Naquele dia, o tema era o patriotismo e eles lá evocaram as suas ninfas para fazer sair o assunto do espírito para o papel.

A seguir saíram com ela e foram fazer uma visita à tenda do Brasil, mas depois como já era tarde, ela teve de regressar ao seu campo.

Na tenda brasileira, depois de mais café e conversa, convidaram todo o contingente português para, nessa noite, às 18h, irmos a uma festa joanina (de São João, tipo santos, tradicional brasileira).

Na volta para o campo encontrámos os Jaime, o Zé Inácio e o Cabrita, que vinham frustrados do "não disfrute" da tarde deles - de manhã, tinham tentado fazer motocross, mas só deixaram o Cabrita fazer, porque a atividade não era para chefes. Ao princípio da tarde, a única coisa que lhes valeu foi a visita ao campo do contingente brasileiro. Depois foram tentar andar de ultraleve e não conseguiram e a seguir foram tentar Challenge Valley - que é uma pista de obstáculos e estava fechada.

Voltámos todos para baixo. Encontrámos pelo caminho o António, que disse que precisava de dois escoteiros fardados para irem à recepção de Israel. Como o Bruno e a Rita estavam fardados, foram. Havia um "percurso" na recepção. A primeira paragem era do muro das lamentações, e cada escoteiro que passava por ali deixava uma mensagem. Depois era uma banca de comida onde davam um prato típico israelita. Uma espécie de almôndegas, salada e um puré esquisito mas que, misturado com o resto, caía bem. Depois experimentámos o pão que, em vez de feito em formato de bolo, é feito em formato de panquecas. No fim, ficámos a falar com os chefes que por ali passavam. falámos com um chefe alemão e com o secretário do Bureau internacional.

O jantar foi hamburger no pão. Quando arreámos a bandeira e cantámos o hino, muita gente tinha-se juntado no pórtico, de boca aberta a olhar para nós e a ouvir-nos. No fim, bateram palmas. Modéstia à parte, cantávamos o hino muito bem.

Depois da cerimónia fomos à tal festa joanina. No caminho da ida, o Cabrita perdeu a tampa da objetiva da máquina fotográfica. O resto do grupo foi andando enquanto ele procurava a tampa, sem resultado. Ele não sabia o caminho para lá, mas como o resto do grupo calculou, ele lá chegaria pelos seus próprios meios. E assim foi.

A festa começou com uma dança típica brasileira. Havia uma fila de rapazes de um lado e à frente, uma de raparigas. Depois, à voz do "mestre", iam fazendo o que ele dizia. Ora dançavam, ora andavam à roda, ora faziam rodas, ora tornavam às filas. Depois, a música continuou, mas a conversa e os conhecimentos trocados tomaram conta da festa. A acompanhar, pipocas, café brasileiro e quentão. Quentão é uma bebida tipo ponche, mas com o típico saborzinho a Brasil. No fim do convívio, voltámos ao campo para dormirmos. 


segunda-feira, 16 de maio de 2022

Rádio, lama e muito mais | Dia 10 de Agosto de 1991 - Sábado, 13º dia de atividade

 A alvorada, à qual nos tínhamos de habituar, foi mais uma vez às 6h. Não apetecia mesmo levantar, pois a chuva persistia e ameaçava continuar pelo dia fora. Mas, mais cedo do que os outros, levantaram-se o Zé Inácio e a Rita para irem buscar a comida para o grupo. Depois das lavagens, tomámos mais uma vez um excelente pequeno-almoço, que deesta vez diferia nos corn-flakes normais: eram de mel e às estrelinhas [presumo que não conhecesse as estrelitas em 1991 em PT].

Depois de hastearmos a bandeira e cantar o hino, partimos para os nossos afazeres.

O Ricardo foi para os Mopeds [falta explicação]. O Jaime foi fazer umas compritas e o Zé Inácio, depois de dar uma volta pelo campo, também foi.

A Rita foi à tenda das receções dos brasileiros, com o Tó e com o Cabrita, porque ia dar uma entrevista para a Rádio Coreana. Felizmente, a jornalista sabia falar português, embora fosse coreana. A repórter parecia muito atrapalhada e só conseguia falar em espanhol. Depois de "atinar" com a língua, lá fez as perguntas. A seguir a Rita ia fazer a atividade de Rádio Amador, mas ainda faltava bastante tempo, então foi com o Cabrita ver as coisas ali à volta. Ao pé do atelier de Rádio Amador havia uma tenda onde era a Igreja Protestante, onde davam leques e gelados de borla a quem lá fosse visitá-los.

A seguir foram ao atelier de computador onde viram escoteiros aprenderem as bases (mais básicas) de informática e alguns faziam desenhos ou construíam textos e depois imprimiam. Viram um escoteiro coreano muito compenetrado a desenhar o símbolo do Jamboree que copiava a olho de um poster que estava na parede. Fora do recinto, os escoteiros que esperavam pela atividade davam toques num género de pompom. O melhor com os pés naquela brincadeira era, claro, um chefe coreano. A particularidade dos toques é que, em vez de se darem alternadamente com os pés e joelhos, dobravam a perna para cima e para dentro e devam-se os toques só com a parte interior do pé.

Depois estiveram a dar uma vista de olhos às tendas dos diversos países. Quando voltavam, viram o Bruno, que vinha do Pioneirismo e que os levou a ver. Nesta atividade, os escoteiros podiam testar a imaginação para inventar nós e ligações. Nesta atividade, podia-se escolher entre construir em equipa uma torre de vigia, uma ponte Himalaia ou uma ponte levadiça.

O Bruno e o Cabrita foram de seguida para a atividade de motocross onde se sujaram todos de lama. A Rita seguiu para a atividade de Rádio Amador. Ali, havia um chefe americano que dava umas noções de código morse e as bases do funcionamento da Rádio Amador pelo mundo fora. Disse que os Rádio Amadores tinham um código em vez de um nome. Mostrou que conseguia emitir em Morse até 35 palavras por minuto, embora o normal sejam cerca de 20. Adiantou ainda que, para chamar um país, há determinadas iniciais e que este tipo de rádio funciona em onda curta. Depois construíram um pequeno sistema elétrico que funcionava com uma pilha e que tinha umas luzinhas que acendiam e apagavam. Os chefes que estavam a orientar esta atividade disseram que era para meter atrás da anilha do lenço.

Ao almoço, estávamos todos menos o Bispo, e decidimos inventar um grito para as refeições em que cada um dizia uma coisa. E ficou assim: o Bruno começava por dizer "Então?", depois o Ricardo, "Quando é que isto começa?", e o Cabrita, "Uhm?", a Rita, "Sei lá!", e o Zé Inácio, "Agora?", depois o Jaime, "Ainda não", e depois o Nuno, "Já!" e no final dizíamos todos "Komsa Humninda", que é como se diz obrigado em coreano. As habituais ricas sandes do almoço souberam-nos melhor.

À tarde, o Jaime, o Zé Inácio e o Cabrita foram fazer tiro ao alvo com arco, e depois com armas X-2.

O Bruno, a Rita e mais uma rapariga das Faroe Islands foram fazer serigrafia. Era ao pé da pequena arena. Levaram uma t-shirt para fazer a estampagem. Como estava muita gente, demoraram bastante tempo, mas divertiram-se a ver os oradores daquela tarde.

Ao fim da tarde, já no campo, foi lá um escoteiro belga que quer muito ser português. Ele conhece muitas terras portuguesas, fala português (razoavelmente) porque foi a Portugal há dois anos numa acampamento e no ano passado também. 

Às 18h apareceu o Tó e disse que precisava de alguém para cantar a canção do Jamboree no coro para o "Youth Concert" que ia haver às 20h. A Rita ofereceu-se e lá foi para o coro. Chegou lá e teve de esperar algum tempo - o suficiente para aprender a música. Depois mandaram todos subir ao palco, e ensaiaram uma vez. A segunda vez já foi o início do espetáculo. Depois começou a chover e os músicos não quiseram tocar assim. Ainda se esperou bastante tempo, mas a chuva continuava e o "show" não se realizou.

O Zé Inácio e o Jaime, depois da reunião de chefes de sub-campo que tiveram às 18h, ficaram lá para um cocktail oferecido pelo chefe de sub-campo. Entretanto, no nosso campo, jantava-se. Desta vez foi peixe frito com batatas.

O Bruno e o Cabrita foram à procura do campo onde estava acampada a Stoffel, a anfitriã do Cabrita quando do Fabula89. Como não a encontrara, foram à arena grande ver se havia o tal "Youth Show", mas não houve, como já se disse atrás. Entretanto, como o escoteiro belga os tinha convidado para ir a uma pequena festa organizada pela Itália no subcampo 6, lá foram e divertiram-se bastante. Quando voltaram ao campo, estava tudo a falar com a Stoffel, que acabara de chegar. Finalmente o Cabrita encontrou a sua amiga e ficámos todos a falar um bocado. 

Começou a ficar tarde, e fomo-nos deitando.

quinta-feira, 12 de maio de 2022

Jogos tradicionais, mercado e informática | Dia 9 de Agosto de 1991, sexta-feria, 12º dia de atividade

 Hoje foi a vez do Bruno e do Bispo irem buscar o pequeno-almoço e o almoço. Depois das lavagens, tivemos mais uma vez um pequeno-almoço que foi um senhor pequeno-almoço. O Jaime falou-nos do resultado da reunião do dia anterior. Destinou, à sorte, as fichas de participação nas atividades a cada um e depois, de acordo com os gostos de cada, fizeram-se algumas trocas, que se realizaram não só entre nós, mas também com os escoteiros marroquinos e das Ilhas Faroé. 

Às 8.30h foi o hastear da bandeira, para o qual nos fardámos com o lenço e o chapéu do grupo 93. Contudo, a corda não deslizava bem na roldana que estava no topo do mastro, e a Rita não conseguia hastear a bandeira.

À seguir à cerimónia protocolar, começámos a sair para as atividades. Apenas o Jaime e o Cabrita ficaram a arranjar o mastro. A Rita e o Zé Inácio foram fazer jogos populares coreanos. Havia 4 jogos mas só tínhamos de fazer dois, e fizemos os que parecia que íamos gostar mais. Um era um baloiço, o tal baloiço tradicional, onde andam principalmente os homens. No baloiço anda-se de pé. Tem de se fazer bastante força de braços e dar balanço fletindo as pernas. 

O outro foi saltar de pé num sobe e desce em que está uma pessoa ao centro a equilibrar os movimentos, tipo eixo, e outras duas a saltarem. Só se pode saltar quando o parceiro termina a descida do seu salto. Este jogo, tradicionalmente jogado pelas mulheres coreanas, era uma maneira de mostrar que as mulheres também faziam alguma coisa além dos trabalhos domésticos. Os outros dois jogos consistiam numa dança coreana e uma luta livre onde os lutadores colocam um cinto especial e agarram-se à cintura dos adversários, baixando o tronco. Nessa posição, iniciam o assalto, que termina quando um deles consegue atirar o outro ao chão.

Quando, por volta das 10.40h, a Rita e o Zé encontraram o Jaime e o Cabrita a meio caminho das suas atividades, resolveram ir à zona dos mercados. Debaixo de um grande toldo, vendiam-se muitas coisas, muitas delas que faziam parte do artesanato coreano. Havia máscaras, leques, biblôs, pulseiras, anéis, colares; havia até um sítio onde, na hora, se podia fazer a inscrição de um nome e da data da inscrição numa pequena medalha. Além destas coisas típicas, muitas das bancas vendiam t-shirts dos últimos jogos olímpicos e a respetiva mascote. Este mercado era composto de quatro fileiras de bancadas, havendo um corredor central. Na zona de compras do lado de fora da tenda havia pouca gente, pois chovia imenso e, para estar a ver as coisas à vontade, só lá dentro. 

Perto deste mercado, mas numa tenda separada, estava o "mercado do Jamboree". Ao balcão havia filas de pessoas a comprar tudo e mais alguma coisa. Desde t-shirts, porta-chaves, anilhas de lenço, lenços, bonés, até mochilas, toalhas de praia, tudo com o símbolo do Jamboree. Havia até um papelinho com a lista de todas as coisas para que as pessoas fossem colocando uma cruzinha, à medida que adquiriam os diferentes items. O Jaime e o Cabrita foram até ao banco trocar algum dinheiro. Quem trocasse dinheiro no acampamento, tinha direito a um porta-chaves do Jamboree. Depois o Jaime e a Rita foram aos correios, que eram ao lado do banco, para ligar à embaixada de Seul a dizer que chegáramos bem, mas nenhum de nós tinha ali o número da embaixada.

Embora estivesse a chover muito, havia uma data de escoteiros, especialmente norte-americanos a verem óculos de sol. Mas a atração quase principal do mercado eram as tais medalhinhas onde se gravava o nome e a data.

Quando voltaram para o campo, já muitos tinham almoçado. O Bruno, de manhã, tinha feito um porta-chaves e um leque na atividade de artesanato. Só tinha direito a fazer um, mas lá o deixaram fazer os dois. Para fazer o porta-chaves faziam um barulho enorme a martelar uma pecinha. Para o leque, o difícil era colar as últimas três ripas de madeira ao papel do leque, e tinham de desenhar uma pintura tradicional coreana. Havia mais duas atividades de artesanato: uma era um bonequinho que já estava feito e era só preciso pintar, para depois pendurar ao pescoço e a outra era uma anilha onde se colava a parte exterior à interior e dava-se lustro. 

Voltando ao almoço, o Bruno já estava a acabar de almoçar e ia agora para uma atividade de Hiking, que era em grupos de 20, faziam 6km ao longo da costa, no Parque nacional de Sorakson.

Mas o almoço foi o costume. Sandes cheias de condimentos com muita mostarda, maionese e ketchup. Para beber, desta vez foi uma bebida que sabia a pastilha elástica e a fruta foi melancia. 

O Cabrita era para ir fazer a atividade de "orador". Esta atividade, que se realizava numa pequena arena ao pé do nosso subcampo, consistia em falar, cantar ou fazer alguma coisa no palco durante pelo menos um minuto. Esta atividade decorria ao longo de todo o dia. Mas resolveu fazer ciclocross. No entanto, como chovia a potes, a atividade não se realizou (era 1km em zonas sinuosas e já de si lamacentas). Mais tarde, foi ao subcampo um.

A Rita foi fazer orientação. Quando chegou lá, deram-lhe um mapa onde estavam assinalados vários pontos. Cada ponto por onde se passasse, ganhava-se pontos (15, 20 ou 25, conforme a dificuldade em chegar ao local). Podia-se ir para o ponto de chegada onde se furava a pulseira quando se tivesse mais de 100 pontos. Com ela iam mais dois japoneses e dois coreanos que não sabiam falar inglês. Mas não houve problema por causa da dificuldade de comunicação. Até se divertiram bastante a rirem-se quando alguém caía na lama, que era "ligeiramente" escorregadia.

O Ricardo foi fazer a atividade de computadores, utilizando um IBM PC 5540 e impressora e aprendeu a estabelecer um programa e o seu funcionamento. Havia uma equipa de três participantes por aparelho e a linguagem de programação era BASIC.

Ao fim da tarde, estávamos a contar as nossas aventuras, quando aparece uma escoteira do contingente francês a falar português. Era francesa porque os pais emigraram para França. Disse-nos que já estava à nossa procura há muito tempo e achou-nos. Chama-se Maria Amélia. Tem 19 anos e no grupo dela é chefe dos lobitos. Convidámo-la para jantar, mas já tinha jantado.

Jantámos frango com arroz e batatas e uma data de coisas. Para o jantar tinham-nos dado 4 frascos de picante para fazer o frango (!) Nós só utilizámos um pouco de um e já estava picante. Imaginámos "quão ardente" iria ficar o nosso prato com toda aquela mistela avermelhada no comer.

Às 20h era para haver a "noite coreana", mas como estava a chover muito, não houve.

O Tó, que passara o dia a ver as tendas representativas de cada país*, conheceu o chefe brasileiro que nos convidou para passarmos lá depois do jantar.

 *Perto da grande arena onde se realizavam as grandes cerimónias, havia uma tenda para cada país, onde cada um tinha a oportunidade de representar o seu país, apresentando-se da melhor maneira, com fotografias de paisagens, e quando outros visitavam, tinham a oportunidade de explicar tradições locais, gastronomia, etc.

Fomos então ver a exposição do Brasil. Ao chegar, sentimo-nos logo bem, principalmente porque sabia bem falar português ao fim de um dia todo a falar inglês, e também porque fomos muito bem recebidos. Depois daquela chuva toda, soube bem despir o impermeável, e beber um ou dois cafés, bem fortes. O chefe Ignácio ficou feliz por haver um português com um nome semelhante. Por isso, quando distribuiu lembranças do contingente, como só tinha duas t-shirts, uma foi para o Zé Inácio, e outra para a Rita, a única menina. No Brasil, dizer rapariga muitas vezes adquire o significado de prostituta. Por isso quando os amigos disseram, "é por ser a única rapariga", o chefe Inácio estranhou. E depois explicou-se a situação.

A seguir ao café e às lembranças, estivemos a falar com o Ignácio, que estava a informar-nos sobre a vida socioeconómica do Brasil, que, segundo ele, é em parte muito difícil e com muitos problemas; mas os brasileiros têm dificuldade em sair do país: "uma vez lá instalado, vocês não quer mais sair de lá", disse, com um sorriso, sublinhado pela cara risonha que já tinha naturalmente.

Acabada a conversa, e já mais aquecidos, regressámos ao nosso campo. Felizmente, já não chovia, mas infelizmente, o céu prometia chover mais.

Antes de nos deitarmos, fizemos e/ou melhorámos os regos à volta das tendas. O Zé Inácio e o Cabrita descobriram uma "piscina" na sua tenda. Lá limparam tudo, e dormiram o mais seco possível. 

quarta-feira, 9 de março de 2022

Um pequeno acidente e os gadgets do Jamboree | Dia 8 de Agosto de 1991 - 11º dia de atividade

 Às 6.20h o Cabrita e o Nuno levantaram-se para irem buscar o pequeno-almoço e o almoço, mas quando chegaram ao sítio onde se dava a comida, souberam que os "Faroe Islandeses" já os tinham ido buscar para toda a "troop".

Os outros foram-se levantando com facilidade pois o sol já ia alto e até fazia algum calor. De seguida fomos tomar banho aos novos chuveiros. Já lavadinhos e fresquinhos, fomos fazer o pequeno-almoço. Com os cestos da comida vinha um livro com toda a ementa do acampamento. Achámos o pequeno-almoço enorme: ovos mexidos com bacon, corn-flakes, fruta e bolo. E sobrou.

A seguir à lavagem da loiça e arrumação, no campo começaram a fazer-se algumas construções. Primeiro foi o pórtico: os Faroe Islandeses deram a ideia, os portugueses aperfeiçoaram-na, ou seja, fizeram toda a construção, e os marroquinos "bateram palmas". Enquanto cortava um tronco com o machado, o Nuno cortou o joelho, fazendo um golpe profundo. O Jaime fez o primeiro socorro e depois foi para o Hospital do Jamboree acompanhado pela Rita, onde levou dois pontos. O hospital, feito numa grande tenda, era bastante bom e organizado. Mas, embora o Nuno se mostrasse bastante branco, ainda demorou quase três quartos de hora a ser atendido. Teve a sorte de se poder mexer à vontade, mesmo com os pontos, mas o azar de não poder fazer atividades aquáticas.

O Jaime teve uma reunião de chefes às 11h, onde recebeu informações para aquilo que iria ser o Jamboree enquanto atividade. 

Ninguém queria trabalhar muito. Realmente a vontade não era muito grande. Contudo, o que é certo é que só almoçámos por volta das 13h e apenas porque o Jaime nos "obrigou" a parar de trabalhar.

Durante o almoço, o Jaime deu-nos as informações que recolhera. Foi o seguinte: tínhamos direito a um lenço e boné de atividade, que tínhamos de usar durante o seu decorrer; ia haver a cerimónia de abertura às 20h na grande arena do campo, mas tínhamos de estar prontos às 18h, à entrada do sub-campo. Em relação à atividade, era assim: cada escoteiro tinha uma pulseira azul. À medida que ia fazendo atividades, faziam furos nas pulseiras para se saber ao fim o número de atividades que fizera. Para se obter a "especialidade" do Jamboree, tinha de se fazer três atividades obrigatórias e sete facultativas. No total eram 36 atividades. Para os escoteiros não irem fazer simplesmente as atividades que lhes apetecesse e às horas que quisesse, havia um computador que determinava as atividades e horas de cada um. Além disso, se não gostássemos ou não pudéssemos realizar determinada atividade, podíamos trocar com outros escoteiros. 

Algumas vezes, "vezes sem exemplo", conseguíamos fazer atividades mesmo sem o bilhete que nos dava o direito "legal" e muitas vezes a horas diferentes. É claro que essas exceções eram evitadas ao máximo pela organização, mas com um "choradinho" lá se conseguia o que se queria. Isto, também, com exceções...

Quanto aos lenços e aos bonés havia um problema: a indicação do nosso país e demais pequenos contingentes não estava na lista - ainda. Portanto, estávamos sempre a ver quando é que nos podiam dar e persistíamos. Na reunião de chefes o Jaime resolveu o problema e ia buscar o material às 16h. Mas o Bispo e o Bruno, pela manhã foram igualmente à luta pelo material e nunca mais chegavam para almoçar. Ainda esperámos, mas a fome já era grande e o trabalho para a tarde era tanto, que começámos a comer. O almoço foi sandes de queijo e fiambre, muita fruta e, para beber, tínhamos uma bebida que parecia Isostar. 

Mesmo no fim do almoço, apareceram o Bispo e o Bruno a dizer que tinham ido ao material pedir os lenços e os bonés do Jamboree, mas nada. O Jaime atalhou, dizendo mais uma vez que já resolvera essa questão na reunião da manhã.

Durante a tarde continuámos a trabalhar no pórtico e depois no mastro para as bandeiras. Para embelezar o pórtico, resolvemos fazer uma flor de lis em corda e pintá-la por dentro, de verde. Foi o Jaime quem a fez. Ficou simples, mas muito bonita. À medida que precisávamos de material - pinceis, tinta, corda, pregos - íamos pedindo aos outros contingentes, mas concretamente aos belgas, que traziam uma data de coisas e estavam ali mesmo ao lado.

Para o mastro, fomos buscar as três altas canas (mais ou menos 10m), que cada troop tinha direito lá no sítio do material e fizemos um tripé com a ligação a meio da cana. 

Fizemos ainda uma cerca para o mastro que custou um pouco a conseguir por os lados todos iguais, mas lá conseguimos. Tivemos de fazer tudo depressa porque ia lá o Príncipe de Marrocos, e os marroquinos estavam muito entusiasmados, e insistiam que tínhamos de estar fardados quando o Príncipe chegasse.

No fim do nosso trabalho, fomo-nos fardar e deixámos os Marroquinos fazerem a cerca exterior ao campo.

Felizmente, estava tudo pronto e em formatura quando Sua Alteza chegou. Com ele, veio uma data de fotógrafos, excitados com a ocasião. O Príncipe cumprimentou toda a gente. Os escoteiros marroquinos cantaram uma canção - que tinham ensaiado ao longo do dia - e que percebemos depois ser o seu Hino Nacional. Sua Alteza parou no contingente marroquino para falar com eles. Depois juntámo-nos todos para tirar fotografias. A seguir, os escoteiros marroquinos ofereceram três bolinhos diferentes a cada pessoa presente.

No fim de toda esta cerimónia fardámo-nos como pedia a organização - com o lenço, emblema e boné do Jamboree (que entretanto chegaram).

Demorámos algum tempo a jantar e atrasámo-nos um pouco, mas não houve problema, pois quando chegámos à entrada do sub-campo, embora já lá estivessem quase todos os escoteiros, tínhamos de esperar, não sabíamos porquê - ainda. Entretanto, o Cabrita foi desenrascar um mastro para a bandeira que íamos levar para a cerimónia.

Durante a espera, os escoteiros ali presentes cantavam coisas que sabiam e aplaudiam-se uns aos outros.

Chegou o "esperado". Era o desfile de escoteiros doutros campos, precedido de um costume excursional coreano, com coreanos lindamente vestidos, muitos tambores que davam um granda som, e muita alegria de todos os escoteiros atrás. A seguir à sua passagem, perfilaram os escoteiros do nosso sub-campo, incluindo nós, claro.

Nas curvas do caminho para a grande arena e numa ponte por onde tínhamos de passar, percebemos a quantidade de escoteiros que ali estava. A meio do caminho, entre as músicas e gritos dos escoteiros belgas e ingleses - que vinham à nossa frente e atrás de nós, respetivamente - nós cantámos a "Rama". Ficaram doidos! Primeiro calaram-se para ouvir bem e no fim aplaudiram bastante.

Quando lá chegámos, já a arena estava muito cheia. Sentámo-nos na relva, como todos. Havendo ainda alguma luz do dia, pudemos ver bem a mancha vermelha - dos bonés - que formávamos. Do céu, talvez se distinguisse bem essa mancha.

Antes do espetáculo em si, no palco desenvolviam-se danças coreanas. O espetáculo começou às 20h em ponto, anunciado por um locutor. Para além do palco - que mesmo lá de trás se via bem - havia dois grandes ecrãs onde se podia ver o que se passava no palco. Cantámos todos a canção do Jamboree. Numa enchente de música, fogo de artifício como provavelmente nunca voltaríamos a assistir ao vivo, muita cor, muitas fotografias, começou a festa. Em cada escoteiro vibrava de emoção à sua maneira. A seguir o Escoteiro chefe Nacional da Coreia do Sul veio dar as boas vindas e anunciar o Jamboree que, ao contrário da maioria dos atuais discursos, não foi chato. Depois foi a chegada das bandeiras. Estávamos sempre à espera da nossa. Quando finalmente entrou, gritámos e esbracejámos muito. O resto da cerimónia foi preenchido com danças de várias escolas coreanas e, no fim, muito fogo de artifício, de todos os lados.

Quando acabou, fomos contentes para os sub-campos, gritando de alegria por este acontecimento.

Chegámos ao nosso e, antes de seguirmos para o nosso campo, fomos às "dixies" que são as WC portáteis, espalhadas pelo campo. Antes de nos irmos deitar, fomos ainda tomar um grande banhão. De seguida, quase todos nos fomos deitar; apenas o Jaime e o Zé Inácio ficaram a ver as atividades que nos tinham sido destinadas pelo computador, quando foram a uma reunião com o resto dos chefes a seguir à cerimónia.


sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Finalmente, Sorakson | Dia 7 de Agosto de 1991 - 10º dia de atividade

 Hoje foi o dia de irmos para Sorakson, e o autocarro que nos levou arrancava às 9h. Acordámos às 6h e arrumámos tudo, desmontámos as tendas, etc. Como havia muitos bichinhos "acampados" no duplo teto e no cimo da tenda, quando sacudimos, assistimos a um espetáculo. O senhor Yum indicou-nos um sítio com sol para secar a tenda, mas mais tarde os cães estiveram a brincar ali sem darmos por isso, e ficou tudo sujo na mesma.

Depois de tudo arrumado e postas as mochilas no autocarro, fomos tirar fotografias todos juntos à entrada da sede. Primeiro, o senhor Yum tirou-nos duas fotografias com a máquina dele e depois tirámos nós. Deixámos algumas recordações com o Mr. Yum.

Antes de partirmos, pusemos a bandeira no vidro de trás do autocarro. Connosco, iam só dois alemães. Éramos para ir ter com os Bolivianos, mas eles não estavam lá, e seguimos só nós.

A viagem era de 7 horas. Havia um guia que traduzia as nossas perguntas ao motorista e vice-versa. Este dia deu-nos um guião de viagem, com as várias paragens que íamos fazer e a duração de cada trajeto. NO leitor de cassetes estava a dar músicas do Jamboree. Como eram sempre as mesmas, às tantas pedimos para mudarem para Phil Collins, Water Boys, etc. Atravessámos Seul de um lado ao outro para sairmos na direção de Sorakson. Estava muito trânsito e pudemos ver alguns dos locais por onde tínhamos andado nos últimos dias.

Pouco depois surgiu uma autoestrada que, naquele dia, era só para participantes do Jamboree. Toda a estrada exclusivamente para escoteiros e organizadores deste acontecimento. Tudo quanto era polícia e militares fazia continência à nossa passagem; a população acenava.

À medida que íamos avançando, a paisagem era mais espetacular. Imaginávamos já a beleza do local do acampamento. Para que a estrada se tornasse menos difícil no meio das montanhas, havia muitos túneis e viadutos. Umas vezes mais perto, outras mais longe, podíamos ver a linha do comboio, igualmente com muitos túneis. De uma vez, vimos um comboio a sair do túnel, parecia aquele anúncio da Nestlé. As florestas eram imensas e de grandes extensões; os rios eram límpidos e víamos pessoas a tomar banho, apetecia mesmo. Pela estrada fora víamos publicidade ao Jamboree, com muitas bandeiras, paineis, sempre o símbolo da atividade, havia também séries de bandeiras nacionais dos países presentes, pelo que, cada vez que víamos a nossa, aplaudíamos.

Nas paragens, além de irmos às "embaixadas", íamos conhecendo outros escoteiros que vinham nos outros autocarros. Eram tantos, que o Cabrita comentou, "Aqui só não há não escoteiros". Numa das paragens, quase todos comprámos uns bolinhos que pareciam de chocolate, mas eram um pouco enjoativos. Mais tarde, percebemos que eram de feijão.

Durante a viagem tirámos a desforra a horas de sono perdidas nos últimos dias, a Rita treinava o seu alemão, conversando os escoteiros alemães que vinham connosco; o Cabrita tirava algumas impressões com o anfitrião do dia (o guia da viagem).

A última parte da viagem durou 40m. Seguia por uma estrada de curvas apertadas e íngremes. Às tantas, começámos a descer para o vale onde decorreu o Jamboree. Chegámos às 16h, como previsto. Parámos na receção e o Tó foi perguntar qual o sítio onde íamos ficar. Quando voltou disse-nos que era no sub-campo 4, na troop 20. Despedimo-nos do intérprete e o motorista levou-nos para a entrada do sub-campo 4.

Aquilo era mesmo grande. Era uma autêntica cidade de escoteiros. Íamos estar ali uma semana inteira e mais um dia naquele sítio lindo, com escoteiros por todo o lado, lembrando-nos dos que não puderam vir connosco.

Com o contingente português, no nosso campo estavam mais dois, e como eram contingentes pequenos, ficámos todos juntos - além de nós, Marrocos e as Ilhas Faroe, que é um arquipélago que pertencia à Dinamarca e que entretanto tornou-se independente.

Enquanto o Jaime e o Tó foram informar-se de como estaria organizado o acampamento e outras coisas, o resto do grupo ficou a montas as tendas. O Zé Inácio e o Cabrita montaram um Iglu, o Bruno e a Rita montaram o Iglu do Jaime e o Ricardo tentou montar outra tenda, mas quando as outras já estavam montadas, ele ainda ia nas primeiras estacas, pois era mais difícil de montar e depois todos ajudámos. Um dos encaixes de um prumo partiu-se, e então o Cabrita improvisou um com um pau e a ajuda de facas de mato e a lâmina do corta-unhas do Bruno, que ficou ligeiramente torta.

A seguir fomos à receção buscar o material a que tínhamos direito - a cozinha e suas componentes. Eram imensas coisas: um toldo grande, uma mesa e dois bancos compridos para 4 pessoas cada, um fogão com dois bicos, o isqueiro, a bilha de gás, duas frigideiras, um tacho, uma panela enorme, uma espátula, uma concha, um pano de cozinha, uma esponja, uma luva, um alguidar e dois jerry-cans. Fomos ver como outros estavam a montar tudo aquilo para conseguirmos montar o nosso material.

Assim que acabámos, começámos logo a fazer o jantar, que era almôndegas. Havia também manteiga, pepino, cenouras, ket-chup. Fizemos sandes. Para empurrar, tínhamos leite. 

Depois tivemos de decidir quem ia dormir onde. O Zé Inácio e o Cabrita juntos, o Ricardo e o Jaime noutro iglu, a Rita e o Bruno na tenda.

Soubemos pelo Tó que a alvorada era às 6h, todos os dias, e que tínhamos de ir buscar o pequeno-almoço até às 6.30h. Por isso, rifámos os sacrificados para o dia seguinte. Os primeiros sorteados foram o Nuno e o Cabrita. O Tó, chefe do nosso contingente, tinha de ficar a dormir com os outros chefes, noutra zona do campo.

Quando acabámos de jantar fomos lavar a loiça e deitámo-nos, a ouvir montes de gente a falar até às tantas.

A cidade olímpica de Seul | Dia 6 de Agosto de 1991 - 9º dia de atividade

 Chiça, nunca mais começa o acampamento! No dia anterior combináramos acordar Às 7.30h mas só acordámos às 8h e ainda tínhamos muito sono.

Depois do banho, comemos corn-flakes e preparámos umas lembranças de Sintra para dar na Embaixada, enquanto fazíamos o "programa das festas", do dia. Decidimos ir de manhã ao Complexo Olímpico, almoçar lá, depois ir à Embaixada e por fim fazer as últimas compras, pois seria o último dia em Seul.

Mais uma aventura de transportes para chegar ao complexo olímpico, e uma caminhada final. Passámos por uma mercearia onde comprámos o piquenique do dia. Embora com fome, ficámos entusiasmados para procurar a bandeira portuguesa entre 165 e para ver a chama olímpica.

Depois do almoço, começou a chover. Corremos para uns bancos que tinham um tejadilho. Ficámos ali quase meia hora à espera que a chuva parasse. Quando parou, fomos finalmente visitar o parque, começando por um museu, o "museu do ar". Tinha umas esculturas feitas por amadores. As obras tentavam dar um significado subjetivo ao corpo do homem e sua utilização. Pelo parque fora também havia esculturas espalhadas pelos relvados.

A certa altura avistámos um complexo de estádios e quase corremos para lá. O primeiro era o velódromo. Vimos lá alguns ciclistas de cross amadores às voltas. O segundo, onde só havia meia dúzia de pessoas nas bancadas, era o de Haltereofilia. Havia mais dois, fechados, que deviam ser de ginástica. O último que vimos foi o de natação e adorámos. Era o maior, com uma piscina de 50m e uma para os saltos. Estava muita gente a fazer natação. Havia lugares para milhares e milhares de espetadores. Mas não tínhamos todo o tempo do mundo. Tínhamos de ir à Embaixada e às compras. Demorámos a encontrar a saída do parque gigante.

Ao trocar de metro, perdemos o Bruno de vista. Como ele no outro ia a dormir, pensámos que ainda lá estivesse. Então, estávamos a programar quem iria descer na próxima estação e regressar para o ir buscar, quando ele aparece na outra carruagem.

Durante a viagem esteve sempre a chover, e lembrámo-nos da roupa que deixáramos a "secar" no campo.

Deixámos as "little souvenirs" na Embaixada, assim como as nossas moradas, e despedimo-nos. Ficaram contentes com as lembranças e mostraram-se tristes com a despedida, a Mónica até se comoveu. 

Depois fomos comprar souvenirs de Seul para levar para Lisboa, no mercado. Para chegar ao mercado, foi mais difícil. Apesar de estarmos em Seul há quase uma semana, ainda não éramos azes da orientação, mas para lá caminhávamos. Após alguma discussão, uma senhora meteu conversa connosco e ajudou-nos a encontrar o caminho certo.

Já no mercado, o Bruno, que antes de "pobre" queria comprar um relógio à prova de água, um "Rolex Polaris", tendo um fundo de maneio, quis usá-lo para comprar o relógio. Depois de muito regatear, lá conseguiu comprar um.

O Zé Inácio andou muito tempo de roda das máscaras tradicionais. Quando estava prestes a desistir por não conseguir o preço que queria [esta parte do relatório está uma confusão, não percebo].

Para variar, fomos jantar ao Hardee's. Seguimos para o campo no autocarro 158 que é o que vai sempre mais depressa, mas também mais cheio. Foi a última vez que fizemos aqueles 2km. O Zé Inácio estava aflito das virilhas e tinha de andar com as pernas ligeiramente afastadas. Felizmente conseguimos boleia de dois carros, quase seguidos.

Quando chegámos vimos um grupo enorme de pessoas a cantarem e a fazerem uma grande festa. Depressa soubemos que eram miúdos de uma colónia religiosa que também estava ali instalada.

Foi a última noite no campo de formação de escoteiros da Coreia do Sul.

Seul e os seus esplendores... e uma carteira perdida | Dia 5 de Agosto de 1991 - 8º dia de atividade

 A alvorada hoje tinha mesmo de ser às 6h. Apesar do cansaço do dia anterior, alguns já estavam bem acordados a essa hora.

Antes de sairmos, o Mr. Yum, com receio de que fôssemos à boleia, indicou-nos os números dos autocarros e o que estava escrito à frente desses números, em coreano. Saímos para a habitual caminhada às 7.50h. Em vez de pagarmos - como era costume - o autocarro, utilizámos umas fichas, equivalentes aos módulos [bilhetes que se compravam em grupos de 10 p, ex] que os CNE tinham comprado no dia anterior e que torna a viagem mais barata. Como saímos um pouco longe de City Hall, local de encontro com a conselheira Maria Júlia e com a Mónica, chegámos nove minutos atrasados.

Seguimos para o metro, guiados pela Mónica, que estava muito contente com o dia de folga da Embaixada. Pagámos 600wons - 120$ [0.6€] para irmos até à paragem de metro mais perto da agência turística que organizava as excursões para a Aldeia Folclórica.

Esta viagem de metro teve uma particularidade: não foi subterrânea, mas sim como um comboio normal. Apenas as primeiras estações foram "underground". Após uma hora e 10m de viagem, sempre de pé, numa estação estava tudo a sair e outras pessoas a entrarem. Nós, como estávamos cansados, sentámo-nos logo. Mas eis que percebemos que era a última paragem e tivemos de sair. Mesmo a tempo!

Comprámos os bilhetes de entrada na aldeia mas ainda tínhamos de esperar uma hora pelo autocarro que nos deixaria na aldeia. Aproveitámos para comprar bebidas e para trocar dinheiro e distribuí-lo.

No autocarro tivemos de ir de pé outra vez até à aldeia.

Como eram quase 13h e perto da entrada da aldeia havia uma nascente de água potável (o que é muito raro na Coreia, segundo as trabalhadoras da Embaixada), almoçámos. Ao pé desse lugar havia uma loja com souvenirs onde um artesão gravava a fogo desenhos lindíssimos em peças de madeira.

A juntar aos escoteiros mexicanos e italianos que víramos no dia anterior, neste dia vimos escoteiros de todo o lado! Especialmente canadianos que não se fartavam de oferecer crachás, que traziam às carradas nos bonés. Muitos escoteiros quiseram conhecer-nos pela originalidade da farda [ou pela sua composição em desuso] e do chapéu. Também elogiavam o nosso inglês. Considerámos muito estranho que muitos escoteiros não conhecessem o aperto de mão escotista. E então, ensinávamos.

A Aldeia Folclórica tinha as casas típicas, claro; as divisões das casas explicadas por cima de cada uma; os celeiros, os instrumentos de ceifar e moer.

Por um dos caminhos, desfilava um casamento típico, com a noiva num cubículo muito pequeno segurado por quatro homens, o noivo a cavalo e os criados vestidos a preceito com bonitas cores. Todavia, "Eles casam-se todos os dias", foi o comentário de Mónica, já habituada ao cortejo.

A seguir havia um sítio onde se podia escrever num papel por 500 wons - 100$. Então pedimos à Mónica que escrevesse os nossos nomes em Coreano. A técnica de escrita é de cima para baixo e da direita para a esquerda. Além disso, o papel é dobrado uma série de vezes, consoante o número de palavras e caracteres que se querem escrever, de modo a que não falte nem sobre espaço no papel. A princípio, a Mónica estava a tremer de vergonha, sentindo-se observada por tanta gente, mas depois para o fim já estava à vontade. 

Depois passámos por um baloiço gigante onde é hábito os coreanos andarem, e de pé. Todos quiseram experimentar. O Tó foi quem conseguiu ir mais alto, talvez por ser mais leve, e apanhou o jeito logo ao princípio. Mais à frente, havia um espetáculo numa corda bamba. O funâmbulo dava saltos espetaculares e foi muito aplaudido.

Entretanto, o Ricardo "decidiu" desaparecer e o Cabrita e o Jaime foram à procura dele. Saímos do complexo turístico e ficámos ainda um bocado à espera do autocarro. Quando entrámos, monopolizámos a parte de trás do autocarro. Estávamos tão bem instalados, que adormecemos.

Não faltando à promessa do dia anterior, fomos à Torre. Despedimo-nos da Conselheira e da Mónica no City Hall e seguimos o mesmo caminho do dia anterior. Andar de teleférico constituiu uma primeira experiência para a maior parte de nós. Depois mais uma escadaria e ali estava a Torre. À entrada, um elevador. Quando picámos os bilhetes, que também eram um postal, deram-nos um porta-chaves. Ficámos doidos quando chegámos lá acima. A Torre ficava mesmo no centro da cidade e podia ver-se tudo. Como era o fim do dia, vimos o sol por-se e as luzes da cidade a aparecerem cada vez mais depressa. Com a vista infinita que tínhamos à frente, pudemos compreender o elevado número de habitantes desta capital. Quanto mais olhávamos, mais a cidade parecia crescer para os subúrbios.

Subimos mais três andares e fomos jantar ao restaurante panorâmico, cujo chão rodava em torno do eixo da torre, por isso íamos vendo tudo enquanto comíamos. Como o restaurante era obviamente caro, não pudemos satisfazer o nosso estômago devidamente.

A seguir ao jantar, descemos. Lá em baixo havia um painel com as torres mais altas do mundo e a Rita, o Cabrita, o Zé Inácio e o Jaime ficaram a comparar torres e o Ricardo e o Bruno foram jogar "Tetris" para uma sala de jogos que lá havia. Concluímos que a Torre de Seul era a terceira mais alta do mundo e a mais alta do Oriente, só que ao nível da água do mar, pois ao nível do solo, não é das mais altas.

O Bruno às tantas bateu com a mão na testa, "não sei da carteira!" O Jaime, meio "irritado" com a situação, pois parecia que a carteira teria sido perdida na sala de jogos, mandou-o ir lá acima mais o Ricardo. Apesar da situação, o Bruno estava bem disposto.

No regresso ao metro, passámos por um supermercado onde comprámos o pequeno-almoço do dia seguinte. Já no metro, sentámo-nos como as demais pessoas, de cócoras. Apareceu um senhor que simpatizou com a nossa figura e meteu conversa connosco. Queria mandar a Rita embora e oferecer um copo aos rapazes. Ofereceu-nos uma coisa para comer, que não identificámos, e recusámos. Ele tentava comunicar connosco em coreano e nós tentávamos despedir-nos dele em português. Uma risota.

Entretanto chegaram o Ricardo e o Bruno, mas sem carteira. Pois é, o Bruno, que tinha montes de dinheiro na carteira, ficou só com o dinheiro russo, que guardara noutro sítio. Passámos a chamar-lhe "o pobre" até ao fim da atividade, mas o Jaime decidiu dar-lhe um fundo de maneio para compensar a perda da carteira.

No caminho de regresso, dormimos e na parte de caminhar para o campo, apareceu uma carrinha a oferecer boleia, e nós aceitámos.

Não tomámos banho por preguiça, só os pés, que estavam impossíveis depois de tanto caminhar. Depois metemo-nos nos sacos-cama e adormecemos outra vez que nem uns anjinhos.

Secret Gardens de Seul e mais hamburgers | Dia 4 de Agosto de 1991 - 7º dia de atividade

 Estávamos tão moles que não nos queríamos levantar. Então, ficámos a brincar com os cachorrinhos que tinham vindo à porta da tenda. Entretanto, apareceu um fotógrafo que nos pediu para tirar fotografias de nós dentro da tenda. Disse que era para o jornal do Jamboree.

Tomámos banho e fizemos o pequeno-almoço que comemos mais ou menos pelo meio-dia. Assim que nos "despachámos", fomos fazer o caminho do costume até à paragem de camioneta e consequente viagem de autocarro até Seul. Neste dia íamos visitar os jardins secretos, que nos tinham sido recomendados na Embaixada, que seria giro vermos, e pusemo-nos a caminho.

Com a ajuda do mapa e de algum desenrasque, chegámos num instante. Mas a visita guiada daquela hora, em inglês, já tinha começado há um bocado e outra, só às 15.30h. Por isso fomos procurar um sítio para almoçar. Pusemo-nos a andar por uma avenida fora, cheia de restaurantes, mas só coreanos. Então, já meio fartos, sentámo-nos a olhar para o mapa. Apareceu uma família coreana e quem meteu conversa foi a filha mais nova, para aí com 5 anos, porque tinha ido aos Estados Unidos e sabia falar inglês. Aproveitámos para perguntar por um restaurante ocidental [shame on us] e eles indicaram-nos a "Americana", que é outro sítio onde se comem... hamburgers. Lá demos com aquilo ao fim de algum tempo.

A seguir ao almoço voltámos depressa para a entrada dos "Secret Gargens" para entrar a horas com o resto da excursão daquela hora. Na visita vimos escoteiros mexicanos e italianos. Durante a visita, o Ricardo meteu conversa com a cicerone que ficou muito contente por haver turistas tão interessados. Houve uma paragem de uns 10 minutos num sítio muito bonito, com um grande lago e grandes casas típicas coreanas. Mais para o fim havia umas árvores muito estranhas para nós e muito antigas, e com lendas de dragões e de serpentes associadas.

À saída, sentámo-nos um bocado para decidir o próximo passo do dia e decidimos ir à Torre de Seul. Andámos em mais alguns transportes até à estação central e depois fomos a pé até à Torre. Depois de subirmos várias ruas e estradas "algo" íngremes, e de subirmos umas quantas escadarias, chegámos ao "sopé" da Torre. Dali, apanhava-se o teleférico e a seguir é que era a Torre. Um coreano, que tinha aprendido português na faculdade, mas que já tinha esquecido pela falta de prática, disse-nos que já fechara e, vendo a nossa expressão de desilusão, indicou-nos um sítio bem perto dali que era um género de jardim zoológico, mas em ponto pequeno. Fomos então ver umas aves raras, uns macacos e umas galinhas enjauladas, ficando a promessa de voltar no dia seguinte, mas cedo, para visitar a Torre.

Voltámos para trás e fizemos compras para o piquenique na Aldeia Folclórica que iríamos visitar no dia seguinte. Jantámos no Hardee's e depois voltámos ao campo para dormirmos que nem uns anjinhos. 

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

Aspetos culturais na Coreia do Sul | Dia 3 de Agosto de 1991 - 6º dia de atividade

 Quando acordámos descobrimos que, mais ou menos ao pé de nós, tinham dormido também escoteiros mexicanos.

Tomámos banho e, mais uma vez, comemos farinha de chocolate pensal feita com leite em pó.

Como íamos nas calmas no caminho para a estação, demorámos um bocado a fazer os 2km, a que nos acostumávamos, dia após dia.

Já não era muito cedo e nós estamos sempre com fome. Então, quando chegámos a Seul fomos almoçar ao Wendy's. Começávamo-nos a fartar um bocado de hamburgers, mas ao mesmo tempo que nos fartávamos, habituavamo-nos à rotina.

A seguir ao almoço andámos às voltas e tirámos bastantes fotografias. Às 15.30h fomos para o Hardeis (?) onde tínhamos combinado. O caminho para a casa do embaixador ainda era longo e andámos a pé um bom bocado para além de duas carreiras que tivemos de apanhar.

Depois das apresentações ao Embaixador, fomos comer. Havia muito que comer - salada de frutas, mousse de chocolate, sandes de queijo e de presunto, salgadinhos, bolo de chocolate, sumos frescos, café gelado, etc.

Acalmado o estômago, começaram, em maior força, as palestras, chamemos assim. Tivemos uma conversa bastante interessante com o Embaixador, que esteve a contar-nos muitos aspectos culturais da Coreia do Sul. O aspeto que ele mais acentuadamente focou foi o facto de se estar a perder alguma cultura que havia antigamente, na Coreia. Mas este tipo de aculturação, feita principalmente pelos americanos que têm uma base militar, nem por isso tem feito muito melhor ou pior ao povo coreano. O povo das aldeias e do campo não tem sentido mudanças, segundo ele, pois continuam com a sua casinha, a sua cultura de arroz, sem muitas influências urbanas. Muitos há, no entanto, que saem do campo para a cidade, em busca de uma vida menos cansativa; mas, como em todo o lado, perdem bastante com o êxodo. Continuando, antes da vinda dos americanos e consequentes influências, não havia roubos e existia muito pouca marginalidade. Houve um crescimento muito acentuado de Seul - neste momento a cidade e arredores englobam cerca de 18 milhões de pessoas - crescimento este que contribuiu consideravelmente para a existência de algum "fora da lei". Em relação à vida na cidade, as pessoas são menos simpáticas do que as do campo - no campo não há tanta competitividade relativamente àqueles que vivem na cidade e arredores.

Falando do povo em geral, são muito amigos uns dos outros, havendo no entanto alguma desconfiança entre eles. Dentro do mesmo sexo e apenas como prova de amizade, andam abraçados ou de mão dada, facto que seria logo mal visto por muitos portugueses e outros povos ocidentais.

Um factor de difícil aceitação da nossa parte relativamente à cultura coreana, é a maneira como são feitos os casamentos e a vida dos casais (é uma generalização, mas pronto). Os casamentos são arranjados por casamenteiros. As pessoas namoram com quem quiserem, mas quando chega a altura do casamento, têm de casar com fulano de tal e pronto. Com isto, muitos homens e mulheres coreanas são tristes. A mulher é quem manda em casa, e o marido trabalha. Depois, parece mal se o homem não chegar tarde a casa. Mesmo que não queira, a mulher manda-o dar uma volta e só lhe abre a porta a partir de determinada hora. Assim, o homem, sem muito ou nada que fazer, embebeda-se.

Outro factor relevante é a religião. Em primeiro lugar, é importante sublinhar que a religião é a base da cultura. A religião com mais crentes é o Budismo, que foca em três princípios básicos: a disciplina, a organização e a concentração. Depois, como a Coreia é muito aberta às influências exteriores, foi o país do oriente onde o cristianismo teve mais aceitação.

A Coreia é, já de si, um país com uma cultura muito aberta às outras culturas, pois durante séculos e séculos não tinham nada de fora, só da China. Como disse o Embaixador, "as influências culturais partem dos arredores do país [países vizinhos] e daqueles que cá vêm."    

Como já estava a ficar tarde para nós, embora fosse interessante, tivermos de acabar a conversa. Fomos ainda tirar fotografias - daquelas do género das de família - ao pé da bandeira portuguesa e ficou combinado que no dia 5 iríamos todos visitar a aldeia folk. 

Depois saímos, juntamente com a Mónica e a Isabel. Elas perguntaram se nós queríamos conhecer o sítio onde os jovens universitários se juntavam à noite, que eram umas ruas num bairro em Seul. Lá fomos de metro e de autocarro para o local, onde jantámos, num restaurante. Como a comida era muito picante, pediram aos cozinheiros para não por tanto, mas continuava bastante picante, principalmente umas lulas e respetivo molho. Gostámos todos muito de uma espécie de Pizza, do arroz, e da água. E de uma bebida, cerveja ou licor de arroz? que cheirava muito a álcool, mas que até não parecia muito alcoólica.

A seguir ao jantar, quando passeávamos nas ruas daquele bairro, reparámos que os grupos de jovens se reuniam em círculos, sentados à chinês ou sentados sobre os pés. Vimos um grupo de músicos a ensaiar para um espetáculo de amadores que ia haver dali a duas semanas. Era um som muito forte, provocado principalmente por tambores. Numa pequena arena, estava um cantor a cantar "La Bamba", algo que não esperávamos. As duas funcionárias da Embaixada vão habitualmente para ali, mais ou menos uma vez por semana. 

Regressámos de metro e de autocarro para a estação e despedimo-nos da Mónica e da Isabel. Antes de irmos para o campo de formação, passámos por um supermercado, onde comprámos o pequeno-almoço do dia seguinte. Fizemos o habitual caminho de volta de camioneta, mais os 2km, e quando chegámos, fomos logo nos deitar.

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

Hamburgers por todo o lado e compras no mercado | Dia 2 de Agosto de 1991 - 5º dia de atividade

 Tinha chovido a noite toda e às cinco e tal da manhã o Zé Inácio acordou todo molhado. Então vestiu-se todo e deitou-se noutro sítio da tenda. Depois dormimos até perto das 11h. Muito à vontade com o tempo, tomámos banho, lavámos meias e tal, depois, como estava a chover fizemos o pequeno-almoço ao pé de uma garagem por baixo da sede. Tivemos uma certa dificuldade em fazer o pequeno-almoço porque os cachorrinhos estavam sempre a querer cheirar. Comemos, ao meio dia e tal, farinha Pensal feita com leite em pó, e juntámos à refeição bastante do pequeno-almoço que o chefe oferecera no dia anterior.

Para a paragem de camioneta ainda eram 2km. Embora a circulação fosse pouca, o Zé, o Jaime, o Cabrita e a Rita apanharam boleia de um senhor que não andava a mais do que 30km/h. Devido à velocidade a que íamos, quando chegámos à paragem, não tivemos de esperar mais do que cinco minutos pelo Ricardo e pelo Bruno. Com a ideia da boleia, pedimos boleia na paragem a alguns carros, para ir para Seul. O senhor Yum desaconselhou-nos ao máximo a boleia e não descansou enquanto não nos viu dentro do autocarro. Mas andar de autocarro em Seul é das maiores aventuras urbanas. Os condutores aceleram constantemente e quase que batem. Fartam-se de buzinar e só travam mesmo em cima das paragens. Mas é impressionante como não batem. Têm ótimos reflexos.

Parámos perto da estação e voltámos a dividir-nos. Andámos por ali às voltas e entrámos por uma rua cheia de mercado - com muita cor, muitas coisas, muita gente. Os coreanos que se metiam connosco perguntavam, "Jamboree?" e nós "Yes", e eles: "Where are you from?" e nós, "Portugal". E eles, "Ooh", e faziam a relação ao país com o desporto, dizendo, "Junior Socker" (Portugal ganhara nesse ano o mundial, na Luz), e "Eusebio" e ainda "Lopes, maraton". Ao quinto ou sexto coreano, rendemo-nos ao sotaque porque assim entendiam-nos melhor. 

Tínhamos combinado com os CNEs às quatro e meia para telefonarmos para a Embaixada. Lá fomos, mas antes fomos comer um Hamburger ao "Wendy's" e fomos à "Embaixada" (que agora era nick name para WC). Depois lá nos encontrámos todos com a conselheira do Embaixador. Fomos de autocarro até ao sítio das compras. A conselheira insistia com a "Guida" em comprar uma imitação genuína dum fato de treino da Channel. Nessa tarde, fartámo-nos de andar "nas ruas do comércio", de discutir preços, de discutir preços e, ah, de discutir preços também (acabámos por comprar bastantes coisas, sobretudo coisas típicas coreanas, entre elas máscaras características).

No fim das compras fomos comer ao Mc Donald's Os preços daqui já não eram como os de Moscovo, por um hamburger já pagávamos duzentos e tal escudos.

Regressámos à estação de autocarro. Ficou combinado com a conselheira encontrarmo-nos todos no dia seguinte às 15.30h no Harden's - outra casa de hamburgers, para depois irmos lanchar a casa do Embaixador e falarmos com ele. Saímos na estação e apanhámos outra carreira, para a paragem mais próxima do campo de formação. Fizemos os tais 2km a pé. Quando chegámos, o Mr. Yum estava chateado porque não disséramos que íamos chegar tarde. Mas afinal tinha sido um mal entendido entre o Tó e o Mr. Yum.

Quando fomos para a tenda, o Bruno e o Ricardo andaram ao moshe com os CNEs para adquirirem o resto do pequeno almoço que o chefe nos tinha oferecido. Depois fomos dormir.

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Primeiras impressões de Seul | Dia 1 de Agosto - 4º dia de atividade

 Os primeiros a levantar-se foram o Zé Inácio e o Cabrita. Os outros ficaram a comer as bolachas Maria do Ricardo a ver se conseguiam arranjar coragem para se levantarem. Mas combináramos estar prontos às 9.00h para falarmos com o Chefe, e a carrinha vinha buscar-nos para levar-nos ao centro de Seul; portanto tivemos de arranjar coragem. Fomos tomar banho e fazer o pequeno-almoço, que foi Farinha Pensal de Chocolate feita com leite em pó (todos estes ingredientes e das outras refeições em campo foram comprados no Continente no dia anterior à partida). 

Depois de comermos, de lavarmos a loiça e de arrumá-la, fomos falar com o chefe. Ele trazia-nos o pequeno-almoço, mas já não era preciso... De qualquer modo guardámo-lo para outras refeições.

O Chefe perguntou-nos até quando iríamos ficar lá e nós concordámos unanimemente com a ideia do "até dia 7", que foi o que respondemos. Ele concordou, aliás era o dia em que a maioria dos escoteiros iam para Sorakson - o local do Jamboree. 

Ele acrescentou que a carrinha vinha buscar-nos naquele dia, mas não sabia se conseguiria arranjar carrinha todos os dias. 

A carrinha veio. Embora com mais espaço, continuávamos cheios de calor e depois o ar condicionado só funcionava às vezes. Em Seul, ficámos na estação. Primeiro pensámos em andar juntos durante o dia, mas depois o Tó, o Bispo e o Nuno preferiram andar à sua vontade.

Pusemo-nos a pensar um bocado e decidimos ir à Embaixada. Vimos o caminho pelo mapa e pusemo-nos a andar. Pelo caminho passámos pelos correios e comprámos selos e postais. Mandámos alguns e guardámos os selos restantes. Quando chegámos à Embaixada - que era num edifício novo e grande - íamos começar a falar em inglês quando nos dirigiram a palavra em português, bastante bem falado. Perguntámos se podíamos falar com o Embaixador, mas elas responderam que ele não estava. 

Como nós durante estes dias em Seul queríamos conhecer a cidade o melhor possível, pedimos que nos dissessem os sítios mais giros para se visitarem. Entretanto chegou a conselheira do Embaixador. Ficou muito contente com a nossa visita. Viemos a saber por ela os nomes das funcionárias com quem falámos. Elas têm nomes em coreano e em português, para ser mais fácil. A conselheira chama-se Maria Júlia e as funcionárias, Mónica e Isabel. Perguntámos de novo pelo Embaixador e disse-nos que ele ia deixar de ser Embaixador e que estava agora a arranjar as coisas para partir. Depois aconselhou-nos uma data de sítios para visitar.

Como a Rita era muito parecida com uma sobrinha dela que se chama Guida, começou a chamar-lhe Guida. Em vez de escoteiros, chamou-nos escudeiros - sempre. A senhora conselheira era muito despachada e estava contente com a nossa visita. Durante a conversa, falámos de Moscovo e de como era. Reparámos que, em vez de Moscovo, dizia Moscow, e que em vez de URSS dizia USSR, tudo pegado. Eis se não quando, estava a D. Maria Júlia a falar com a Mónica e diz de repente: "É que eu gostava de ir almoçar com eles". Não era por nada, mas era mesmo o que queríamos. Então, acabada a conversa, saímos para almoçar. Seguimos por umas ruas até um belíssimo restaurante ao ar livre. Mandaram trazer pratos que não fossem muito picantes mas havia lá um que picava e muito. Comemos uma sopa gigante que enchemos com arroz que vinha numa tigela à parte; aquilo que picava imenso que não sei descrever, e aprendemos a comer com pauzinhos. À sobremesa comemos melancia. Para disfarçar o picante na garganta, bebemos água, muita água...

A seguir ao almoço regressámos à Embaixada. Falámos sobre os mercados em Seul. A Conselheira disse-nos que, ao preço que nos pedissem, deveríamos dividi-lo por metade, e a partir daí, discutir o preço até ao mínimo. Um pouco mais tarde, enquanto falávamos de coisas sobre Portugal e bebíamos café e comíamos bolachinhas, aproveitámos para ir discretamente, um a um, à casa de banho, que era esplêndida. A partir daí, batizámos todas as casas-de-banho de "embaixadas". 

A combinação final com a conselheira foi que, no dia seguinte, telefonávamos entre as 4h e as 4h30 a fim de combinar encontrarmo-nos num sítio para irmos todos às compras a um lugar onde vão muitos turistas e há muitas imitações "genuínas" e "más imitações" [de coisas de marca] disse ela, perto da base americana em Seul (um mercado que os americanos fizeram ali há três anos).

A seguir fomos ao Museu Nacional de Arqueologia. Tínhamos combinado encontrarmo-nos com o Tó, o Bispo e o Nuno na estação às 17h30 pois a carrinha vinha buscar-nos às 18h, por isso não tínhamos muito tempo para estar no museu. O museu era enorme, com quatro andares. As exposições às quais pode dizer-se que demos apenas uma vista de olhos eram nas salas que circundavam uma sala grande, tipo assembleia, que tinha a altura total do edifício. Foi esse o sítio do museu que mais apreciámos.

No caminho - apressado - do regresso, reparámos nalgumas bancas de venda que vendiam peixe seco. Reparámos num - único - peixe fresco, com grandes cubos de gelo a tentarem manter a frescura do peixe. Ficámos contentes por termos chegado perto da estação, do outro lado da avenida, dentro do horário combinado. Descemos a uma passagem subterrânea e perdemo-nos. Aquilo tinha caminhos por todos os lados. Tentámos um e outros e nunca mais dávamos com o raio da estação. Para ajudar, as tabuletas eram muito elucidativas, todas em coreano, claro. Por fim, e atrasados, demos com a estação. O Tó disse-nos que a carrinha já lá estava há um bocado. Fomos a correr para ela. Connosco, na carrinha, estava também um chefe mexicano que ia ficar no campo de formação.

Quando chegámos ao campo, qual não foi a nossa frustração, quando percebemos que o chefe mexicano ia ficar a dormir dentro da sede. Sentimo-nos um bocado discriminados. Mas também, já estávamos bem instalados na tenda, que era enorme, também não tinha importância. 

Depois fomos tomar banho. Antes do jantar, o Zé Inácio e o Jaime lavaram a camisa. Quando  Zé ia estendê-la, chegou o Mr. Jun e, entre mímica, conseguiu convencer o Zé a encharcar a camisa e a segui-lo. Era para metê-la na máquina de secar! 

Comemos o mesmo que no dia anterior, mas estava melhor - parecia que nos habituávamos bem às comidas de pacote. Estávamos com grande pedalada para falar e o Jaime, o Cabrita e o Zé Inácio, juntamente com o Tó, o Bispo e o Nuno, ficaram a contar as suas aventuras e desventuras das descidas e subidas de rios que já fizeram. 

Deitámo-nos às 23h30.

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

De Moscovo a Seul | Dia 31 de Julho de 1991 - 3º dia de atividade

Quando já sobrevoávamos a China, vimos ao longo de bastante tempo, a muralha. Durante a descida a Xangai, o piloto andava às voltas com o avião, e havia muitos poços de ar. Em Xangai parámos durante uma hora e meia. Durante a paragem, surgiu um nevoeiro esquisito do teto do avião. Achámos aquilo um bocado estranho (por inexperiência), mas lá nos habituámos. Infelizmente não pudemos sair. Assim, ficámos dentro do avião, a gozar a cena que se passava lá fora - nas pistas acessórias podiam observar-se pessoas a andar de bicicleta na maior das calmas, como se nada fosse. Penso que em nenhum outro aeroporto se lembrariam de deixar pessoas a circular de bicicleta [poderiam ser trabalhadores, mas nada o indicava claramente] pelo aeroporto fora.

No princípio da segunda parte da viagem (a seguir a mais poços de ar e tentativas de sair dali), ouvimos e aplaudimos músicas que os Bolivianos cantavam. Depois, uma rapariga coreana de 16 anos que o Ricardo conhecera no avião, foi lá ter connosco onde estávamos sentados e ensinou ao Ricardo o abecedário coreano e algumas expressões coreanas. Já no fim da viagem, tivemos de preencher um formulário que era obrigatório entregar no aeroporto de Seul. Fez-nos impressão como estávamos já às 17.15h de Seul do dia 31 de Julho! Custou-nos a habituar.

Ao contrário das expressões duras dos russos, aqui os coreanos sorriam e cumprimentavam-nos com alegria [creio que muita gente estaria informada do evento internacional]. Reparámos na sofisticação do aeroporto. Quando chegámos ao sítio onde tínhamos de mostrar os passaportes, além dos inúmeros anúncios ao Jamboree, estava lá um escoteiro com uma tabuleta na mão a dizer Portugal. Começámos a sentir uma organização extrema que nos fez sentir bem. O escoteiro falava inglês e ajudou-nos a preencher o resto dos formulários. A seguir a mostrar o passaporte fomos buscar as mochilas. Este escoteiro, e outro que o acompanhava, oferecia constantemente carros de carga, pois achou-nos demasiado carregados com aquelas mochilas. De seguida fomos trocar dinheiro. Aqui as contas com dinheiro também eram fáceis. Era só dividir por cinco. Um Wouwn é equivalente à quinta parte de um escudo - vinte centavos [4 cêntimos de euro]; ao contrário de um rublo, que vale 5 escudos. Era fácil, portanto.

À saída do aeroporto, tínhamos uma carrinha só para nós, que ia levar-nos até um campo de formação de escoteiros, a 30km do centro de Seul. Assim que saímos para o exterior, parecia que tínhamos entrado numa piscina coberta. O céu estava coberto de nuvens e estava muito calor e muita humidade. Colocámos, com algum custo, todas as bagagens e toda a gente na carrinha. Mesmo com calor e suores, estávamos cansados e dormitámos um pouco.

O campo de formação de escoteiros ficava nos subúrbios da cidade, bastante isolado e ao pé de um campo de golfe e de um campo de arroz. O edifício da sede imitava uma tenda. Tinha uma sala grande assim que se entrava, com uma mesa de reuniões. À volta desta, podiam observar-se bustos de figuras importantes do escotismo coreano e posters de acampamentos. Mais perto da entrada e à esquerda, havia um balcão com coisas do Jamboree à venda. Depois ao pé havia uma porta que dava para o escritório do presidente. Do outro lado havia um grande refeitório e outras salas. Estivemos a falar com o chefe e conhecemos o senhor que tomava conta daquilo - o Se. Yum, uma figura caricata, com quem aprendemos várias coisas e nós também lhe ensinámos, apesar de ele não saber falar inglês.

Deram-nos duas tendas grandes. Uma ficou para os CNE e a outra para nós. O Jaime, o Zé Inácio e o Cabrita ficaram a montar a tenda, enquanto o Bruno, o Ricardo e a Rita ficaram nas escadas do edifício da sede. Entretanto, começou a chover, mas até soube bem. As mochilas, que tinham ficado à porta da sede, foram carregadas pelos três mais novos. A seguir brincámos com um cachorrinho que lá havia.

Depois de tudo arrumadinho, fomos tomar banho. O banho frio soube bastante bem, mas com a humidade e o calor, passados cinco minutos, apetecia-nos mais um banho. A seguir fomos preparar o jantar. Ao pé dos balneários e das casas de banho (que além de não serem limpas há bastante tempo, tinham uns besouros horrorosos) havia um chafariz e uma mesa. Foi aí que preparámos o jantar e a maior parte das outras refeições no campo de formação. O nosso jantar foi arroz à valenciana, daquele de preparação instantânea. Depois do jantar e de se ter lavado a loiça, fomo-nos logo deitar.  

Sair de Moscovo no dia do golpe de estado | 19 de Agosto de 1991 - 22º dia de actividade

 A partida do autocarro para o aeroporto era às 6h. Já havia claridade quando nos levantámos, às 4h30, hora do início do golpe de estado. Nã...